




O Assassinato de Roger Ackroyd
Agatha Christie











Ttulo original
THE MURDER OF ROGER ACKROYD

Traduo
HEITOR BERUTTI






APTULO I


ENQUANTO O DR. SHEPPARD ALMOA

Mrs. Ferrars morreu na noite de quinta-feira, de 16 para 17 de Setembro. Foram chamar-me s oito horas 
da manh de sexta-feira, 17. Nada havia a fazer; estava morta havia algumas horas..

Quando voltei para casa, passava das nove. Abri a porta da entrada com a chave e permaneci alguns 
instantes, propositadamente, no vestl'bulo, para pendurar o chapu e o sobretudo de meia estao que 
julgara conveniente levar, para proteger-me do frio incipiente daquela manh outonal. Para dizer a verdade, 
sentia-me perturbado, mal-humorado. No pretendo dizer, com isto, que previsse os acontecimentos que 
iriam desenrolar-se pouco depois; devo declarar, mesmo, que no tive qualquer sensao definida. O meu 
instinto, entretanto, pressentia que estava para acontecer alguma coisa emocionante.

Da sala de jantar,  esquerda, chegava o tinido de copos e de loua e o tossir de minha irm Caroline.

- s tu, Jacques? - perguntou.

Pergunta inteiramente intil; quem havia de ser? Era minha irm a causa daquela demora na antecmara.

Conta Kipling que o lema das doninhas na ndia : Corre e descobre.   Se tivesse de aconselhar Caroline a 
ado.tar uma divisa, seria, sem dvida, esta, com uma doninha rampante; mas sem a primeira parte: 
Caroline consegue realizar qualquer investigao, permanecendo tranquilamente em casa. No sei como o 
faz, sei, porm, que o consegue sempre. Tenho uma vaga desconfiana de que a criadagem e os 
fornecedores constituem as suas fontes de informaes. Quando sai, no  para colher notcias, mas para 
difundi-las; e tambm nisto se revela de uma percia admirvel.

Era precisamente essa ltima particularidade do seu carcter que me mantinha suspenso num estado de 
viva incerteza. O que quer que eu dissesse a propsito da morte de Mrs. Ferrars, tinha a certeza de que, 
dentro de hora e meia, o mximo, seria conhecido em toda a regio. Na minha qualidade de mdico, dou, 
naturalmente, valor  discrio; por isso contra o hbito de ocultar de minha irm qualquer notcia, pelo 
menos at onde me for possvel.  verdade que ela chega a saber tudo, igualmente, mas tenho pelo menos 
a satisfao moral de dizer que no foi por mim que o soube.

O marido de Mrs. Ferrars morrera havia pouco mais de um ano, e Caroline sempre sustentara, embora a 
sua convico no tivesse o mnimo fundamento real, que a esposa o envenenara.

Recusava-se, desdenhosamente, a aceitar a minha invarivel declarao de que Ferrars morrera de 
gastrenterite aguda, agravada pelo abuso constante de bebidas alcolicas. Concordvamos em que os 
sintomas da gastrenterite e os do envenenamento arsenical se assemelham, mas minha irm alicerava as 
suas acusaes em argumentos bem diversos.

- No precisas mais do que fitar-lhe o rosto disse certa vez.

Mrs. Ferrars, embora no muito jovem, era formosa e os seus vestidos, mesmo feitos com simplicidade, 
assentavam-lhe sempre admiravelmente; mas h uma quantidade de senhoras que compram os seus trajos 
em Paris sem por isso sentirem a necessidade de envenenarem os maridos.

Enquanto permanecia indeciso na antecmara, revolvendo na mente estas circunstncias, ouviu-se a voz de 
Caroline, desta vez um tanto aborrecida:

- Que ests a a fazer, Jacques? Porque no vens almoar?

- J vou - apressei-me a responder. - Estava a pendurar o sobretudo.

- A esta hora, j tinhas tempo de pendurar meia dzia.

Pura verdade: no podia deixar de conceder-lhe razo. Entrei na sala de jantar e, depois de dar-lhe a 
habitual palmadinha no rosto, sentei-me diante do prato de ovos com toucinho que estava na mesa. O 
toucinho j estava frio.

- Tiveste de fazer uma visita muito cedo, esta manh - observou Caroline.

- Sim - respondi. - A Mistress Ferrars, na Quinta do Rei.

- J sei.

- Como soubeste?

- Foi Anny quem me contou.

Anny  a criada. Jovem simptica, mas tagarela impenitente.

Houve uma pausa, durante a qual continuei o meu almoo. A ponta do nariz de Caroline, longo e subtil, 
comeou a vibrar nervosamente, o que acontece todas as vezes que est interessada num assunto.

- Ento? - perguntou.

- Um caso triste. Nada pude fazer. Deve ter morrido enquanto dormia.

- J sei - disse novamente Caroline.

Desta vez, abespinhei-me.

- No podes saber - respondi secamente. - Eu prprio no sabia, antes de l chegar e ainda no o contei a 
ningum. Se a tagarela da Anny sabe, ento  porque adivinha!

- No foi Anny quem contou. Foi o leiteiro, que soube do caso pela cozinheira da casa Ferrars.

Como j disse, no  necessrio que minha irm saia para caar notcias. Deixa-se ficar em casa e as 
notcias chegam at ela.

- De que morreu? Doena do corao? - continuou.

- O leiteiro no te informou? - perguntei com sarcasmo.

O sarcasmo no a afecta. Toma tudo ao p da letra.

- No sabia - explicou.

Cedo ou tarde saberia. No importava, portanto, que lho dissesse.

- Morreu por ter ingerido uma dose muito forte de veronal. Tomava-o j h tempos para combater a insnia. 
Deve ter tomado muito.'

- Qual! - interrompeu Caroline. - Foi de propsito. Pensas que acredito nisso?

Estranho! Quando algum tem uma convico ntima e secreta que no quer admitir nem para si mesmo, 
se acontece que outro a descobre, pode ter-se a certeza de que procurar neg-la energicamente. Foi por 
isso que investi contra minha irm, com os mais vivos protestos.

  - Eis que te entregas de novo aos teus despropsi-
tos - disse-lhe. - Por que motivo havia Mistress
Ferrars de atentar contra a prpria vida? Viva, ainda
regularmente jovem, em boas condies financeiras,
  com boa sade, nada mais tinha a fazer do que viver
  alegremente e gozar a vida.  absurdo o que dizes.
  - Qual! Tu tambm deves ter notado que ultima-
  mente estava muito diferente. Essa mudana datava de
  h seis meses. Parecia atormentada por um pesadelo.
  E acabas de dizer que no podia dormir.
  - Qual  ento o teu diagnstico? - perguntei
  friamente. - Talvez um enredo amoroso que termi-
  nou mal?
  Caroline sacudiu a cabea.
  - Remorsos! - exclamou com nfase.
  - Remorsos?

  - Certamente! No quiseste acreditar-me, quando
te dizia que ela envenenara o marido. Agora, estou
mais do que convencida.
  - Mas que lgica h em tudo isto? - observei.-
Se essa mulher tivesse praticado o que dizes, estou
certo de que lhe no faltaria o sangue-frio necessrio
para gozar os frutos, sem se abandonar a essa fraqueza
sentimental que  o remorso.
  Caroline sacudiu de novo a cabea.
  - Talvez existam mulheres com tal qualidade,
mas Mistress Ferrars no era desse tipo. S tinha ner-
vos. Um instinto irresistvel arrastou-a a desembara-
ar-se do marido, porque era uma dessas naturezas
que no podem suportar qualquer sofrimento; e podes
ter a certeza de que a mulher de um homem como
Arthur Ferrars deve ter sofrido, e no pouco!
  Concordei.
  - E, depois da morte do marido, deve ter vivido
na obsesso do crime praticado. Coitada! No posso
deixar de compadecer-me dela.
  No creio que minha irm tenha experimentado
um sentimento de comiserao pela senhora Ferrars,
enquanto esta vivia. Agora, porm, encontrava-se num
mundo em que (verosimilmente) no se usam as mo-
das e os figurinos de Paris, e Caroline sentia-se dispos-
ta a deixar-se vencer pelos mais brandos sentimentos
de piedade e de indulgncia.
  Disse-lhe que as suas suposies eram absurdas.
E insisti, com mais firmeza, pelo prprio facto de sen-
tir-me forado a admitir, em parte, o que ela dizia.
Mas no queria que chegasse a descobrir a verdade,
baseando-se, apenas, em hipteses e em interrogaes;
no pretendia, de modo algum, encorajar aquele seu
modo de proceder. Tinha a certeza de que iria expor
pela vila as suas conjecturas, e todos ficariam julgando
que se baseava em dados e informes mdicos forneci-
dos por mim. Infelizmente, a vida reserva-nos muitas
amarguras!







  - Dizes que as minhas palavras so absurdas-
prosseguiu, respondendo s minhas crticas. - Vers!
Queres apostar em como deixou uma carta em que faz
plena confisso?
  - No deixou carta alguma - respondi secamen-
te, sem prever as consequncias de semelhante decla-
rao.
  - Ah! Ento interessaste-te? Creio que, no fundo,
Jacques, pensas como eu. Conheo-te bem; sabes dis-
farar!
  - No podemos afastar a eventualidade de um
suicdio! - afirmei em tom conciliador.
  - Faro um inqurito?
  -  possvel. Se puder declarar-me convencido de
que o veneno foi ingerido acidentalmente, o inqurito
poder ser dispensado.
  - E ests convencido? - sondou.
  No respondi. Abandonei a mesa.



CAPTULO II

O ANURIO DE KING'S ABBOT


  Antes de prosseguir no relato do que disse a Caro-
line e do que Caroline me disse, vale a pena dedicar al-
gumas palavras ao que chamarei a nossa geografia re-
gional.
  O nosso burgo, King's Abbot,  um burgo como
qualquer outro. A cidade mais prxima, Cranchester,
acha-se a cerca de doze quilmetros. Temos uma gran-
de estao ferroviria, uma pequena agncia postal e
dois estabelecimentos de gneros diversos, que esto
em perptua rivalidade entre si. Quem  so e robusto
demonstra uma acentuada tendncia para deixar o lu-
garejo, enquanto  novo. Em compensao, King's

Abbot tem a fama de hospedar um nmero regular de
solteironas e militares aposentados. Os nossos recursos
e distraces intelectuais podem ser sintetizados numa
s palavra: mexericos.
  No lugarejo, s h duas casas de certa importncia.
Uma  a Quinta do Rei, a outra,  a villa Fernly, cujo
proprietrio  Mr. Roger Ackroyd. Este sempre me
interessou, pelo facto de parecer a quinta-essncia do
fidalgo do campo. D a impresso de uma daquelas
rubicundas personagens que, em outros tempos, va-
mos aparecer na cena, aos primeiros compassos do pri-
meiro acto das velhas operetas, cujo cenrio represen-
tava um vilarejo em flor. Geralmente cantavam uma
cano em que falavam de uma viagem a Londres.
Hoje, temos as revistas, e o tipo do fidalgote do campo
desapareceu das cenas de opereta.
  Verdadeiramente, Mr. Ackroyd no pode ser cha-
mado um gentil-homem do campo.  um fabricante
de rodas para veculos ferrovirios, muito feliz nos
seus negcios. Tem cerca de cinquenta anos, rosto co-
rado e modos cordiais.  ntimo do padre, generoso
nas subscries para os fundos da parquia - embora
seja voz corrente que  extremamente sovina nas suas
despesas pessoais - promove jogos desportivos e auxi-
lia os crculos em prol da juventude e dos institutos
destinados aos ex-combatentes inutilizados para o tra-
balho. Em resumo,  a alma, a vida do nosso pacfico
povoado de King's Abbot.
  Quando Roger Ackroyd era novo, aos vinte e um
anos, apaixonara-se por uma linda mulher que tinha
cinco ou seis anos mais do que ele, e acabara por ca-
sar-se. Chamava-se Paton, era viva e tinha um filhi-
nho. Os incidentes desse matrimnio foram breves e
dolorosos. Para falar com toda a clareza, Mrs. Ack-
royd era alcolica, e, quatro anos depois do casamen-
to, o torpe vcio levou-a  sepultura.
  Nos anos que se seguiram, Mr. Ackroyd no mos-
trou inteno de arriscar-se a novas aventuras matri-
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moniais. O filho do primeiro matrimnio de sua esposa
tinha sete anos quando a me morreu. Actualmente,
tem vinte e cinco. Mr. Ackroyd sempre o considerou
como seu prprio filho e como tal o educou, mas ele
tornou-se um malandro e uma fonte de contnuos
aborrecimentos e desgostos para o padrasto. Entretan-
to no lugarejo, Rudolph Paton conquistou a simpatia
de todos, pois no se pode deixar de reconhecer que 
um belo rapaz.
  Como j disse, neste pequeno ambiente todos te-
mos tendncias para o mexerico. Cada um notara, des-
de o princpio, que Mr. Ackroyd e Mrs. Ferrars se
compreendiam maravilhosamente. Depois da morte do
marido, a intimidade tornara-se mais acentuada. Eram
visto sempre juntos nos passeios e pensava-se, natural-
mente, que, terminado o luto, Mrs. Ferrars se torna-
ria a Mrs. Ackroyd. Era, efectivamente, uma unio
que parecia acertada, em certo sentido. Mrs. Ackroyd
morrera por intoxicao alcolica. Mr. Arthur Ferrars
fora um bebedor inveterado, durante toda a vida; nada
mais justo do que as duas vtimas dos excessos alheios
se consolassem, reciprocamente, de quanto tinham so-
frido por culpa dos respectivos cnjuges.
  Os Ferrars tinham vindo morar para a vila havia
pouco mais de um ano, mas em torno de Mr. Ackroyd
a bisbilhotice exercitava-se h muito tempo. Durante a
adolescncia de Rudolph Paton, uma srie de gover-
nantas dirigira os negcios domsticos na casa Ack-
royd e cada uma fora observada com olhares suspeito-
sos, por minha irm e pelas velhas comadres. No
exagero dizendo que, durante quinze anos, pelo me-
nos, todos os do lugarejo viveram na convico de que
veramos Mr. Ackroyd casar-se com uma das gover-
nantas. A ltima, uma formosa criatura, Mrs. Rus-
sell, dominou plenamente durante cinco anos, dobro
do tempo das que a precederam. Julga-se que se no
  fosse o aparecimento de Mrs. Ferrars, dificilmente
  Mr. Ackroyd teria escapado. Salvou-o essa circunstn-
cia e outra concomitante; isto , a repentina volta do
Canad de uma cunhada viva, com a filha. Essa se-
nhora, viva de Camile Ackroyd, o irmo mais novo e
desajuizado de Roger, fixou residncia na villa Fernly
e conseguiu, no dizer de Caroline, colocar Mrs. Rus-
sell no lugar que lhe competia.
  Verdadeiramente, no sei o que se pretende dizer
com a expresso   coloc-la no seu lugar  . Parece-me
uma frase desagradvel e antiptica - mas sei que
Mrs. Russell vive a murmurar e, esboando um sorriso
azedo e forado, protesta a sua profunda simpatia por
  aquela pobre Mrs. Ackroyd, obrigada a viver da cari-
dade do irmo de seu marido. O po da esmola  bas-
tante duro, no  verdade? Sentir-me-ia muito infeliz
se no pudesse trabalhar para o meu sustento  .
  No sei o que pensava Mrs. Ackroyd da atraco
que havia entre o seu cunhado e Mrs. Ferrars, quando
isto se tornou conhecido de todos. Naturalmente, ti-
nha grande interesse em que ele no se casasse de no-
vo, mas sempre demonstrara uma amabilidade extre-
ma, para no dizer exagerada, para com Mrs. Ferrars.
Minha irm explica que isto nada significa.
  Tais so as nossas preocupaes dirias em King's
Abbot, de alguns anos a esta parte; examinmos e dis-
cutimos a figura de Ackroyd e os seus negcios sob
todos os aspectos; e Mrs. Ferrars completava, maravi-
lhosamente, o quadro das bisbilhotices.
  Eis que, de repente, da pacfica discusso sobre o
prximo matrimnio, camos no corao da tragdia.
  Remoendo no pensamento estas e outras circuns-
tncias, fui fazer as minhas visitas de costume. No ti-
nha casos de especial interesse a atender e isto talvez
tenha sido um bem, porque os meus pensamentos no
podiam afastar-se da morte misteriosa de Mrs. Fer-
rars. Ter-se-ia na verdade suicidado? Neste caso, era
impossvel que no tivesse deixado uma carta, uma pa-
lavra, para dizer o que resolvera fazer. No decorrer da
minha experincia, pude verificar que, quando uma

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mulher decide eliminar-se, geralmente no deixa de
revelar o estado de alma que a conduz ao passo fatal.
Quase sempre quer que o seu caso faa rudo.
  No se passara uma semana depois da ltima vez
que a vira. O seu comportamento fora normal, em vis-
ta de... enfim, em vista de tudo.
  Mas, repentinamente, lembrei-me de que a vira na
vspera, embora lhe no tivesse falado.
  Andava em passeio com Rudolph Paton, o que me
surpreendeu, porque no tinha a mnima ideia de que
ele se encontrasse em King's Abbot. Na realidade, jul-
gava que tivesse rompido, definitivamente, com o pa-
drasto. Havia seis meses que no aparecia por estas
paragens. Os dois caminhavam ao lado um do outro,
olhando-se gravemente.
  Creio poder dizer, com segurana, que naquele
momento tive um vislumbre do que iria acontecer.
Nada de positivo, apenas um vago, indefinido pressen-
timento. A lembrana daquele dilogo to grave da
vspera, entre Rudolph e Mrs. Ferrars, causou-me
uma impresso desagradvel.
  Estava a pensar nisto, quando dei de rosto com
Roger Ackroyd.
  - Doutor! - exclamou. - Preciso muito de si!
 uma coisa terrvel!
  - Ento, j sabe?
  Respondeu que sim. A notcia atingira-o em cheio,
como pude verificar. O rosto largo e feliz parecia enve-
lhecido, e o jovial, exuberante Ackroyd no parecia o
mesmo.
  - Oh! H outra coisa ainda pior que o senhor no
sabe! - disse baixinho. - Oua, doutor, preciso fa-
lar-lhe. Pode acompanhar-me neste momento?
  - No posso. Tenho de visitar trs doentes e devo
voltar ao meio-dia para o meu consultrio.
  - Ento, venha  tarde; no,  melhor que v jan-
tar comigo,  noite, As sete e meia. Serve?
  - Sim, irei. Mas, que aconteceu? Trata-se de Ru-
dolph?

  Fitou-me atnito, como se no conseguisse com-
preender. Comecei a perceber que devia ter acontecido
alguma coisa de extremamente grave. Nunca o vira to
perturbado.
  - Rudolph - disse vagamente. - Oh! No, no
 Rudolph. Rudolph est em Londres. Diabo! Vem ali
Miss Ganett. No quero falar-lhe sobre este horrvel
assunto. Ver-nos-emos  noite, doutor. As sete e meia,
est combinado?
  Fiz-lhe um sinal de assentimento e ele afastou-se
rapidamente, deixando-me perplexo. Rudolph em
Londres? Mas se, no dia anterior, estava em King's
Abbot! Podia ter voltado  cidade, na tarde daquele
dia ou de manh cedo, mas o modo com que Ackroyd
acolhera a minha pergunta deixara-me uma impresso
bem diversa. Falara como se Rudolph se encontrasse
ausente h muito.
  No tive tempo de perder-me em conjecturas.
A Miss Ganett j me assediara sedenta de notcias.
Tem todas as caracterstics de minha irm, mas falta-
-lhe aquela habilidade infalvel para tirar concluses,
que confere certa grandiosidade s manobras de Caro-
line. Ansiosa e cheia de curiosidade, abordou-me:
  - Que desgraa aconteceu  pobre Mistress Fer-
rars! Muita gente afirmava que h anos se entregava a
estupefacientes.  sempre mau quando o povo comea
a murmurar! Entretanto, no meio desses reparos, de-
via de haver um pouco de verdade! No h fumo sem
fogo! Dizia-se, tambm, que Mister Ackroyd soubera,
e que, por isso, rompera o noivado; pois era inegvel
que existia um noivado...
  Ela mesmo, pessoalmente, tivera provas incontes-
tveis. Naturalmente, eu devia saber tudo isto; que 
que no sabem os mdicos? Mas nunca dizem nada.
  Tagarelava cravando-me no rosto os olhos redon-
dos e inquiridores, para observar o efeito que as suas
palavras produziam. Felizmente, a longa convivncia
com Caroline j me habituou a manter uma atitude
impassvel e a rebater com golpes breves e certeiros.

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  Disse a Miss Ganett que fazia muito bem em aban-
donar os mexericos e a malevolncia do povinho. Um
contra-ataque elegante. Efectivamente, ficou um pou-
co embaraada e, antes que lhe fosse possvel encon-
trar uma resposta, afastei-me.
  Voltei para casa pensativo. Alguns doentes espera-
vam-me no consultrio.
  Tinha atendido o ltimo, pelo menos assim o jul-
guei, e j me preparava para descer um momento ao
jardim, antes de sentar-me  mesa, quando vi outro
cliente na sala de espera. No pude ocultar um mo-
mento de surpresa.
  No saberia como explicar esse meu gesto de es-
panto, a no ser que se queira admitir que, na figura
de Mrs. Russell haja alguma coisa que lembre o bron-
ze ou o ferro fundido, qualquer coisa, em resumo, su-
perior s comuns fraquezas da carne.
  A governanta de Mr. Ackroyd  uma mulher alta,
bem formada, mas, em conjunto, tem um aspecto na-
da simptico. O olhar sombrio, os lbios sempre aper-
tados, fazem-me pensar que, se eu fosse uma criadi-
nha dependente dela, fugiria at o fim do Mundo,
logo que se aproximasse de mim.
  - Bom dia, doutor - disse. - Quer ter a gentile-
za de examinar-me o joelho?
  Observei-lhe atentamente o joelho, mas, para dizer
a verdade, depois do primeiro exame, sabia menos do
que antes. Mrs. Russell falou-me de dores vagas e as
suas palavras eram to pouco convincentes que, se se
tratasse de outra pessoa eu teria suspeitado de fmgi-
mento. Por um momento, passou-me pela mente a
ideia de que tivesse inventado, deliberadamente, aque-
le mal no joelho para me fazer falar a respeito da mor-
te de Mrs. Ferrars; mas logo me apercebi de que, nes-
te ponto pelo menos, a estava julgando mal. Uma
rpida referncia  tragdia e nada mais. Entretanto,
parecia disposta a deixar-se ficar de conversa.
  - Bem, muito obrigada pela pomada, doutor-
disse finalmente. - No que acredite que ela possa
produzir efeito.
  Eu tambm era da mesma opinio, mas, por dever
profissional, protestei:   Em todo o caso, se no fizer
bem, tambm no far mal.   No se deve desacreditar
a profisso.
  - No confio em nenhum desses medicamen-
tos - disse Mrs. Russell, lanando um olhar de des-
prezo para a fila dos frascos de medicamentos. - A1-
guns remdios so muito prejudiciais. Veja, por
exemplo, a cocana.
  - Realmente, quanto a essa...
  - Na boa sociedade,  largamente usada.
  - Certamente, conhece a boa sociedade melhor do
que eu. - Nem sequer tentei contradiz-la.
  - Diga-me uma coisa, doutor - continuou.-
Suponhamos que o senhor  um cocainmano. Pode-
riam cur-lo?
  No se pode responder a uma pergunta dessa esp-
cie, assim do p para a mo. Dei-lhe uma explicao a
propsito, que ela ouviu com viva ateno. As minhas
suspeitas de que quisesse sondar-me, a respeito de
Mrs. Ferrars, comearam a renascer.
  - Agora o veronal, por exemplo... - prossegui...
  Estranho! No parecia interessar-se pelo veronal,
mudou de assunto e perguntou-me se era verdade que
existem venenos to misteriosos que desafiam qual-
quer investigao.
  - Ora - retorqui-lhe. - V-se que  uma leitora
de romances policiais.
  No negou.
  - O enredo do romance - continuei - gira em
torno da possibilidade de existir um veneno rarssimo,
talvez proveniente da Amrica do Sul, de modo que
ningum o descubra; uma substncia venenosa com a
qual os selvagens comummente envenenam as flechas.
A morte  instantnea e toda a nossa cincia europeia
 impotente para desvendar-lhe o mistrio. Aposto que
a senhora quer falar deste veneno, no  verdade?

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  - Precisamente. Mas existe, ento, uma substn-
cia dessa espcie?
  Sacudi a cabea, negativamente.
  - Julgo que no existe. Entretanto h o curare.-
Falei largamente sobre o curare, mas pareceu-me que
perdera novamente o interesse pela explicao. Per-
guntou se tinha venenos no meu armrio e, quando
lhe disse que no, pareceu-me ter diminudo na sua
estima.
  Finalmente, Mrs. Russell disse que precisava de
voltar para casa e acompanhei-a at  porta do consul-
trio, precisamente no momento em que soava a sineta
para o almoo do meio-dia.
  Nunca julguei que aquela mulher fosse uma apai-
xonada leitora de romances policiais. Agrada-me ima-
gin-la a sair do seu quarto, a fim de ralhar com algu-
ma criada briguenta para, em seguida, voltar a ler em
sossego O Mistrio da Stima Morte ou algum outro li-
vro do mesmo gnero.



CAPTULO III

O CULTIVflDOR DE ABBORAS


  Ao almoo, comuniquei a Caroline que aquela noi-
te iria jantar na villa Fernly. No ops qualquer difi-
culdade. Pelo contrrio:
  - Muito bem - disse. - Assim sabers tudo.
A propsito, que aconteceu a Rudolph?
  - A Rudolph? - interroguei surpreendido.-
Nada!
  - Mas ento porque est no Hotel dos Trs Javalis
em vez de estar na villa Fernly?
  No pensei, nem de longe, em pr em dvida a
notcia dada por Caroline de que Rudolph Paton se
encontrava no hotel da localidade. Se ela o afirmava!

  - Ackroyd disse-me que o enteado se encontrava
em Londres - respondi. Atacado, assim, de surpresa,
esqueci a louvvel norma de nunca fornecer informa-
es.
  - Ah! - murmurou minha irm. Pude v-la tor-
cer o nariz, enquanto fazia conjecturas. - Chegou on-
tem, de manh, aos Trs Javalis - continuou Caroline
- e ainda l se encontra. Ontem,  tarde, esteve em
companhia de uma jovem.
  No fiquei surpreendido. Duvido que na vida de
Rudolph haja uma s noite que no tenha passado em
companhia de alguma linda rapariga. O que estranhei
foi que ele viesse distrair-se em King's Abbot, em vez
de o fazer na metrpole.
  - Era uma das garonettes? - perguntei.
  - No, saiu para encontrar-se com ela. No sei
quem seja.
  Ter de confessar a prpria ignorncia  uma verda-
deira amargura para Caroline.
  - Mas posso adivinh-lo - continuou, sem emba-
rao.
  Esperei com pacincia.
  - Sua prima.
  - Flora Ackroyd? - exclamei surpreendido.
  Flora Ackroyd, verdadeiramente, no tem nenhum
parentesco com Rudolph Paton, mas, como h muito
tempo  considerado filho de Ackroyd, o seu parentes-
co  admitido como um facto natural e indiscutvel.
  - Flora Ackroyd - repetiu minha irm.
  - Mas ento porque no foi  villa Fernly, se que-
ria encontrar-se com ela?
  - So noivos secretamente - respondeu Caroline
com viva satisfao. - O velho Ackroyd ignora tudo,
por isso so obrigados a encontrar-se fora de casa.
  Na deduo de Caroline, pareceu-me perceber
muitos pontos obscuros, mas tive o cuidado de no
lhos fazer notar. Uma casual observao sobre o nosso
vizinho desviou a conversa.

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  A casa pegada  nossa - a villa dos Larios - foi
recentemente alugada a um forasteiro. Com vivo des-
gosto, minha irm nada conseguiu at agora descobrir
acerca do recm-chegado; sabe somente que no  dos
nossos lados. Desta vez, as suas fontes de informaes
falharam. Evidentemente, o vizinho deve comprar lei-
te, verduras, carne, e, de vez em quando, peixe como
todos os mortais; mas nenhum dos fornecedores pare-
ce ter conseguido trazer, at ao presente, uma nica
informao digna de interesse. Parece que o seu nome
 Porrot, talvez um nome inverosmil. A nica coisa
que se sabe  que se ocupa da cultura de abboras.
  Mas no  certamente isto que Caroline deseja sa-
ber. Ela quer saber de onde vem, que faz, se  casado,
quem era, isto , quem  sua mulher, se tem filhos,
qual era o nome de famlia de sua me, e assim por
diante. Comeo a acreditar que quem inventou os pas-
saportes devia ser um tipo do gnero de minha irm.
  - Ouve, Caroline - disse-lhe. - No pode haver
dvidas sobre a profisso do nosso vizinho. Deve ser
um cabeleireiro que se retirou dos negcios. No repa-
raste no seu bigode?
  No estava de acordo; achava que se fosse um ca-
beleireiro, teria os cabelos ondulados e no lisos. To-
dos os cabeleireiros os tm assim.
  Citei o exemplo de alguns cabeleireiros que tm os
cabelos lisos, mas Caroline no se convenceu.
  - H dias - disse num tom insatisfeito - pedi-
-lhe emprestados apetrechos para o jardim; mostrou-se
gentilssimo, porm, nada consegui arrancar-lhe. Fi-
  nalmente, perguntei-lhe,  queima-roupa, se era fran-
  cs, e ele respondeu que no; e, no sei porqu, no
  ousei fazer-lhe outras perguntas.
  Comecei a interessar-me mais vivamente pelo nos-
  so vizinho. Um indivduo capaz de fazer calar Caroline
  e de mand-la embora com gua na boca, deve ser cer-
  tamente uma personalidade pouco comum.
  - Parece-me - prosseguiu minha irm - que
  possui um aspirador elctrico para p...

  Vi brilhar em seus olhos o pretexto para uma nova
sondagem e achei maneira de me escapulir para o jar-
dim. Agrada-me muito cultiv-lo e estava arrancando,
de boa vontade, as ervas, quando ouvi um grito de
alarme; um objecto resvalou-me pela cabea e caiu a
meus ps, rachando-se, desagradavelmente. Era uma
abbora.
  Olhei para cima, furioso. No alto, sobre o muro
divisrio, apareceu uma cabea. Era uma cabea ob-
longa, como um ovo, em parte coberta por cabelos de
um negro suspeito, com um bigode imenso e um par
de olhos perscrutadores. Era o nosso misterioso vizi-
nho: Mr. Porrot.
  Desfez-se imediatamente em desculpas.
  - Peo-lhe mil perdes, senhor;  verdadeiramen-
te imperdovel o que fiz! H alguns meses que estou
cultivando abboras. Esta manh, subitamente, abor-
reci-me e mandei-as todas  fava, no apenas mental-
mente, mas tambm materialmente! Agarrei a maior e
atirei-a ao ar. Sinto-me deveras confuso! Peo-lhe que
me desculpe!
  Diante de tantas exibies, a minha clera devia
forosamente de abrandar-se. Afinal, o inslito projc-
til no me atingira. Entretanto, fiz votos para que o
meu vizinho no se acostumasse a atirar aqueles gros-
sos frutos por cima do muro. Um tal costume no se-
ria certamente muito prprio para conquistar-lhe a
nossa simpatia.
  O estranho indivduo pareceu ler os meus pensa-
mentos.
  - Ah, no! - exclamou. - No se preocupe.
No  meu hbito. Mas ser o senhor capaz de imagi-
nar um homem que tenha trabalhado para um deter-
minado objectivo, que se tenha matado de fadiga, es-
gotando-se para alcanar certo grau de bem-estar e
conforto e que, por fim, se surpreenda a pensar, com
viva nostalgia, nas velhas ocupaes que se julgava to
feliz em poder abandonar?

20 21







  - Sim - respondi, medindo as palavras. - Pare-
ce-me que isso  um destino comum. Eu, tambm, h
um ano, tive uma herana; era o bastante para realizar
um velho sonho. Sempre desejei viajar, correr mundo.
Mas, como v, ainda aqui estou.
  O meu minsculo vizinho aprovou com a cabea.
  -  assim mesmo. Acabamos por ser escravos dos
nossos hbitos. Trabalhamos para alcanar um objecti-
vo, e, uma vez alcanado, comeamos a sentir falta das
velhas ocupaes. Digo a verdade, senhor, o meu tra-
balho era dos mais interessantes que existem no Mundo.
  - Ah!, sim? - animei. Por um momento, senti-
-me dominado pelo esprito de Caroline.
  - Estudava a natureza humana, meu caro senhor-
confessou ele.
  - A srio?
  Era evidente que se tratava de um cabeleireiro reti-
rado. Quem conhece os segredos da natureza humana
melhor do que um cabeleireiro?
  - Alm disso - prosseguiu -, tinha um amigo
que, por muitos anos, no se afastou de mim. Embora
fosse, s vezes, de uma imbecilidade comovedora,
queria-lhe muito. Imagine que at a sua estupidez me
era agradvel, e ainda sinto a sua falta. A sua ingenui-
dade, o seu aspecto bonacheiro, o prazer, para mim,
de ora diverti-lo, ora surpreend-lo com as descobertas
da minha inteligncia superior, so coisas que nem lhe
sei dizer como me fazem falta.
  - Morreu? - perguntei com interesse.
  - No. Vive e prospera; mas, no Novo Mundo.
Encontra-se na Argentina.
  - Na Argentina? - exclamei com uma ponta de
inveja. - Sempre desejei muito ir  Amrica do Sul.
  Suspirei e, quando levantei os olhos, observei que
Mr. Porrot me fitava com um olhar de simpatia. Pare-
ceu-me um homenzinho esperto e inteligente.
  - Gostaria de ir l, no  verdade? - perguntou.
  Meneei a cabea, suspirando.

  - Teria podido ir h um ano - respondi. - Fui
um tolo; e, mais do que tolo: o dinheiro obcecou-me.
Arrisquei o assado pelo cheiro.
  - Compreendo - retorquiu o outro. - Comeou
a especular na bolsa.
  Melancolicamente, confirmei com a cabea, mas,
secretamente, divertia-me. Aquele minsculo e ridcu-
lo homenzinho estava to cheio de tranquilidade!
  - No se trata das aces dos terrenos petrolferos
do Porco-Espinho? - perguntou de repente.
  Fitei-o surpreso.
  - Acertou; mas, por fim, decidi-me pelas aces
de uma mina de ouro, na Austrlia Ocidental.
  O meu vizinho olhava-zne com uma estranha ex-
presso, que no consegui interpretar.
  - E o destino - disse, por fim.
  - Qual destino? - perguntei-lhe um pouco abes-
pinhado.
  - Que eu tenha de ser vizinho de uma pessoa que
toma a srio os terrenos petrolferos do Porco-Espinho
e as minas de ouro da Austrlia Ocidental. Diga-me
uma coisa: no tem, s vezes, uma fraqueza entre es-
ses cabelos castanhos?
  Fitei-o de boca aberta, e ele desatou numa garga-
lhada.
  - No, no sou louco. Esteja tranquilo. A minha
pergunta era uma pergunta tola, porque... veja, aquele
meu amigo de que lhe falei era um rapaz que julgava
que as mulheres eram todas boas e que, na sua maior
parte, fossem bonitas. Mas o senhor  um homem
amadurecido, um mdico, um homem que conhece a
vaidade e a loucura das coisas humanas. Bem, bem,
somos vizinhos. Rogo-lhe que aceite a minha mais bela
abbora e presenteie com ela a sua distintssima irm.
  Baixou-se, ergueu um enorme exemplar das suas
cucurbitceas e ofereceu-mo: aceitei-o com a mesma
cordialidade com que me era oferecido.
  - Verdadeiramente - disse-me com alegria-
22 23







no foi uma manh perdida. Travei conhecimento com
uma pessoa que tem vrios pontos de semelhana
com o meu distante amigo. A propsito, queria fazer-
-lhe uma pergunta. O senhor conhece, naturalmente,
todas as pessoas da vila. Quem  aquele lindo rapaz de
olhos e cabelos pretos, que anda de cabea erguida,
um pouco jogada para trs e que tem sempre um sorri-
so simptico nos lbios?
  A descrio no me deixou indeciso.
  - Deve ser o capito Rudolph Paton - respondi
lentamente.
  - Mora aqui?
  - No. H algum tempo que se afastou.  filho,
isto , enteado de Mister Ackroyd, o dono da villa
Fernly.
  O meu interlocutor fez um leve gesto de impacin-
cia.
  - J devia t-lo adivinhado. Mister Ackroyd j me
falou.
  - Conhece Mister Ackroyd? - perguntei, um
pouco surpreso.
  - Mister Ackroyd conheceu-me em Londres,
quando l estive a trabalhar. Pedi-lhe que nada disses-
se, aqui, sobre a minha profisso.
  - Ah! - exclamei, divertindo-me com aquele seu
ar de importncia. Mas ele prosseguiu, imperturbvel,
com um sorriso de superioridade.
  -  prefervel ficar incgnito. No me importa a
notoriedade. Nem sequer me dei ao trabalho de corri-
gir o meu nome, que todos pronunciam errado.
  - Realmente - disse, no sabendo o que res-
ponder.
  - O capito Rudolph Paton - murmurou pensa-
tivo Mister Porrot. - Assim, ele  noivo da sobririha
de Ackroyd, a graciosa menina Flora.
  - Quem lho disse? - perguntei surpreendido.
  - Mister Ackroyd. H uma semana, mais ou me-
nos. Est muito satisfeito; de h muito deseja esse ca-
samento, pelo menos a julgar pelo que me foi possvel
compreender. Penso at que tenha feito certa presso
sobre o rapaz. Isso nunca  aconselhvel. Um rapaz
deveria casar-se para agradar a si prprio e no para
agradar ao padrasto, mesmo quando tenha alguma es-
perana de herdar.
  Fiquei assombrado. No podia imaginar um Ack-
royd que escolhera um cabeleireiro para seu confiden-
te e discutira com ele o casamento de sua sobrinha
com o enteado. Ele costumava tratar com bondosa su-
perioridade as pessoas que lhe so inferiores em classe
e tem uma noo bem viva da sua dignidade. Comecei
a pensar que, afinal, Mister Porrot poderia no ser ca-
beleireiro. Para ocultar a minha confuso, disse a pri-
meira coisa que me passou pela cabea.
  - Que foi que lhe chamou a ateno para Ru-
dolph? Talvez a sua singularidade?
  - No, no, embora como ingls, seja realmente
um belo rapaz, h nele qualquer coisa que no cheguei
a compreender.
  Pronunciou estas ltimas palavras com um ar pen-
sativo, que produziu em mim uma impresso indefin-
vel. Era como se julgasse o rapaz com um critrio
recndito de que eu no podia partilhar. Deixei-o sob
aquela impresso, por ter ouvido minha irm cha-
mar-me.
  Entrei em casa. Caroline tinha o chapu na cabea:
era evidente que voltava da vila. Comeou sem prem-
bulos.
  - Encontrei Mister Ackroyd.
  - Ah!, sim? - exclamei.
  - Fi-lo parar, naturalmente, mas mostrava-se
muito apressado e queria escapar-se.
  No podia ser de outro modo. Devia ter experi-
mentado por Caroline o mesmo sentimento que algu-
mas horas antes me inspirara Miss Ganett, com a agra-
vante de que minha irm no se d por vencida to
facilmente.

24 25







  - Perguntei-lhe logo pelo enteado, o Rudolph, e
ele ficou estupefacto. No queria acreditar que o rapaz
se encontrasse aqui. Disse-me logo que estava engana-
da. Eu enganar-me?!
  -  ridculo - interrompi. - V-se que no te
conhece bastante.
  - Depois disse-me que Rudolph e Flora so noivos.
  - J sabia - respondi com certo orgulho.
  - Quem to disse?
  - O nosso vizinho.
  Caroline hesitou um instante, quase como uma bo-
la de roleta que fica indecisa entre dois nmeros, in-
certa em qual deve cair. Mas, resistindo  tentao de
interrogar-me, continuou:
  - Disse a Mister Ackroyd que Rudolph se encon-
trava nos Trs Javalis.
  - Nunca pensaste, Caroline, que com esse teu h-
bito de dizer tudo, poderias dar lugar a qualquer sa-
rilho?
  - Que tolice! Cada um deve saber quanto lhe diz
respeito e, se no sabe, encarrego-me de inform-lo.
Efectivamente, Mister Ackroyd declarou-se bastante
reconhecido.
  - Est bem - concedi, compreendendo que esta-
va para ouvir qualquer coisa interessante.
  - Parece-me que foi directamente aos Trs Java-
lis; de qualquer modo, se foi, no encontrou Rudolph.
  - Ah! no?
  - No. Porque, quando voltei, passando pelo
bosque...
  - Voltaste passando pelo bosque?
  Caroline corou.
  - Estava um dia to lindo! - exclamou. - Pen-
sei em dar uma volta. Nesta estao, os bosques so
pitorescos, com suas tintas outonais!
  Minha irm nunca ligou a menor importncia a um
bosque, em qualquer estao que fosse. Habitualmen-
te, no os considera mais do que lugares hmidos e

desagradveis. Se no fora a insacivel curiosidade, na-
da a arrastaria at l. O bosque  o nico lugar prxi-
mo de King's Abbot em que se pode falar com uma
jovem sem se ser visto pela populao inteira. Alm
disso,  confmante com o jardim da villa Fernly.
  - Bem - disse-lhe -, continua.
  - Como dizia, atravessava o bosque, quando ouvi
duas vozes...
  Pausa.
  - Ento?
  - Uma era de Rudolph... reconheci-a imediata-
mente; a outra, era de uma mulher. Bem, no queria
ficar a ouvir.
  - Naturalmente - motejei, embora soubesse que,
para minha irm, o sarcasmo era letra morta.
  - Entretanto, no pude deixar de ouvir, sem ser
vista. A rapariga que estava com Rudolph disse algu-
ma coisa; no pude perceber bem do que se tratava, e
ele respondeu, muito irritado (pelo menos, assim pare-
cia):   No vs, querida, que  claro como gua que o
velho quer mandar-me embora sem dinheiro algum?
H muito que est farto de mim. Basta qualquer coisa
para que estoure. E precisamos de dinheiro, no o es-
queas. Ficarei muito rico quando o velho for para o
outro mundo;  sovina, mas garanto-te que  podre de
rico. No quero que mude o testamento. Deixa tudo
ao meu cuidado e no te preocupes.   Estas foram pre-
cisamente as suas palavras; lembro-me, uma por uma.
Infelizmente, nesse momento, coloquei o p sobre um
ramo seco e eles baixaram a voz e afastaram-se lenta-
mente. Como no podia acompanh-los, no pude ver
a rapariga.
  - Que pena! - comentei. - Estou certo, porm,
de que foste at aos Trs Javalis, fingiste sentires-te
mal, entraste no bar e tomaste um conhaque para veri-
ficares se l estavam as duas garonettes!
  - No era uma garonette - respondeu Caroline,
sem hesitao. - Creio, porm, isto , estou quase
certa de que era Flora Ackroyd; somente...


26







  - No condiz.
  - Mas, se no era Flora, quem podia ser?
  Rapidamente minha irm passou em revista os no-
mes das raparigas que moram nos arredores, medindo
as razes pr e contra. Quando parou para tomar fle-
go, murmurei qualquer coisa a propsito de um doen-
te e sa.
  Propusera-me ir aos Trs Javalis; quela hora, Ru-
dolph devia estar de volta.
  Conhecia-o muito bem, talvez melhor do que qual-
quer outro, em King's Abbot, pois conhecera sua me
antes de ele ter nascido; por isso sabia a seu respeito
coisas que teriam embaraado outras pessoas. Podia-se
consider-lo, at certo ponto, vtima da hereditarieda-
de. No herdara de sua me a tendncia para o bem,
mas dela recebera uma fraqueza inata. Como declarara
o meu novo vizinho, era um belo rapaz. Alto, com
cerca de um metro e noventa, de propores perfeitas,
tinha a calma e a graa natural de um atleta; era more-
no como sua me, e o rosto bronzeado pelo sol estava
sempre pronto a expandir-se num sorriso. Era dessas
criaturas que parece terem nascido para seduzir sem
esforo e sem afectao. Gozador e perdulrio, no se
sujeitava a coisa alguma e a ningum; contudo, era ex-
tremamente simptico e os seus amigos atirar-se-iam
ao fogo por ele.
  Chegado aos Trs Javalis, perguntei por ele e sou-
be que acabara de chegar. Subi ao seu quarto e entrei
sem me fazer anunciar.
  Por um instante, lembrando quando vira e ouvira,
fiquei na dvida de como me receberia, mas as minhas
apreenses eram infundadas.
  - Como?  o doutor? Muito satisfeito por v-lo.
  Caminhou para mim, estendendo-me a mo, com
um sorriso luminoso no semblante, e prosseguiu:
  - A nica pessoa a quem tenho prazer de ver nes-
te maldito lugarejo.
  - Que mal lhe fez a vila?

  Soltou uma gargalhada forada.
  - Oh! A histria  longa para ser contada. Os
meus negcios no vo bem, doutor. Aceita um clice?
  Agradeci.
  Tocou a campainha e deixou-se cair numa poltrona.
  - Sem exagero - disse com tristeza - acho-me
numa tremenda embrulhada. Para dizer a verdade,
no sei como me sairei desta.
  -  ue h? - perguntei com solicitude.
  - E aquele pateta do meu padrasto.
  - Que lhe fez?
  - No  o que at agora fez que me preocupa;  o
que, provavelmente, far.
  O criado atendeu  chamada e Rudolph pediu be-
bidas. Depois de ele se ter afastado, o rapaz apoiou os
cotovelos nos braos da poltrona e franziu as sobrance-
lhas.
  - , verdadeiramente... uma coisa sria? - aven-
turei. Confirmou.
  - Na verdade, no sei que acontecer... - conti-
nuou.
  - Se puder fazer alguma coisa por si... - propus
cautelosamente.
  - Muito obrigado, doutor, mas o senhor no pode
entrar neste assunto. Tenho de agir sozinho.
  Ficou um momento em silncio: depois repetiu,
num tom levemente mudado:
  - Sim, devo agir sozinho.



CAPTULO IV

A   VILLA   FERNLY


  Pouco faltava para as sete e meia, quando toquei a
campainha de entrada da villa Fernly. Com inexced-
vel solicitude, Parker, o mordomo, veio abrir.

2g 29







  A noite estava to linda que eu preferira fazer o ca-
minho a p. Entrei no amplo vesti'bulo quadrado e en-
treguei o sobretudo a Parker. Precisamente naquele
momento, o secretrio de Ackroyd, um simptico ra-
paz chamado Raymond, atravessou o trio, dirigindo-
-se para o escritrio do seu chefe, com as mos cheias
de papis e documentos.
  - Boa noite, doutor. Vem jantar? Ou  uma visita
profissional?
  A ltima pergunta aludia a uma maleta preta que
eu trazia comigo e que depusera numa cadeira,  en-
trada.
  Expliquei que esperava uma chamada, de um mo-
mento para outro, para assistir a uma parturiente, e
que, por isso, trouxera o necessrio para qualquer
eventualidade. Raymond fez um sinal de aprovao e
continuou o seu caminho, dizendo, sem se voltar:
  - Espere na sala. Levo estes papis a Mister Ack-
royd e comunicar-lhe-ei que o senhor est aqui.
  Com a chegada do secretrio, Parker retirou-se, de
forma que fiquei s no vestbulo. Endireitei a gravata,
olhei-me no espelho e dirigi-me para a porta que fica-
va em frente, e que eu sabia ir dar  sala.
  Mesmo no momento em que estava para rodar a
maaneta, ouvi um rudo do interior, como o do fe-
char de uma janela. Assim me pareceu. Notei-o,
mecanicamente, sem lhe dar importncia, naquele mo-
mento.
  Abri a porta, e quase esbarrei com Mrs. Russell,
que saa naquele instante. Ambos nos desmanchmos
em desculpas.
  Pela primeira vez, fui obrigado a admirar a gover-
nanta e a pensar que bela mulher devia ter sido noutro
tempo. Na realidade, ainda era agradvel. Entre os
seus cabelos pretos, no havia um nico branco e,
quando estava um pouco corada, como naquele mo-
mento, a sua expresso severa no se notava muito.
  Instintivamente, perguntei a mim prprio se vinha
de fora, pois estava arfante como se tivesse corrido.

  - Receio ter chegado um pouco cedo - disse-lhe.
  - Oh! No. J passa das sete e meia, doutor.-
Calou-se um momento e depois exclamou: - No sa-
bia que estava convidado para jantar. Mister Ackroyd
nada me disse.
  No sei porqu, tive a impresso de que o meu
convite para jantar no lhe agradava, porm, no pude
adivinhar a razo.
  - E o joelho? - perguntei.
  - Sempre na mesma, obrigada, doutor. Desculpe,
mas tenho que fazer. Mister Ackroyd descer daqui a
pouco. E... vim ver se as flores estavam no lugar.
  Saiu rapidamente da sala. Aproximei-me da janela,
perguntando-me por que motivo quisera justificar a
sua presena na sala. Enquanto me aproximava, notei,
como teria notado antes, se me tivesse interessado,
que as janelas eram de batentes e davam para o terra-
o. O rudo que ouvira, portanto, no podia ter sido
produzido por uma janela de subir e descer.
  Sempre mecanicamente, mais para desviar a mente
de pensamentos inslitos do que por outro motivo
qualquer, distra-me procurando adivinhar o que teria
produzido o rudo que me despertara a ateno.
  Carvo posto na chamin? No, no era aquele o
rudo produzido pelo carvo. Talvez o fechar de uma
gaveta no escritrio? Tambm no.
  Subitamente, chamou-me a ateno uma mesinha
de tampa mvel, formada por uma chapa de cristal,
atravs da qual se podia ver o contedo da gaveta que
estava em baixo. Aproximei-me, observando o que con-
tinha. Havia dois objectos de prata, um sapatinho de
criana que pertencera ao rei Carlos I, algumas velhas
estatuetas chinesas e uma quantidade de quinquilha-
rias e curiosidades vindas de frica. Levantei a tampa
para examinar mais de perto as estatuetas. Escorregou-
-me entre os dedos e caiu.
  Imediatamente reconheci o rudo que ouvira antes.
Era produzido pelo abaixar devagar da tampa na mesi-
30 i 31







nha. Repeti a operao uma, duas vezes para conven-
cer-me. Depois, abri a tampa para examinar, atenta-
mente, o contedo da gaveta.
  Enquanto estava curvado para a mesinha aberta,
observando os vrios objectos, entrou Flora Ackroyd.
  Nem todos simpatizam com ela, mas, ningum po-
de deixar de admir-la. O que logo desperta a ateno
de quem a olha so os seus cabelos extraordinariamen-
te loiros, de um ouro plido, caracterstico das belezas
escandinavas. Seus olhos so azuis como as guas de
um fiorde e a sua tez parece de leite e rosas. O busto 
belssimo, a cintura fina. Para um velho e gasto curan-
deiro como eu,  confortador contemplar um to com-
pleto exemplo de sade.
   a tpica rapariga inglesa, simples, franca, leal.
  Flora aproximou-se de mim e apresentou as suas
dvidas quanto  probabilidade de Carlos I ter usado
aquele sapatinho.
  - De qualquer modo - prosseguiu - no com-
preendo porque se faz tanto barulho em torno de cer-
tas velharias, por terem sido usadas por uma persona-
gem ilustre. A pena com que George Eliot escreveu os
seus romances  uma pena como todas as outras, afi-
nal. E se algum gostar de George Eliot, ser pelos ro-
mances que escreveu e no pela pena com que eles fo-
ram escritos!
  - Sim, mas a Flora j no l essas velharias!
  - Engana-se, doutor. Leio-as e agradam-me bas-
tante.
  Tive prazer em ouvir aquela declarao. Os livros
que as mulheres actualmente lem e dizem agradar-
-lhes assombram-me.
  - Ainda no me deu os parabns, doutor. No sa-
be da notcia?
  Estendeu a mo esquerda para mim. No dedo m-
dio, brilhava um anel com uma prola finamente en-
gastada.
  - Estou para casar com Rudolph, j sabe?... Meu

tio est muito satisfeito. Alm do mais continuo na fa-
mlia.
  Tomei-lhe as mos, apertando-as nas minhas.
  - Desejo-lhe, minha amiga, todas as felicidades.
  - H quase um ms que estamos noivos - acres-
centou, com a sua voz fresca. - Mas s ontem o
anuncimos. Meu tio quer preparar a villa da Pedra
Branca para nossa residncia, e ns fingiremos de agri-
cultores. No Inverno, iremos caar; na Primavera, es-
taremos na cidade e depois junto do mar. Gosto tanto
do mar!
  Naquele momento, ouviu-se um rudo de seda e
Mrs. Ackroyd entrou na sala, desculpando-se pela de-
mora.
  Sinto diz-lo, mas detesto cordialmente Mrs. Ack-
royd. D-me a impresso de que  s ossos e dentes.
 uma mulher muito antiptica. Tem dois olhinhos
azuis, amortecidos, mas de olhar duro; e, embora as
suas palavras sejam melfluas, os seus olhos ficam
sempre frios e calculistas.
  Aproximei-me dela, deixando Flora perto da janela.
  Estendeu-me a mo ossuda, coberta de anis, e co-
meou a falar com volubilidade, perguntando-me se
sabia do noivado de Flora. To acertado, sob todos os
aspectos! Os dois tinham gostado um do outro, ao pri-
meiro olhar. Um par perfeito! Ele to moreno, ela to
loira!
  - No  preciso dizer-lhe, doutor, o consolo que
isto  para um corao de me!
  Mrs. Ackroyd suspirou, em homenagem ao seu co-
rao materno, enquanto os seus olhos me perscruta-
vam agudamente.
  - Surpreende-me que ainda o no soubesse; o se-
nhor  um velho amigo de Ro,ger e sabemos quanta
confana ele deposita em si. E to difcil, na minha
condio de viva de Camile... Estou firmemente con-
vencida de que Roger pensa em constituir um dote pa-
ra Flora, mas, como sabe,  um pouco seguro com o

32 33







dinheiro; coisa muito comum, alis, entre os chefes da
indstria. No poderia sond-lo sobre este assunto?
Flora estima-o tanto! Parece-nos que o senhor  para
ns um velho amigo, embora, na realidade, apenas nos
conhea h dois anos!
  A eloquncia de Mrs. Ackroyd foi truncada pelo
abrir-se repentino de uma porta da sala e a interrupo
foi mais do que oportuna. Se h coisa no Mundo que
odeio  imiscuir-me nos negcios alheios, e, assim,
no tinha nenhuma vontade de arrastar Ackroyd ao as-
sunto do dote de Flora. Se a conversa tivesse durado
mais uns minutos ver-me-ia obrigado a diz-lo franca-
mente  minha interlocutora.
  - Conhece o major Blunt, doutor?
  - Sim, conheo-o - respondi.
  - H uma quantidade de pessoas que conhecem
Hector Blunt, pelo menos de fama. Matou mais ani-
mais ferozes, e nos pases mais inverosmeis, do que
qualquer outro. Quando, numa palestra, aparece o seu
nome, ouve-se logo dizer:  cAh! Blunt, aquele das
grandes caadas, no  verdade?  
  A sua amizade por Ackroyd sempre me deu que
pensar. Dois temperamentos to opostos! O major tal-
vez tenha cinco anos menos do que o seu amigo; a sua
amizade data de muitos anos, e, conquanto as suas
ideias sejam diversas, continua sempre slida. Uma
vez em cada dois anos, mais ou menos, Blunt passa
duas semanas na villa Fernly, e ento em sua honra o
dono da casa coloca na entrada uma enorme cabea de
animal, com um nmero enorme de chifres, que, ao
transpormos o umbral, nos fita com um olhar vidrado.
  O major acabava de entrar, com o seu passo pecu-
liar, decidido e silencioso.  de estatuta mdia e com-
pleio robusta; o rosto moreno  inexpressivo e os
seus olhos cinzentos do a impresso de que est sem-
pre a observar alguma coisa que acontece muito longe.
Fala pouco, e, quando o faz,  como se as palavras
custassem a sair.

  - Como est, doutor? - perguntou com o seu
modo habitual, seco e repentino. Depois, colocou-se
diante da chamin, olhando por cima de ns absorto,
como se visse alguma coisa muito interessante, no cen-
tro da frica.
  - Oia, major - disse Flora -, gostaria que me
contasse algumas das suas aventuras africanas.
  Hector Blunt tinha a fama de misgino inveterado;
no entanto, notei que se aproximou de Flora sem se
fazer rogado.
  Temia que Mrs. Ackroyd quisesse recomear a fa-
lar do dote e apressei-me a orientar a conversa para
uma nova qualidade de rosas, sobre a qual lera alguma
coisa no jornal, nessa manh. Mrs. Ackroyd nada en-
tende de floricultura, mas pertence  categoria das
pessoas que querem parecer sempre bem informadas
sobre os factos do dia. Pudemos assim conversar com
conhecimento de causa, at que entraram Ackroyd e o
secretrio. Pouco depois, Parker anunciava que o jan-
tar estava na mesa.
   mesa, sentei-me entre Mrs. Ackroyd e Flora.
O major estava do outro lado de Mrs. Ackroyd e, a se-
guir, encontrava-se Godofred Raymond, o secretrio.
  O jantar no foi alegre. Percebia-se que Ackroyd
estava preocupado. Parecia profundamente abatido e
quase no comeu. Mrs. Ackroyd, o secretrio e eu ani-
mmos a conversa. Flora parecia bastante impressio-
nada com a tristeza do tio e o major tornara-se tacitur-
no como de costume.
  Terminado o jantar, Ackroyd tomou-me pelo brao
e conduziu-me para o escritrio.
  - Depois de nos terem trazido o caf, ningum
mais nos perturbar. Avisei Raymond para prestar
ateno, a fim de ningum nos vir interromper.
  Via-se claramente que estava dominado por viva
agitao. Durante um ou dois minutos, passeou de um
para outro lado do escritrio e quando Parker entrou
com as xcaras de caf, deixou-se cair numa poltrona,
diante do fogo.

34   35







  O escritrio era confortvel. Uma parede estava in-
teiramente ocupada por uma prateleira cheia de livros;
as poltronas eram amplas, forradas de coiro azul. Per-
to da janela, havia uma grande secretria, cheia de pa-
pis e documentos, cuidadosamente anotados e postos
em ordem. Sobre uma mesinha redonda, viam-se di-
versas revistas e publicaes desportivas.
  - Nestes ltimos tempos, tenho sentido de novo a
mesma dor depois do jantar - observou Ackroyd, en-
quanto servia o caf. - Peo-lhe que me d novamen-
te daquelas plulas que me receitou.
  - Pensei nisso e trouxe algumas comigo.
  - Bravo. Ento tomo-as, agora.
  - Esto na minha maleta, l fora. Vou busc-las.
  Ackroyd segurou-me.
  - No se incomode. Parker, v buscar a maleta do
doutor.
  Parker saiu. Estava para falar, mas ele fez-me sinal
para que guardasse silncio.
  - Ainda no. Espere. No v que estou to nervo-
so que no sei como conter-me?
  Percebia-o claramente e senti-me preso de viva in-
quietao, assaltado por toda a espcie de pressenti-
mentos.
  Comeou a falar, pouco depois.
  - Quer verifcar se aquela janela est fechada?-
sugeriu.
  Um pouco surpreendido, levantei-me e fiz o que
me pedira. Era uma das usuais janelas de subir e des-
cer, conhecidas vulgarmente por ccjanelas de guilhoti-
nav, muito comuns nas casas inglesas. Na frente, ha-
via um pesado cortinado de veludo azul; mas a janela
estava aberta na parte superior.
  Parker entrou no escritrio com a maleta, enquan-
to ainda me encontrava perto da janela.
  - Fechada - disse, voltando para o meio da sala.
  - Bem fechada?
  - Sim, sim. Que tem, Mister Ackroyd?

  Certamente no teria feito a pergunta, se Parker
no tivesse j fechado a porta.
  Esperou ainda uns instantes, antes de responder.
  -  terrvel - disse lentamente. - Deixe as plu-
las; disse aquilo s por causa do Parker. A criadagem
 to curiosa! Sente-se nesta cadeira, mais perto de
mim. E a porta tambm est fechada?
  - Sim, ningum nos pode ouvir. Esteja tranquilo.
  - Doutor, ningum sabe o que tenho sofrido nes-
tas vinte e quatro horas. Tudo se desmoronou, tudo
est arruinado! E Rudolph deu-me o golpe de miseri-
crdia! Mas, por enquanto, no falemos nisso! O res-
to! No sei que fazer; todavia, preciso de decidir-me e
depressa.
  - Que aconteceu?
  Ficou em silncio alguns instantes. Quando come-
ou, a pergunta que me fez surpreendeu-me. Esperava
outra coisa.
  - Diga-me, no foi o doutor quem tratou de Art-
hur Ferrars, na sua ltima doena?
  - Sim.
  Pareceu-me que encontrava a maior di iculdade
ainda em formular a pergunta seguinte.
  - Nunca suspeitou... nunca lhe passou pela cabe-
a que... fosse um envenenamento?
  Depois de ter ficado em silncio alguns segundos,
decidi-me a falar. Afinal, Ackroyd no era a Caroline.
  - Dir-lhe-ei a verdade. Na ocasio da sua morte
no tive qualquer suspeita, mas depois... talvez te-
nham sido as suposies da minha irm que me leva-
ram a semelhante ideia. E, desde ento, no consegui
tir-la da cabea. Mas veja bem que a minha suspeita
no tem fundamento concreto.
  - Foi envenenado - disse Ackroyd, em voz surda.
  - Por quem? - perguntei vivamente.
  - Pela prpria mulher.
  - Como sabe?
  - Ela prpria mo contou.

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  - Quando?
  - Ontem! Meu Deus! Ontem! Parece que foi h
dez anos!
  Depois de uma pausa, prosseguiu:
  - Compreende, doutor, que  uma prova de con-
fiana dizer-lhe isto: nada deve transpirar. Preciso dos
seus conselhos; no posso suportar este peso sozinho.
Como disse, no sei que fazer.
  - Sim, mas  preciso que me conte tudo - disse.-
Muitas circunstncias so-me desconhecidas. Como foi
que Mistress Ferrars se decidiu a fazer-lhe essa confis-
so?
  - H trs meses, perguntei-lhe se consentia em
casar comigo; recusou. Renovei o pedido mais tarde,
e, dessa vez, aceitou, mas no quis que o nosso noiva-
do fosse anunciado, enquanto no tivesse transcorrido
um ano de viuvez. Ontem, fui a casa dela, observei-lhe
que j passara um ano e trs semanas aps a morte do
marido e que, portanto, no havia motivo para ocultar
ao pblico o nosso noivado. Notara que, desde h
dias, tinha uns modos estranhos. Subitamente, sem
que eu o esperasse, revelou-me tudo. O seu dio por
aquele bruto, o seu amor por mim, que se tornava ca-
da vez maior, e o meio atroz a que recorrera para li-
bertar-se. O veneno, santo Deus! Foi um verdadeiro
assassnio a sangue-frio!
  Vi pintado no seu rosto o mais profundo horror; o
mesmo, pensei, devia ter visto Mrs. Ferrars. O meu
amigo no pertence  categoria dos grandes amorosos
que tudo podem perdoar por amor. No fundo,  a
quinta-essncia da ordem. Todas as suas ideias sobre
lei e sobre moral devem ter-se revoltado contra aquela
mulher, no momento da confisso.
  - Sim, foi assim mesmo - prosseguiu com voz
baixa e dolorosa - confessou-me tudo. Parece que ou-
tro estava ao corrente do sucedido desde o princpio e
que a explorou, obrigando-a a desembolsar enormes
quantias. Foi isto que quase a enlouqueceu.

  - Quem era o autor da chantagem?
  Imediatamente, diante dos meus olhos, surgiram
as figuras de Rudolph e da Mrs. Ferrars, como os vira
na rua. A cabea de um to perto da outra! Uma sus-
peita atroz passou-me pela mente. E se...? No, era
impossvel! Lembrei a cordialidade com que Rudolph
me cumprimentara poucas horas antes. Era absurdo!
  - No quis dizer-me o nome - respondeu Ack-
royd, lentamente. - Isto , nem sequer quis dizer-me
se era um homem. Mas naturalmente...
  - Naturalmente - concordei - deve ser um ho-
mem. E o senhor no suspeita de ningum?
  Como nica resposta emitiu um suspiro e ocultou
o rosto nas mos.
  - No pode ser - exclamou. - Enlouqueo ao
pensar nisso. No, nem ao senhor quero confessar a
suspeita terrvel que me passou pela mente. De qual-
quer modo, por algumas palavras que lhe ouvi, sou in-
duzido a suspeitar que se trata de uma pessoa ntima
minha. Mas no  possvel: devo ter entendido mal.
  - E o senhor que disse?
  - Que podia dizer? Ela viu, certamente, a terrvel
impresso que a sua revelao me causara. Por outro
lado, fui obrigado a perguntar a mim prprio qual era
o meu dever. Ela, no fundo, tornara-me quase seu
cmplice, compreende? Fiquei perplexo. Pediu-me
que esperasse vinte e quatro horas, fez-me prometer
que nada faria durante esse prazo. E recusou-se firme-
mente a revelar-me o nome do criminoso que a explo-
rava. Creio que temia que eu fosse enfrent-lo e que o
escndalo em que estava envolvida viesse  luz. Garan-
tiu-me que me comunicaria qualquer coisa antes de
decorrido o prazo das vinte e quatro horas. Juro-lhe,
doutor, que nunca me passou pela cabea que pudesse
fazer o que fez. Um assassnio! E fui eu que a impeli a
isso.
  - No, no! - atalhei. - No deve exagerar.
O senhor no tem qualquer responsabilidade na sua
morte.

38   39







  - Agora, a questo est nestes termos: que devo
fazer? A pobre senhora morreu. No  necessrio re-
mexer nas torpezas passadas.
  - Estou de acordo com o senhor - respondi.
  - Mas h outra coisa. Como hei-de alcanar o ce-
lerado que a arrastou ao suicdio, que foi a causa da
sua morte, como se ele mesmo a tivesse assassinado?
Estava a par do crime e valeu-se disso para viver dele,
como um abutre imundo. Aquela desventurada j pa-
gou pela sua culpa. Mas dever ele ficar impune?
  - Vejo que o senhor pretende aprofundar o caso-
proferi lentamente. - Isto significa que passar para o
domnio pblico.
  - Sim, j pensei nisto: estudei a questo sob todos
os aspectos, sem chegar a uma concluso.
  - Estou perfeitamente de acordo com o senhor,
de que esse canalha devia ser punido como merece;
mas  preciso considerar se vale a pena.
  Ackroyd levantou-se e comeou a passear pelo apo-
sento. Depois, deixou-se cair novamente na poltrona.
  - Oua, doutor, deixemos as coisas como esto.
Se no me chegar qualquer revelao da parte dela...
deixaremos que os mortos durmam em paz.
  - Mas que espcie de revelao ainda espera da
parte dela? - perguntei com curiosidade.
  - Tenho o vivo pressentimento de que, antes de
morrer, me deixou alguma comunicao, num lugar
qualquer. No posso justificar esta convio, mas te-
nho-a.
  Sacudi a cabea, em sinal de dvida.
  - Nada deixou escrito ou verbal? - perguntei.
  - Estou convencido de que alguma coisa deve ter
deixado, doutor. Mas h mais. Tenho o pressentimen-
to de que, quando pensou em suicidar-se, quis que o
caso se divulgasse, nem que fosse s para se vingar de
quem a arrastara  perdio. Estou certo de que, se a
tivesse visto naquela ocasio, ter-me-ia dito o nome,
fazendo-me prometer que no a deixaria sem vingana.

  Olhou para mim.
  - O senhor no acredita nos pressentimentos?
  - Acedito, em parte. Se, como o senhor diz, che-
gasse alguma comunicao...
  Parei subitamente. A porta abriu-se sem fazer ru-
do e Parker entrou com uma bandeja em que estavam
vrias cartas.
  - O correio da tarde, Mister Ackroyd - anun-
ciou.
  Depois, pegou nas xcaras vazias e saiu.
  A minha ateno tornou a concentrar-se em Ack-
royd. Ele fixava, como que petrificado, um sobrescrito
azul. Deixara cair no cho as outras cartas.
  - A sua letra - murmurou. - Deve ter sado e
colocado esta carta no correio ontem,  tarde, precisa-
mente antes... antes de...
  Rasgou o sobrescrito e retirou uma carta bastante
volumosa. Em seguida, olhou em torno, nervosamente.
  - Est certo de ter fechado bem a janela? - per-
guntou.
  - Mais do que certo - respondi surpreendido.-
Porqu?
  - Durante toda a tarde, tenho tido a sensao de
ser vigiado, espiado. Que h?
  Virou-se subitamente. Eu fiz o mesmo. Ambos ti-
vemos a impresso de ouvir um leve rudo na fechadu-
ra. Fui  porta, abri. Ningum.
  - So os meus nervos - murmurou Ackroyd.
  Desdobrou a carta e leu com voz sufocada:

c Meu caro, meu adorado Roger:

  Vida por vida. Vejo-o, sinto-o - percebi claro nos
teus olhos, hoje. Por isto, sigo o nico caminho que
me est aberto. Deixo-te a incumbncia de vingar-me
e de punir quem tornou a minha vida um inferno, de
um ano a esta parte. No quis dizer-te o nome hoje,
mas esforar-me-ei por escrev-lo agora. No tenho fi-
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lhos, nem parentes prximos para salvar da desonra;
por isso no temas que o caso se divulgue. Se puderes,
Roger, meu muito amado Roger, perdoa o mal que ia
fazer-te, pois, afinal, quando chegou o momento, no
tive coragem...  

  Ackroyd parou de repente, com a folha na mo
sem a voltar.
  - Perdoe, doutor, s poderei ler esta carta sozinho
- disse com profunda comoo. - Foi escrita para
que s eu a lesse, s eu.
  Meteu novamente a carta no sobrescrito e colocou
este sobre a mesa.
  - Mais tarde, quando ficar s.
  - No - exclamei impetuosamente -, leia-a
agora.
  Ele fixou-me surpreso.
  - Oh! Desculpe - murmurei corando -, no
quero dizer que deva ler-ma em voz alta. Mas leia tu-
do, enquanto eu estiver aqui.
  Sacudiu a cabea.
  - No, prefiro esperar.
  Por uma razo inexplicvel para mim prprio, in-
sisti:
  - Leia, pelo menos, o nome do criminoso.
   preciso que se saiba que Mr. Ackroyd  teimoso
como um burro. Quanto mais se tenta convenc-lo a
fazer determinada coisa, mais se recusa a faz-la. To-
dos os meus argumentos foram inteis.
  A carta fora entregue s oito e cinquenta. Falta-
vam, precisamente, dez minutos para as nove, quando
o deixei sem que ele a tivesse lido. Parei hesitante,
com a mo sobre a maaneta da porta, perguntando-
-me se esquecia alguma coisa. Pareceu-me ter feito
quanto devia fazer. Sa, sacudindo a cabea e fechando
a porta.
  Tive um estremecimento, ao achar-me na frente de
Parker. No conseguiu ocultar o seu embarao e deu-
-me a impresso de que tinha estado a escutar  porta.

  Pareceu-me notar algo de falso nos seus olhos.
  - Mister Ackroyd no quer ser perturbado - in-
formei friamente. - Pediu-me que lho dissesse.
  - Est bem, doutor. Pareceu-me ter ouvido a
campainha.
  Era uma mentira to descarada que no me dignei
responder-lhe.
  Parker, precedendo-me, acompanhou-me at o ves-
ti'bulo e ajudou-me a vestir o sobretudo. Sa. A Lua
estava coberta de nuvens e tudo parecia imerso na cal-
ma e na escurido.
  Soavam exactamente nove horas na torre de King's
Abbot, quando transpus a entrada da villa e sa pelo
porto. Voltei  esquerda, em direco ao povoado e
pouco faltou para que no esbarrasse com um homem
que vinha em direco oposta.
  -  por aqui que se vai para a villa Fernly, se-
nhor? - perguntou em voz rouca.
  Fitei-o. Tinha o chapu sobre os olhos e a gola do
casaco levantada. Do rosto pouco ou nada pude ver,
mas pareceu-me que era novo. A voz era spera e de-
sagradvel.
  - A est o porto da villa - disse-lhe.
  - Obrigado. - Calou-se por um momento e
acrescentou, embora fosse intil. - Sou forasteiro
e no conheo o lugar.
  Prossegui e, quando me virei para olh-lo, vi que
atravessava o porto.
  A sua voz no me era desconhecida, mas no con-
segui identific-lo.
  Dez minutos depois, cheguei a casa. Caroline esta-
va sobre brasas. Ansiava por saber porque voltara to
cedo. Tive de inventar pormenores sobre o sero, para
satisfazer a sua curiosidade, mas experimentei a desa-
gradvel sensao de verificar que pouco acreditava
nas minhas palavras e tentava adivinhar a verdade.
  s dez horas, levantei-me bocejando e propus a
Caroline irmos dormir, com o que concordou.

42   43







  Era sexta-feira e em todas as sextas-feiras dou cor-
da aos relgios da casa. Procedi como de costume, en-
quanto Caroline ia verificar se as criadas tinham fecha-
do a porta da cozinha.
  Eram dez e um quarto, quando subimos para os
nossos quartos. Tinha apenas chegado ao patamar,
quando tocou a campainha do telefone.
  - Mrs. Bates - anunciou minha irm.
  - Creio que sim - admiti, contrariado.
  Desci a escada e atendi.
  - Qu? - exclamei. - Que est dizendo? Decer-
to, vou imediatamente.
  Subi a escada correndo.
  - Parker telefonou! - gritei a Caroline. - De
Fernly. Encontraram, agora mesmo, Mister Ackroyd
assassinado!



CAPTULO V

O CRIME


  Num instante, meti-me no automvel e voei para a
villa Fernly. Toquei a campainha com viva impacin-
cia. Como demoravam a atender, toquei de novo.
  Ouvi, finalmente, o ranger do cadeado; a porta
abriu-se e, na soleira, apareceu Parker, aprumado e
impassvel.
  - Onde est? - perguntei alvoroado.
  - Onde est quem, doutor?
  - O seu amo, Mister Ackroyd. No fique a olhar-
-me, assim, apatetado. Avisou a polcia?
  - A polcia? A polcia?
  Parker olhou-me assombrado, como se eu fosse um
espectro.
  - Mas que foi que me disse, Parker? Se, como me
disse, o seu amo foi assassinado...

  - O meu amo? Assassinado? Impossvel, doutor.
  Por minha vez olhei-o apatetado.
  - Mas no me telefonou h cinco minutos, dizen-
do-me que Mister Ackroyd fora encontrado assassi-
nado?
  - Eu, doutor? Eu, no. Nem sonhando me per-
mitiria semelhante coisa.
  - Quer dizer que se trata de uma brincadeira idio-
ta? Ento, nada aconteceu a Mister Ackroyd?
  - Perdo, doutor, quem lhe telefonou serviu-se,
talvez, do meu nome?
  - Repito-lhe as palavras exactas que ouvi:   Falo
com o doutor Sheppard? Sou Parker, o mordomo da
villa Fernly.  favor vir imediatamente, doutor. Mis-
ter Ackroyd foi assassinado.  
  Olhmo-nos estupefactos.
  -  uma brincadeira de mau gosto - disse Par-
ker, bastante perturbado. - Ter a coragem de dizer
semelhante coisa!
  - Onde est Mister Ackroyd? - perguntei repen-
tinamente.
  - Creio que ainda est no escritrio, doutor. As
senhoras foram deitar-se e o major Blunt e Mis-
ter Raymond encontram-se na sala de bilhar.
  - Bem, quero falar com mister.  verdade que no
queria ser perturbado, mas esta estpida brincadeira
deixou-me inquieto. E s para certificar-me de que es-
t bem.
  - Muito bem, bem doutor. Tambm me sinto in-
quieto. Acompanh-lo-ei  porta.
  Passei pela porta,  esquerda, seguido do mordo-
mo; atravessei um pequeno corredor, pelo qual uma
pequena escada conduzia ao quarto de dormir de Ack-
royd, e bati na porta do escritrio. Nenhuma resposta.
  - Permita, doutor - disse Parker.
  Com agilidade de surpreender num homem to
gordo, ajoelhou-se e aplicou um dos olhos  fechadura.
  - A chave est no seu lugar - disse levantando-
44 I 45







-se. - Mister Ackroyd deve ter fechado a porta por
dentro e talvez esteja adormecido.
  Curvei-me para ver se dizia a verdade.
  - Parece-me que tudo est nos seus lugares - ob-
servei. - Contudo,  conveniente que acorde o seu
amo. Ficaria inquieto se o no ouvisse confirmar que
est bem.
  Dizendo isto sacudi a maaneta e chamei.
  - Mister Ackroyd, Mister Ackroyd.
  Nenhuma resposta! Olhei para cima.
  - No queria alarmar as senhoras - exclamei,
hesitante.
  Parker dirigiu-se para a ampla porta que dava para
o vesu'bulo e fechou-a.
  - Assim est bem, doutor. A sala de bilhar encon-
tra-se no outro lado da casa, onde tambm ficam a co-
zinha, os quartos dos criados e os quartos de dormir.
  Bati novamente  porta com violncia. Curvando-
-me para a fechadura gritei:
  - Ackroyd, Ackroyd, sou eu, Sheppard! Abra.
  Silncio. Nem o menor sinal de vida atrs da porta
fechada. O mordomo e eu olhmo-nos.
  - Oia, Parker - decidi -,  preciso arrombar
a porta. Assumo a responsabilidade.
  - Se o senhor o afirma, doutor - respondeu
o mordomo titubeante.
  - Afirmo e quero. Temo que tenha acontecido al-
guma coisa de grave ao seu amo.
  Olhei em torno, no pequeno corredor, e vi uma pe-
sada cadeira de carvalho. Eu e Parker agarramo-la fir-
memente e decidimo-nos ao ataque. Uma, duas trs
vezes, batemos com ela na fechadura. Ao terceiro ata-
que cedeu, e entrmos no escritrio.
  Ackroyd estava sentado na poltrona, perto da cha-
min, na mesma posio em que o deixara. Tinha a
cabea reclinada para um lado e, um pouco abaixo da
gola do casaco, via-se um objecto metlico, brilhante e
recurvo.

  Avanmos e curvmo-nos sobre aquele corpo ina-
nimado. Ouvi o mordomo soltar um profundo gemido
de angstia.
  - Apunhalado pelas costas - murmurou.-
 horrvel!
  Enxugou a testa cheia de suor, depois, incautamen-
te, estendeu a mo para o cabo do punhal.
  - No lhe toque - disse-lhe com energia. - Te-
lefone imediatamente  polcia, para avis-la do que
aconteceu. Depois, avise Mister Raymond e o major
Blunt.
  - Est bem, doutor.
  O criado afastou-se rapidamente enxugando o suor
da testa. Fiz ento o pouco que devia ser feito, cuidan-
do, sobretudo, de no tirar o cadver da posio em
que se encontrava e de no tocar no punhal. No era
preciso mexer no corpo. Era mais do que evidente que
Ackroyd devia ter morrido havia j algum tempo.
  De fora, ouvi a voz de Raymond, incrdulo e as-
sombrado.
  - Que est a dizer? Mas  impossvel! Onde est o
mdico?
  Chegou  porta e parou de repente, muito plido.
O major afastando-o com a mo, entrou no escritrio.
  - Meu Deus! - exclamou Raymond. - Mas en-
to  verdade!
  Blunt avanou at  poltrona. Curvou-se sobre o
cadver, e, como me pareceu que quisesse, como Par-
ker, agarrar o cabo na arma, segurei-lhe a mo.
  - No deve tocar em coisa alguma - recomendei.-
A polcia deve ver tudo exactamente como se encon-
tra.
  O major aprovou com um gesto. O seu rosto estava
como sempre, inexpressivo, mas pareceu-me descobrir
um sinal de comoo sob a sua mscara de impassibili-
dade. O secretrio aproximou-se e, curvado sobre o
ombro de Blunt, fitou atentamente o cadver.
  -  terrvel! - exclamou em voz abafada.

46 I 47







  Tinha reconquistado o domnio de si prprio, mas,
quando tirou os culos para limp-los, observei que as
mos lhe tremiam.
  - Creio que se trata de roubo - sugeriu. - Mas
como entrou o assassino? Pela janela? No levou nada?
  Dirigiu-se para a secretria.
  - Julga que se trata de roubo? - perguntei pe-
sando as palavras.
  - Que outra coisa poderia ser? No se trata, natu-
ralmente, de um suicdio, no acha?
  - Ningum poderia apunhalar-se deste modo-
respondi com segurana. -  evidente que se trata de
um crime. Mas qual seria o motivo?
  - Roger no tinha inimigos - observou o major
pacatamente. - Trata-se de gatunos. Mas que procu-
ravam? Parece-me que nada foi revolvido.
  Olhou em volta, pela sala. Raymond estava arru-
mando os papis e documentos sobre a secretria.
  - Parece-me que nada falta e nenhuma das gave-
tas mostra sinais de arrombamento - observou, por
fim, o secretrio. -  um mistrio incompreensvel!
  Blunt sacudiu levemente a cabea.
  - Olhe, h cartas no cho - observou.
  Olhei. No soalho havia ainda trs ou quatro cartas,
no lugar onde Ackroyd as deixara pouco antes, duran-
te a nossa conversa.
  Mas o sobrescrito azul que continha a carta de
Mr. Ferrars desaparecera. Estava para abrir a boca e
falar, quando ouvimos tocar a campainha. Ouviram-se
vozes confusas no vesu'bulo; a seguir, Parker entrou
no gabinete, acompanhado pelo inspector e por um
agente da polcia.
  - Boa noite, senhores - disse o inspector. - Sin-
to profundamente! Uma pessoa to boa e afvel como
Mister Ackroyd! O mordomo diz que se trata de um
crime. Est excluda a hiptese de se tratar de um aci-
dente ou de um suicdio, doutor?
  - Excluda de modo absoluto - respondi.

  Aproximou-se e curvou-se sobre o cadver.
  - No lhe tocaram? - perguntou.
  - Apenas para certif car-me de que estava morto.
Coisa muito fcil, infelizmente! Ningum mexeu no
cadver, nem este foi deslocado do lugar onde o en-
contrmos.
  - Tudo faz crer que o assassino se tenha posto a
salvo, pelo menos por agora. Bem, dem-me todos os
pormenores. Quem encontrou o cadver?
  Expus todas as circunstncias, com pormenores
minuciosos.
  - Que est dizendo? Um telefonema? Do mor-
domo?
  - No podia partir de mim - declarou firme-
mente Parker. - Durante toda a noite no tive oca-
sio de me aproximar do telefone. Todos podem con-
firmar o que digo.
  -  estranho! Pareceu-lhe a voz de Parker, dou-
tor?
  - Verdadeiramente no posso dizer por no ter
prestado ateno: a coisa parecia-me to natural!
  - Certamente. Ento o senhor chegou aqui, for-
ou a porta e encontrou o pobre Ackroyd reduzido a
este estado. H quanto tempo julga que tenha mor-
rido?
  - H meia hora, ou talvez mais - respondi.
  - A porta estava fechada por dentro, disse? E a
janela?
  - Eu mesmo a fechei esta noite, antes das nove.
At desci o ferrolho, a pedido de Mister Ackroyd.
  O inspector Davis atravessou a sala, dirigiu-se para
a janela e levantou o cortinado.
  - Mas agora est aberta - observou.
  Realmente, a janela, de guilhotina, estava aberta.
A parte inferior fora erguida o mximo possvel.
  Davis tirou do bolso uma lmpada elctrica e ilu-
minou o peitoril.
  - O assassino s pode ter passado por aqui, para
entrar e para sair. Vejam.

48 49







   luz da poderosa lmpada elctrica podiam ver-se
vrias pegadas nitidamente marcadas. Pareciam feitas
por sapatos guarnecidos de pedaos de borracha nas
solas. Especialmente uma, bem ntida, ia em direco
 janela; outra, levemente sobreposta, em direco ao
jardim.
  - Claro como a luz do Sol! - continuou o inspec-
tor. - Falta algum objecto de valor?
  Raymond sacudiu a cabea, negativamente.
  - No, nenhum, ao que parece. Mister Ackroyd
no guardava nada de valor nesta sala.
  - Hum! - fez Davis. - O criminoso encontra a
janela aberta; trepa, v Mister Ackroyd sentado perto
da mesa; talvez estivesse adormecido. Chega e apunha-
la-o; perde o sangue-frio e foge. Mas deixou o rasto
bastante ntido, e no deve ser muito difcil agarr-lo.
No foi notado qualquer forasteiro suspeito, vaguean-
do por estes lados?
  - Oh! - interrompi repentinamente.
  - Que h, doutor?
  - Esta noite, pouco depois de ter atravessado o
porto, topei com um indivduo que me pediu que lhe
indicasse o caminho que conduz  villa Fernly.
  - A que horas, mais ou menos?
  - s nove, em ponto. Ouvi-as no relgio da torre,
quando transpunha o porto.
  - Poderia descrev-lo?
  Fiz a descrio como pude.
  O inspector virou-se para o mordomo.
  - No foi visto ningum  porta de entrada, cujos
traos correspondam a estes?
  - No, senhor. No vimos ningum nas proximi-
dades da villa, esta noite.
  - E do lado da porta de servio?
  - No creio. Contudo, vou informar-me.
  Dirigiu-se para a porta, mas o inspector reteve-o
levantando a mo.
  - No, obrigado. Eu prprio investigarei. Mas

I
  antes de mais nada quero fixar com maior preciso as
  fases do crime. Quem viu pela ltima vez Mister Ack-
  royd e a que horas?
  - Talvez tenha sido eu quem o viu em ltimo lu-
  gar - disse-lhe. - Quando o deixei? Espere. s nove
  menos dez. Disse-me que no queria ser perturbado e
  transmiti essa ordem a Parker.
  - Foi assim mesmo, senhor - confirmou o mor-
  domo, respeitosamente.
  - Mister Ackroyd devia, certamente, estar ainda
  vivo s nove e meia - interviu Raymond - porque
  ouvi a sua voz quando passei perto da porta.
  - Com quem falava?
  - No sei. Naturalmente naquele momento estava
  convencido de que o doutor Sheppard ainda estivesse
  aqui, com ele. Queria pedir-lhe esclarecimentos sobre
  alguns documentos de que me ocupava, mas, quando
  ouvi vozes no gabinete, lembrei-me de que dissera
  querer conversar com o doutor sem ser perturbado;
  por isso no entrei. Parece, todavia, que quela hora o
  doutor j se retirara.
  Confirmei com um gesto.
  - Cheguei a casa s nove e um quarto - acres-
  centei - e no sa mais, at o momento em que recebi
  o telefonema.
  - Quem teria estado com ele s nove e meia?-
  perguntou o inspector. - Certamente no foi o se-
  nhor. . .
  - Major Blunt - intervim.
  - Ah! o major Blunt? - disse, em tom de defe-
  rncia.
  O major limitou-se a confirmar com a cabea.
  - Parece-me que j o vi noutra ocasio, major-
  acrescentou o inspector. - De momento, no o reco-
  nheci. H um ano, em Maio, o senhor veio passar al-
  gum tempo aqui, com Mister Ackroyd, parece-me.
  - Em Junho - rectificou Blunt.
  - Precisamente, foi em Junho. Bem, como estava

50 51







dizendo, no era o senhor que, s nove e meia, se en-
contrava com Ackroyd?
  Blunt acenou que no.
  - Depois do jantar no o vi mais.
  Davis dirigiu-se novamente a Raymond:
  - O senhor no ouviu, por acaso, de que tratava a
conversa?
  - S pude ouvir um fragmento - respondeu o se-
cretrio. - E, como julgava que a conversa ainda fos-
se com o doutor Sheppard, achei estranho aquele frag-
mento. Se no me falha a memria, eis o que ouvi.
Era Mister Ackroyd quem falava: ccOs apelos  minha
bolsa tm sido to frequentes ultimamente  , isto era o
que dizia, c que julgo impossvel atender novos pedi-
dos.   Naturalmente, afastei-me, e, por isso, no ouvi
o prosseguimento da conversa. Mas fiquei um tanto
surpreendido com essas palavras, porque o doutor
Sheppard.. .
  ... no pede emprstimos para ele nem subven-
es para os outros - completei.
  - Um pedido de dinheiro - fez Davis reflectin-
do. - E possvel que haja nisso um indcio importan-
te. - Depois, voltando-se para o mordomo: - Voc,
Parker, disse que esta noite ningum entrou pela porta
principal.
  - Repito-o, senhor.
  - Ento,  quase certo que foi o prprio Ackroyd
quem introduziu esse indivduo. Mas no me parece
claro...
  Reflectiu profundamente, durante alguns instantes.
  - Uma coisa  certa - disse por fim. - Mis-
ter Ackroyd, s nove e meia, estava vivo. Este  o lti-
mo momento em que sabemos que ainda tinha vida.
  Parker deixou escapar uma tossezinha significativa
que, imediatamente, fez voltar para ele os olhos pers-
crutadores do inspector.
  - Ento? - perguntou com vivacidade.
  - Desculpe, senhor, queria dizer que Miss Flora
o viu depois dessa hora.

  - Miss Flora?
  - Sim, senhor. Eram dez menos um quarto. Foi
  depois desse colquio que ela me disse que Mis-
  ter Ackroyd no queria ser perturbado nesta noite.
  - Foi ele quem a mandou dizer-lhe isso?
  - Verdadeiramente, no. Trazia-lhe um copo de
  usque com soda, numa bandeja, quando Miss Flora,
  que naquele momento saa da sala, me reteve, dizen-
  do-me que o tio no queria ser incomodado.
  Davis examinou o mordomo com mais ateno do
  que antes.
  - J lhe tinham dito que Mister Ackroyd no
  queria ser incomodado, no  verdade?
  Parker principiou a atrapalhar-se. Tremiam-lhe as
  mos.
  - Sim, senhor.
  - No entanto, queria incomod-lo?
  - Esqueci uma circunstncia, senhor. Todas as
  noites, quela hora, levava-lhe sempre um copo de us-
  que com soda; em seguida perguntava-lhe se desejava
  mais alguma coisa. Por isso, ia fazer o mesmo esta noi-
  te, sem pensar...
  Foi naquele instante que principiei a perceber que
  Parker era vtima de uma comoo verdadeiramente
  suspeita. Tremia e agitava-se da cabea aos ps.
  - Bem - disse o funcionrio. - Preciso de falar
  imediatamente com Miss Flora. Por enquanto, deixa-
  remos ficar este quarto exactamente como est. Volta-
', rei depois de a interrogar. Entretanto, ser bom fe-
charmos a janela com o trinco.
  Depois de tomar esta precauo, dirigiu-se ao ves-
u'bulo e ns seguimo-lo. Parou um instante, a fim de
dar uma olhadela para a escada, virando-se, depois,
para o agente que o acompanhava.
  - Jones,  melhor ficares aqui e evitar que algum
entre no quarto.
  O mordomo adiantou-se, cerimoniosamente.
  - Perdo, inspector. Se o senhor fechasse  chave

52 ! 53







a porta que d para o vesti'bulo principal, ningum po-
deria passar para esta parte. Esta escada conduz, ape-
nas, aos quartos de dormir e de banho de Mister Ack-
royd. No tem comunicao com o resto da casa.
Antes, havia uma porta de comunicao, mas Mis-
ter Ackroyd mandou-a tapar. Aprazia-lhe saber que
esta parte da casa era inteiramente privada, s para
ele.
  Para pr as coisas a limpo e demonstrar exacta-
mente a posio, fiz um desenho rudimentar da ala es-
querda da villa. A pequena escada conduz, como ex-
plicou o mordomo, a um vasto quarto de dormir
(resultante de dois quartos transformados num), ao
qual est anexo um quarto de banho e um de toilette.
  Davis, num rpido olhar, percebeu a disposio
dos quartos. Depois de deixarmos o pequeno corredor
e sairmos para o vesu'bulo, fechou a porta e meteu a
chave na algibeira.
  Em seguida, deu instrues em voz baixa ao agen-
te, que saiu logo depois.
  - Precisamos de examinar as marcas de pega-
das - explicou o inspector. - Mas antes de mais na-
da, preciso falar com Miss Ackroyd. Ela foi a ltima
pessoa que viu o tio ainda com vida. J sabe da sua
morte?
  Raymond sacudiu negativamente a cabea.
  - Est bem, ento esperemos ainda cinco minu-
tos, para lhe dar a notcia. Poder responder melhor se
no a assustarmos, revelando-lhe j a verdade. Digam-
-lhe que houve um roubo e peam-lhe que se vista e
desa, a fim de nos dar algumas informaes.
  Foi o secretrio quem subiu, para cumprir a ordem.
  - Miss Ackroyd descer imediatamente - infor-
mou ao voltar. - Disse-lhe exactamente o que me or-
denaram.
  Cinco minutos mais tarde, Flora descia. Vestia um
quimono de seda cor-de-rosa e o seu aspecto denuncia-
va profunda ansiedade.

  Davis caminhou para ela.
  - Boa noite, Miss Ackroyd - saudou gentilmen-
te. - Houve uma tentativa de roubo e desejaramos
que viesse em nosso auxlio. Que sala  esta? Ah! a sa-
la de bilhar!... Entre, faa favor!
  Flora sentou-se calmamente num amplo div que
ocupava uma parte da sala e olhou para o funcionrio.
  - No chego a compreender. Que roubaram? Que
deseja saber?
  - Simplesmente isto, Miss Ackroyd. Parker, o
mordomo, diz que a viu sair do gabinete de seu tio
cerca das nove e trs quartos.  verdade?
  - Sim,  verdade. Fui dar-lhe as boas-noites.
  - E a hora  exacta?
  - No posso afirmar com preciso.  possvel que
fosse um pouco mais tarde.
  - Seu tio estava s, ou havia algum com ele?
  - Estava s. O doutor Sheppard sara.
  - Reparou se a janela estava aberta ou fechada?
  - No sei..., o cortinado estava descido.
  - E no notou que seu tio estivesse perturbado?
  - No, no me parece.
  - No lhe desagradaria dizer-me o que se passou
entre os dois?
  Flora calou-se, como se quisesse recordar-se.
  - Entrei e disse-lhe: uBoa noite, tio, vou deitar-
-me; sinto-me cansada esta noite.   Respondeu mur-
murando qualquer coisa e aproximei-me dele para bei-
j-lo. Depois disse-me que o vestido me ficava bem e,
por fim, pediu-me que sasse, porque estava muito
ocupado.
  - No insistiu, de modo particular, para que no
o incomodassem?
  - Ah! sim! Recomendou-me:   Diga a Parker que
esta noite nada mais quero e que no venha perturbar-
-me.v Depois, vi o mordomo junto da porta e comuni-
quei-lhe o desejo de meu tio.
  - Obrigado, miss - disse o inspector.

54 I 55







  - Porque no quer dizer-me o que roubaram?
  - Porque no temos bem a certeza - respondeu o
inspector, embaraado.
  O olhar da jovem mostrou apreenso.
  - Que aconteceu? - inquiriu com um ligeiro es-
tremecimento. - O inspector est a ocultar-me qual-
quer coisa.
  Com o seu ar reservado e discreto, Blunt interps-
-se entre a jovem e o funcionrio. Ela estendeu a mo
e o major recebeu-a entre as suas, acariciando-lha,
co-
mo se Flora fosse uma criana ansiosa por proteco.
  - Ms notcias, Miss Flora - preambulou calma-
mente. - Ms notcias para todos ns. Seu tio Roger...
  - Sim?
  - Ser muito doloroso para si, Miss Flora. Seu tio
morreu.
  A jovem recuou com uma expresso de horror.
  - Quando foi isso? - murmurou.
  - Mal Miss Flora saiu do escritrio - esclareceu
Blunt.
  Flora levou as mos  garganta, soltou um gemido
e caiu para trs.
  Corri a ampar-la e, ajudado por Blunt, levei-a pa-
ra o quarto, onde a deitei na cama. Em seguida man-
dei acordar Mrs. Ackroyd para lhe transmitir a triste
notcia. Flora voltou a si lentamente. A me foi para a
sua cabeceira e eu aconselhei-a quanto ao que devia fa-
zer. Depois, desci apressadamente.



CAPTULO VI

O PUNHAL TUNISINO


  Encontrei-me com o inspector no momento em
que este saa da cozinha e das instalaes de servio.
  - Como est Miss Flora, doutor? - interessou-se.

  - Muito melhor. A me ficou com ela.
  - Estive a interrogar os criados. Todos eles so
unnimes em afirmar que no esteve ningum, esta
noite, perto da porta de servio. A sua descrio do tal
desconhecido  muito imprecisa, doutor. Poder for-
necer-me dados mais concisos?
  - No, infelizmente. A noite estava escura e ele
tinha a gola do casaco levantada e as abas do chapu
sobre os olhos.
  Depois de nova insistncia de Davis, acabei por di-
zer-lhe que a voz do homem no me parecera muito
estranha, embora talvez ele a tivesse tentado disfarar.
  - No se importa de vir comigo at ao escritrio,
doutor? H alguns pontos que desejaria esclarecer con-
sigo.
  Anui e, aps termos entrado, o funcionrio fechou
a porta.
  - No quero que venham perturbar-nos - expli-
cou. - Conte-me l que histria  essa da extorso?
  - Extorso? - exclamei sobressaltado.
  - Ser produto da imaginao de Parker ou have-
r nisso algo de verdadeiro?
  - Se Parker ouviu falar em chantagem - admiti
lentamente -, deve t-lo escutado atrs da porta, com
o ouvido colado  fechadura.
  Davis concordou.
  -  muito provvel. Estou certo de que Parker
sabe alguma coisa. Quando comecei a interrog-lo
saiu-se logo com essa confusa histria de chantagem.
  Nesse momento tomei uma deciso e declarei:
  - Estava na incerteza quanto a revelar certos fac-
tos, mas creio que chegou o momento oportuno, j
que ps as cartas na mesa.
  Narrei-lhe, ento, os acontecimentos da noite e
Davis escutou-me atentamente.
  -  uma histria extraordinria - comentou.-
Afirma que no se sabe dessa carta? Pelo menos agora
temos o que procurvamos: motivo para o crime.

56 I 57







  - E se o homem que procuramos fosse o prprio
Parker? - arrisquei.
  -  possvel. No duvido que estivesse a escutar 
porta, quando o doutor partiu. Pouco depois, Miss Flora
surpreendeu-o, quando ia a deixar o gabinete. Mal ela
saiu, Parker pode ter apunhalado Ackroyd e aberto a
janela por onde saltou, dando a volta  casa e tornando
a entrar por uma porta lateral. Que lhe parece?
  - S no se entende uma coisa: se Ackroyd pros-
seguiu na leitura da carta, como ento tencionava fa-
zer, no se explica porque ficou a meditar no assunto,
durante uma hora, sem ter chamado imediatamente o
mordomo, para enfrent-lo com as suas acusaes. Te-
ria sido uma cena infernal, visto que Ackroyd tinha,
como sabe, um temperamento colrico.
  - Talvez no tivese tido tempo de ler a carta at
ao fim - considerou Davis. - Sabemos que esteve al-
gum com ele, at s nove e meia. Se essa pessoa
entrou, quando o doutor saiu e foi logo seguida por
Miss Flora que entrou no gabinete para dar as boas-
-noites ao tio, este s teria podido acabar de ler a
carta, por volta das dez horas.
  - E o telefonema? - inquiri.
  - Foi Parker quem decerto o fez, talvez antes de
ter pensado que a porta estava fechada  chave e a ja-
nela aberta. Contudo, encheu-se de pnico e negou
tudo.
  -  possvel - concedi, como que persuadido.
  - De qualquer modo, podemos verificar esse tele-
fonema na Central. Precisamos de no pr o mordomo
de sobreaviso, fingindo concentrar as investigaes so-
bre esse misterioso desconhecido.
  Levantou-se da cadeira e aproximou-se do cadver
que se achava reclinado na poltrona.
  - Talvez a arma possa fornecer-nos algum indcio-
observou. -  nica no gnero. Trata-se de um ob-
jecto raro, de coleco.
  Com a mxima cautela, segurou-a pela lmina, sem

lhe tocar no cabo, e retirou-a do corpo de Ackroyd,
indo, em seguida, coloc-la sobre um grande vaso de
porcelana que ornava a chamin.
  Era uma bela arma de lmina estreita, pontiaguda,
com cabo de metal elegantemente esculpido. Cautelo-
samente, Davis tocou com o dedo na ponta do punhal
e fez uma careta.
  - Que gume! - exclamou. - At uma criana
poderia matar, com ela, um homem, sem grande es-
foro.  realmente um brinquedo perigoso.
  - E agora, posso examinar o cadver? - propus.
  - Est ao seu dispor - anuiu Davis.
  Fiz um exame prolongado e minucioso.
  - Ento? - interessou-se Davis, quando terminei
as minhas observaes.
  - Dispensando a linguagem tcnica, direi que o
golpe foi vibrado pela mo direita de uma pessoa que
estava por detrs dele. A morte deve ter sido instant-
nea. A expresso do rosto da vtima denuncia surpre-
sa. Pode ter morrido, sem saber quem foi o assassino.
  - Continuo a pensar em Parker - disse Davis.-
Os criados sabem mover-se silenciosamente e esse
mordomo no faz mais rudo do que um gato a andar.
Talvez no venha a ser difcil identificar o assassino.
Repare no cabo do punhal.
  Examinei a arma com uma expresso de dvida.
  - Talvez o doutor no consiga v-las - declarou
Davis -, mas eu distingo-as perfeitamente: as impres-
ses digitais.
  ccPerfeitamente   seria realmente exagero, mas po-
diam discernir-se sinais de dedos impressos no cabo da
arma. O inspector pegou no vaso de porcelana e convi-
dou-me a acompanh-lo at  sala de bilhar.
  - Quero ver se Mister Raymond nos pode forne-
cer qualquer informao sobre o punhal - explicou.
  Depois de termos fechado a porta do gabinete, fo-
mos ao encontro de Raymond a quem Davis mostrou
a arma.

58   59







  - J tinha visto este punhal, Mister Raymond?-
inquiriu o inspector.
  - Creio que  a arma que o major Blunt ofereceu
a Mister Ackroyd. Trouxe-a de Marrocos, ou melhor,
de Tnis. Julga que o tenham morto com este punhal?
  Com um sinal de cabea, Davis afastou-se rapida-
mente, comigo na peugada.
  - Rapaz simptico, no acha? - observou Davis,
depois de sairmos. - Tem uma expresso franca e
leal.
  Concordei espontaneamente. Havia dois anos que
Raymond era secretrio de Ackroyd e nunca ningum
o vira irritado. Sabia-o um ptimo empregado.
  Na sala, o major Blunt confirmou tratar-se do pu-
nhal tunisino que oferecera a Ackroyd.
  - Reconheci-o, quando entrei no gabinete - dis-
se Blunt.
  - E no nos disse nada?
  - No considerei o momento oportuno - respon-
deu calmamente.
  - No tem portanto a menor dvida, no  assim?
Sabe porventura onde se achava habitualmente guar-
dado?
  Foi Raymond quem, vindo ter connosco, respondeu.
  - Na mesinha-vitrina.
  - Como? - exclamei.
  Olharam-me surpreendidos.
  - A que se deve o seu espanto, doutor? - per-
guntou Davis, encorajando-me a falar.
  Hesitei, antes de responder:
  - Um facto decerto insignificante.  tarde, quan-
do c vim jantar, ouvi fechar a tampa dessa mesa-
-vitrina.
  - Como pode afirmar que se tratava dessa tam-
pa? - admirou-se o inspector.
  Tive de dar uma longa explicao que Davis escu-
tou muito interessado.
  - Quando olhou para o vidro da mesinha, o pu-
nhal ainda l estava? - inquiriu Davis.

  -  possvel que l estivesse, mas francamente,
no fixei esse pormenor. Olhei para o mvel, apenas
de relance.
  Pouco depois, Davis disse a Parker que queria fa-
lar com Mrs. Russell.
  Esta comeou por declarar que no se lembrava de
ter estado perto da mesinha.
  - Fui ver se as flores no estariam murchas e... 
verdade: veio-me agora  ideia de que vi a tampa de
vidro aberta e, naturalmente, fechei-a, mas no liguei
importncia ao facto.
  - Pode dizer-me se esta arma estaria nessa vitrina?
  A mulher olhou para a arma, tranquilamente, e en-
colheu os ombros.
  - No sei, senhor... As pessoas deviam estar a
descer, de um momento para o outro, e apressei-me
a olhar pelo servio.
  - Estranha mulher - observou Davis, quando
Mrs. Russell se afastou. - Disse, doutor, que encon-
trou a mesinha em frente da janela? - perguntou.
  Raymond respondeu por mim:
  - E o seu lugar habitual, inspector, frente  janela
da esquerda.
  - E a janela estava aberta?
  Foi a minha vez de responder:
  - Estavam ambas fechadas, tanto a da esquerda
como a outra.
  - Bem, por hoje creio no ser necessrio tomar-
-lhes mais tempo. Voltarei amanh com o intendente
da polcia. At l, ficarei com a chave do gabinete.
Quero que o coronel Melrose encontre as coisas tal co-
mo esto. Sei que foi hoje jantar fora e que estar au-
sente toda a noite.
  Pegou no punhal e informou:
  - Tenho de embrulhar isto com todo o cuidado,
pois  uma prova capital.
  Notei que Raymond sorrira e segui a direco do
seu olhar.

60   61







  Pareceu-me ento que Davis entregava a Parker
uma pequena caderneta. O mordomo pegou-lhe, tor-
nando a devolver-lha e abanando a cabea.
  - As suspeitas gravitam em torno de Parker-
comentou Raymond. - Davis usou o velho truque pa-
ra caar-lhe as impresses digitais. Vamos dar-lhe as
nossas?  
  Tirou dois cartes da algibeira e numerou-os. De-
pois entregou-me um deles, onde firmei os dedos. Foi
ento ter com Davis e disse-lhe com um sorriso mali-
cioso:
  - No se esquea, inspector, que o nmero um
contm as impresses digitais do doutor Sheppard; o
nmero dois, as minhas. Dar-lhe-ei as do major Blunt,
amanh.
  Nem o assassnio do seu amigo e chefe pudera de-
primir a exuberncia do jovem Raymond. Quando vol-
tei para casa, era j bastante tarde e pensei que minha
irm se tivesse deitado. Pelos vistos, ainda a no co-
nheo muito bem.
  Estava  minha espera e preparara-me uma taa de
chocolate, bem quente. Limitei-me a relatar-lhe os
pormenores do crime, sem me referir ao caso de extor-
so. Quando me levantei da cadeira com inteno de ir
dormir, acrescentei:
  - A polcia suspeita de Parker. Todos os indcios
parecem estar contra ele.
  - Parker! - admirou-se Caroline. - Que dispa-
rate! Esse Davis deve ser um perfeito imbecil.
  Depois desta inesperada declarao, fomos para os
nossos quartos.

CAPTULO VII

A PROFISSO DO MEU VIZINHO


  Na manh seguinte fui fazer as minhas consultas
com uma pressa deveras condenvel, embora no ti-
vesse casos graves a tratar. Quando regressei, achei
Caroline na antecmara  minha espera.
  - Flora est c em casa - anunciou, num sussurro.
  Disfarcei como pude a surpresa que tal visita me
causava.
  - Diz que tem pressa em falar-te - acrescentou
minha irm, nervosamente. - J ali est h meia hora.
  Segui-a at  saleta.
  Flora sentara-se perto da janela, estava vestida de
preto e torcia as mos, to brancas como o rosto, anor-
malmente plido. Contudo falou-me com firmeza.
  - Venho pedir-lhe o seu auxlio, doutor.
  - Estou certa de que meu irmo a ajudar - ani-
mou Caroline.
  Pressenti que no agradaria muito a Flora a pre-
sena de minha irm, mas resignou-se.
  - Peo-lhe, doutor, que me acompanhe  villa dos
Larios.
  O convite era realmente estranho e Caroline especi-
ficou:
  - A casa daquele estranho homenzinho.
  - Exactamente - confirmou Flora. - Sabem
quem , no  verdade?
  - Julgo tratar-se de um cabeleireiro reformado-
declarei arriscando um sorriso.
  - Que est a dizer! - espantou-se Flora.-
 Hercule Poirot, o clebre detective particular. Tem
feito investigaes prodigiosas, como essas que vm
nos livros. Retirou-se, h um ano, da profisso e veio
morar para aqui. Meu tio sabia quem ele era, mas pro-
metera-lhe guardar sigilo, j que ele pretendia manter-
-se tranquilo.

63







  - Essa  boa! - admirei-me.
  - Decerto que j ouviu falar dele, doutor?
  - Realmente tive ocasio de ler algumas refern-
cias a seu respeito - confessei.
  - Que coisa extraordinria - comentou Caroline,
juntando as mos de entusiasmo, mas parecendo-me
secretamente desiludida, por no o ter descoberto so-
zinha.
  - E quer falar-lhe, Miss Ackroyd? - sondei cal-
mamente.
  - Certamente. Quer que investigue o crime-
atalhou minha irm, como que espantada com a minha
falta de perspiccia.
  - Mas no tem confiana no inspector Davis?-
perguntei.
  - Decerto que no tem - tornou Caroline a in-
tervir. - Eu tambm no teria.
  Disse-o com tanto calor que pareceria ter sido um
tio dela o assassinado.
  - Pensa que esse detective querer ocupar-se da
investigao? - inquiri. - No me disse que ele se
retirou da profisso?
  -  por esse motivo que quero persuadi-lo a aju-
dar-me.
  - Acha que procede bem, Miss Flora? - sondei.
- No ir despeitar...
  - No seu lugar - interrompeu Caroline - eu fa-
ria o mesmo. Se no quiseres ir, eu prpria acompa-
nho a nossa amiga.
  - Preferiria que o doutor Sheppard viesse comigo
- respondeu Flora, sem recear melindrar minha ir-
m. - O doutor  mdico e foi a primeira pessoa a
descobrir o corpo de meu tio. Poder fornecer-lhe to-
dos os pormenores.
  - Sim - admitiu Caroline, contrariada.
  Aps evidente hesitao aconselhei:
  - Peo-lhe, Flora, que se deixe guiar pela minha
intuio. No chame esse homem... Acho que no de-
ve imiscu-lo nos seus assuntos de famlia.

  - Sei porque me diz isso - respondeu a moa -,
mas  justamente por esse motivo que pretendo falar-
-lhe. O doutor receia que... Mas eu conheo Rudolph
melhor que o senhor.
  - Rudolph? - estranhou Caroline. - Mas que
tem ele a ver com o caso?
  Nem eu nem Flora lhe prestmos ateno.
  - Rudolph poder ser leviano - prosseguiu
Miss Ackroyd - pode, noutros tempos, ter feito uma
srie de tolices, mas nunca chegaria ao ponto de matar
fosse quem fosse.
  - Nunca pensei isso a seu respeito - defendi-me.
  - Nesse caso, porque foi, ontem  noite, aos Trs
Javalis, depois de ter descoberto o cadver de meu tio?
- perguntou acusadoramente.
  No soube que responder, pois pensava que essa
minha diligncia tivesse passado desapercebida.
  - Como soube? - inquiri.
  - Soube pelos criados que Rudolph se instalara
nesse hotel e que o doutor foi l esta manh - expli-
cou Flora.
  - No sabia que ele estava em King's Abbot?
  - No e at fiquei admirada... Perguntei por ele e
responderam-me que sara, ontem  noite, por volta
das nove horas e que no voltara a aparecer.
  Ao diz-lo, fitou-me desafiadoramente.
  - De resto, no era obrigado a voltar l - prosse-
guiu, emocionada. - Pode ter regressado a Londres
por qualquer razo que ignoramos.
  - Sem retirar as malas? - estranhei.
  - Deve haver uma explicao para isso - teimou
Flora, batendo o p na alcatifa.
  - E  por isso que pretende falar com Poirot?
No acha prefervel deixar correr os acontecimentos?
Lembre-se de que a polcia no pensou em Rudolph e
est seguindo outra pista.
  - Suspeitam dele - informou Flora. - Ainda
hoje chegou o inspector Raglan, de Cranchester, um

64 65







homenzinho odioso, inquisidor... Esteve no Trs Java-
lis antes de mim. Estou certa de que suspeita de Ru-
dolph como autor do crime.
  - Davis pensa que foi Parker - informei. - Es-
tranho que a polcia tenha mudado de opinio, de on-
tem para hoje.
  - Parker! Que disparate! - gargalhou minha
irm.
  Flora levantou-se, ps-me a mo no brao e pe-
diu-me.
  - Venha comigo, doutor. Vamos falar imediata-
mente a Mister Poirot. Ele saber descobrir a verdade.
  A ideia desagradava-me profundamente. Como rea-
giria Davis quela intromisso de um detective estran-
geiro?
  - Acha que convm, realmente, descobrir a ver-
dade? - inquiri significativamente.
  - Estou certa de que Rudolph est inocente-
respondeu Flora.
  Caroline interveio, desesperada por estar calada
tanto tempo:
  -  possvel que Rudolph tenha sido um tanto ou
quanto perdulrio, mas  um bom rapaz e extrema-
mente afvel. Nada tem de criminoso.
  Noutras circunstncias teria objectado a minha ir-
m que muitos criminosos parecem pessoas encantado-
ras. Visto que Flora estava decidida, resolvi sair ime-
diatamente com ela, antes que Caroline nos impingisse
dogmaticamente outra das suas convices.
  Uma velha, com uma enorme touca bret, veio
abrir-nos a porta da villa dos Larios. Introduziu-nos
numa saleta invulgarmente arrumada, como se nin-
gum a habitasse. Momentos depois, apareceu o meu
recente amigo da vspera.
  - Doutor - saudou ele, em francs -, Miss Ack-
royd. . .
  - Deve ter ouvido falar da tragdia de ontem-
preambulei.

  - Certamente! Que coisa hornvel. Lamento imenso,
Miss Ackroyd - acrescentou, virando-se com uma v-
nia para Flora.
  - Miss Ackroyd pretendia que o senhor - co-
mecei.
  - Peo-lhe que descubra o assassino - interrom-
peu ela.
  - Mas a polcia j est em campo - observou o
homenzinho.
  - Pode errar nas suspeitas - objectou Flora.-
Suplico-lhe que nos ajude, Mister Poirot. Se se trata
de uma questo de dinheiro...
  O detective levantou os braos para o tecto, repu-
diando a ideia.
  - No, miss! No quero dizer que o dinheiro me
cause repugnncia. Pelo contrrio, dei-lhe sempre o
devido valor. Mas se tiver de encarregar-me desse ca-
so, teremos de assentar numa condio essencial: irei
at ao fundo da questo. Um bom perdigueiro nunca
abandona o rasto da presa... E pode dar-se o caso de
Miss Ackroyd vir a arrepender-se desta sua diligncia.
Porque no deixa o assunto nas mos da polcia local?
  - Quero saber a verdade - teimou Flora, fitan-
do-o determinantemente.
  - Toda a verdade?
  - Seja ela qual for.
  - Nesse caso, estamos de acordo - concedeu Poi-
rot. - Exponha-me, ento, todos os pormenores.
  - Seria prefervel que o doutor Sheppard lhos ex-
pusesse. Sabe mais do que eu.
  Narrei todos os factos que atrs mencionei, termi-
nando a minha histria na altura em que Davis e eu t-
nhamos deixado a villa Fernly, na noite anterior.
  - E agora - pediu Flora -, conte o que sabe
acerca de Rudolph.
  Hesitei, mas ela impeliu-me com um olhar impe-
rioso. Obedeci.
  - Soube que o doutor foi ontem  noite, ao Hotel


66







Trs Javalis - disse Poirot. - Quer dizer-me qual o
motivo exacto dessa sua diligncia?
  - Pensei que devia avisar o rapaz do que aconte-
cera... J que s eu e Mister Ackroyd sabamos que
ele se encontrava a hospedado.
  Poirot aprovou, com um lento menear de cabea.
  - Naturalmente... mas foi esse o nico motivo
que o levou ao hotel?
  - O nico - respondi categoricamente.
  - No teria sido para assegurar-se do paradeiro do
rapaz?
  - Assegurar-me?
  - Quero dizer que teria sido para si um alvio as-
segurar-se de que o capito Paton permanecera toda a
noite no hotel.
  - No foi esse o motivo - contrariei.
  Poirot sacudiu a cabea, gravemente.
  - Lamento que o doutor no me dispense a mes-
ma confiana que Miss Ackroyd - observou. - No
importa. O que interessa  averiguar por que razo o
capito Rudolph Paton desapareceu em to estranhas
circunstncias. Talvez a explicao seja at muito sim-
ples...
  -  o que tenho dito - interveio Flora, animosa-
mente.
  Poirot no insistiu mais no assunto e props que
fssemos at ao posto da polcia local. Preferiu que Flora
regressasse a casa e que s eu o acompanhasse.
  Encontrmos a o inspector Davis, com ar preocu-
pado, acompanhado do intendente da polcia do Dis-
trito, coronel Melrose, e de um outro indivduo que,
pela descrio de Flora, identifiquei como sendo o ins-
pector Raglan, de Cranchester.
  Como conhecia bem o coronel Melrose, apresentei-
-lhe Poirot e anunciei-lhe a nossa pretenso. O inten-
dente mostrou-se contrariado e Raglan assumiu um ar
sombrio, enquanto Davis parecia deveras satisfeito
com o desagrado que a interveno de Poirot causava
aos outros.

  - O caso parece-me de uma simplicidade elemen-
tar - declarou Raglan. - No vejo necessidade de vi-
rem amadores meter o nariz neste assunto. Qualquer
imbecil, mesmo ontem  noite, poderia ter visto como
estavam as coisas, sendo escusado terem-se perdido
doze horas preciosas.
  Lanou um olhar furioso a Davis que o recebeu
com perfeita imperturbabilidade.
  - Decerto que a famlia Ackroyd far o que en-
tender - disse o coronel Melrose. - Contudo, no
permitiremos que se criem obstculos s investigaes
policiais. Devo dizer - acrescentou cortesmente -,
que no ignoro a grande e justificada fama de Mister
Poirot.
  - Sim - comentou Raglan acidulamente -, mas
a verdade  que a polcia oficial no pode andar a fazer
propaganda, nos jornais, daquilo que todos conside-
ram ser a sua obrigao.
  Foi Poirot quem salvou a situao.
  - Retirei-me da aco e no tencionava ocupar-me
de novos crimes. De resto, aborreo a publicidade e
desde j exijo, caso venha a contribuir de qualquer
modo para a soluo do mistrio, que o meu nome no
seja mencionado.
  A fisionomia de Raglan desanuviou-se um pouco.
  - Tenho tido conhecimento de alguns dos seus
xitos, realmente notveis - apreciou o coronel Mel-
rose.
  - Pratiquei muito - disse Poirot -, mas a maio-
ria dos meus xitos deveu-se ao concurso da polcia.
Nutro a maior admirao pela polcia inglesa. Se Mis-
ter Raglan quiser aceitar a minha colaborao, ficarei
verdadeiramente honrado...
  A expresso do inspector melhorou sensivelmente.
  Entretanto, Melrose chamara-me de parte e confi-
denciou-me:
  - Ouvi dizer que este homenzinho tem operado
verdadeiros milagres. No queremos recorrer  polcia

68 69







central de Londres. Raglan entende no precisar da
Scotland Yard para nada e est cheio de autoconfiana.
Eu j no sinto o mesmo. Conheo melhor do que ele
os elementos deste jogo. Se este sujeito belga est dis-
posto a auxiliar-nos, discretamente, no vejo o menor
inconveniente. Que lhe parece?
  - S contribuir para maior glria do inspector
Raglan - sentenciei solenemente.
  - Bem, bem - disse o coronel, j de bom humor.
Levantando a voz prosseguiu: - Temos, pois, de ex-
por-lhe, Mister Poirot, os resultados das ltimas inves-
tigaes.
  - Obrigado - agradeceu o detective. - O meu
amigo doutor Sheppard disse-me que as suspeitas inci-
diam sobre o mordomo Parker.
  - Suposio absurda - criticou vivamente Ra-
glan. - Esses criados de categoria so facilmente im-
pressionveis e tornam-se suspeitos pela sua atitude...
  - E quanto s impresses digitais? - insinuei.
  - Nada tm a ver com Parker - declarou Raglan.-
Nem com ele nem com Mister Raymond.
  - E com as do capito Rudolph Paton? - interes-
sou-se Poirot.
  Senti uma secreta admirao pela maneira como o
detective belga agarrava o toiro pelos cornos. Na ex-
presso do inspector notei tambm um claro de res-
peito.
  - Vejo que ser agradvel trabalhar consigo, Mis-
ter Poirot - disse Raglan. -  um verdadeiro profis-
sional. Logo que possvel, verificaremos as impresses
digitais de Rudolph.
  - Est enganado - advertiu o coronel Melro-
se. - Conheo Rudolph Paton desde criana e sei que
jamais cometeria um crime dessa natureza.
  O inspector encolheu os ombros com indiferena e
limitou-se a dizer:
  -  possvel.
  - Que indcios tm contra ele? - sondei.

  - Saiu ontem  noite, precisamente antes das no-
ve horas. Foi visto nas proximidades da villa Fernly,
meia hora mais tarde e depois disso ningum mais
soube dele.  admissvel que se encontre, uma vez
mais, em dificuldades fmanceiras. Tenho em meu po-
der um par de sapatos que lhe pertencem. Tm saltos
de borracha. Possua dois pares, quase idnticos, pelo
que vou verificar se as pegadas detectadas lhes corres-
pondem. Temos um agente a guard-las.
  - Vamos ver isso - decidiu o coronel. - O dou-
tor e Mister Poirot desejam acompanhar-nos?
  Aceitmos e partimos no carro do intendente.
A meio da estrada que conduzia  villa Fernly, havia
um caminho do lado direito que, passando sob a janela
do gabinete de Ackroyd, ladeava todo o terrao.
  Melrose inquiriu:
  - Mister Poirot deseja acompanhar o inspector,
ou prefere ir j examinar o gabinete?
  O belga escolheu a segunda proposta. Parker veio
abrir-nos a porta, irrepreensvel e atencioso, parecen-
do ter-se completamente refeito do pnico que eviden-
ciara na noite anterior.
  O coronel tirou do bolso uma chave, abriu a porta
do gabinete e afastou-se para que entrssemos.
  - Salvo a remoo do cadver - anunciou -, es-
te aposento encontra-se nas mesmas condies em que
o encontrmos, ontem  tarde.
  - E onde se achava o cadver? - inquiriu Poirot.
  Descrevi-lhe a posio do corpo. Diante do fogo
via-se ainda a poltrona onde Ackroyd se sentara.
  Poirot dirigiu-se para ela e sentou-se no mesmo lu-
gar. Virou-se para mim e perguntou:
  - Essa carta azul de que me falou..., onde se
achava, quando o doutor saiu?
  - Mister Ackroyd colocara-a nessa mesinha,  sua
direita.
  - Tudo o mais est no seu lugar?
  - Creio que sim.

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  Poirot levantou-se e pediu ao coronel:
  - Desculpe incomod-lo, mas poderia sentar-se
nesta poltrona? E o doutor quer ter a bondade de indi-
car-me a posio exacta do punhal?
  Melrose e eu obedecemos amavelmente, enquanto
o detective foi postar-se  entrada da porta.
  - Portanto - prosseguiu Poirot -, o cabo da ar-
ma estava bem visvel e tanto o senhor como o mordo-
mo puderam v-lo, mal entraram, no  verdade?
  - Sim - confirmei.
  O belga encostou-se  janela, examinando-a. Sem
se voltar para ns, inquiriu:
  - Quando descobriu o cadver a luz estava acesa?
  Respondi afirmativamente e aproximei-me do pei-
toril que ele examinava.
  - Os saltos de borracha so do mesmo tipo dos
que guarnecem os sapatos do capito Rudolph - ob-
servou tranquilamente.
  Em seguida, Poirot foi postar-se no centro do gabi-
nete, olhou em torno e perguntou-me:
  - Possui dotes de observao, doutor Sheppard?
  - Creio que sim - respondi surpreso.
  - Disse-me que o fogo da sala estivera aceso?
E quando foraram a porta e encontraram o corpo de
Mister Ackroyd, acharam-no ainda aceso?
  - Para falar francamente, no dei por isso. Talvez
o major Blunt, ou o secretrio, Mister Raymond, pos-
sam responder-lhe mais positivamente.
  -  necessrio proceder sempre com mtodo. Co-
meti um erro ao fazer-lhe esta pergunta. Decerto que
acerca do paciente nada lhe teria escapado, quanto aos
mais minuciosos pormenores. Se pretendesse informa-
es sobre as cartas ou documentos que estavam sobre
a mesa deveria dirigir-me a Mister Raymond. Para ob-
ter indicaes exactas sobre o fogo devo falar com
quem est dele encarregado.
  Fitou o mordomo e perguntou:
  - Ontem  noite, Parker, quando voc e o doutor
foraram a porta, o fogo estava aceso?

  - Sim, senhor, mas no muito vivo. Estava quase
apagado.
  - Eh! - exclamou o detective, com um ar de
triunfo. - E quanto ao cortinado, Parker, estava co-
mo agora?
  - No, senhor. Estava em baixo e a luz acesa.
  Poirot fez um sinal de assentimento.
  - Nada mais, senhor?
  - Diga-me, Parker: a poltrona estava exactamente
neste lugar? Coloque-a como a achou, por favor.
  O mordomo afastou a poltrona, cerca de sessenta
centmetros, da parede, virando-a um pouco mais para
a porta.
  -  estranho - murmurou Poirot. - Ningum
estaria disposto a sentar-se nesta posio. Sabe quem a
reps no seu lugar habitual, Parker?
  - No sei, senhor. Fiquei muito perturbado ao
ver o patro naquela situao e no voltei a mexer fos-
se no que fosse.
  - Foi o doutor? - inquiriu o belga, voltando-se
para mim.
  Abanei a cabea.
  - Mas quando entrei aqui, com a polcia - eluci-
dou o mordomo -, a poltrona j se achava onde est
agora..., na sua posio habitual.
  - Verdadeiramente estranho - repetiu Poirot.
  - Talvez tenha sido Raymond..., ou Blunt - su-
geri -, que a tenham arrumado no devido lugar. Mas
no creio que isso tenha importncia.
  -  por parecer insignificante que o facto me des-
pertou interesse. Se um dia o doutor se ocupar de
outro caso desta natureza, ver como h factos aparen-
temente irrisrios que se tornam importantes.
  Entretanto, o coronel Melrose afastara-se com Par-
ker para a sala contgua. O belga continuava a dis-
sertar:
  ...e ver que todas as pessoas ligadas  vtima
tero qualquer coisa a ocultar, em relao a esta.

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  - Eu tambm? - perguntei, sorrindo.
  Calmamente, Poirot respondeu:
  - Creio que sim, doutor.  uma regra.
  - Mas... - ia eu protestar.
  - Disse-me tudo a respeito do capito Paton?
  Sorriu, enquanto eu corava. Para dissimular a mi-
nha confuso, pedi-lhe:
  - Gostava que me explicasse os seus mtodos de
investigao. Por exemplo, as suas perguntas a respei-
to do lume do fogo de sala...
  - Nada mais simples. Deixou Mister Ackroyd s
nove menos dez, no  verdade?
  - Precisamente - confirmei.
  - A essa hora, a janela estava fechada, enquanto a
porta ficara aberta. Porm, s dez e um quarto, quan-
do descobriram o cadver, a situao era inversa: a
porta estava fechada e a janela aberta. Quem poderia
t-la aberto? A resposta  s uma: Mister Ackroyd... e
por duas razes. Ou porque a sala se tornara excessi-
vamente quente e abafada, ou porque consentiu que
algum entrasse pela janela. Ora, se ontem o fogo esta-
va quase extinto, num dia de baixa temperatura, pode-
mos excluir a primeira hiptese. Quanto  segunda, se
Mister Ackroyd deixou entrar algum por essa via, de-
via ser pessoa da sua intimidade, tanto mais que na
mesma noite se mostrara preocupado com a possibili-
dade de a janela estar aberta.
  - Parece lgico - comentei.
  - Tudo  lgico, quando se dispem os factos
com o devido mtodo. Temos portanto de identificar
quem se encontrou com Mister Ackroyd, s nove e
meia de ontem, embora a ltima pessoa a v-lo com
vida tenha sido Miss Flora. E possvel que, aps a par-
tida do visitante desconhecido, a janela tenha ficado
aberta. Pode at ser possvel que a mesma pessoa te-
nha entrado uma segunda vez... Ah! A vem o coronel
Melrose.
  Este entrou no gabinete denunciando viva exci-
tao.

  - Conseguimos, finalmente, identificar o telefone-
ma - informou. - Foi transmitido, s dez e um
quarto da noite de ontem, da estao de King's Ab-
bot... E, s 10 e 23, partiu o comboio directo para Li-
verpool.



CAPTULO VIII

O INSPECTOR RAGLAN SABE O QUE FAZ


  - Vai ordenar uma investigao na estao? - per-
guntei.
  - Decerto, mas no tenho grandes esperanas nos
resultados. Bem sabe como  a estao de King's
Abbot...
  Sendo apenas uma simples vila,  tambm um en-
troncamento ferrovirio, onde a maioria dos comboios
directos tm de parar e onde h constantes mudanas
de linhas e alterao de composies. Possui trs cabi-
nas telefnicas pblicas e, quela hora da noite, che-
gam quatro comboios, para ligao ao rpido do Nor-
te. Entre as 10 e as 11 horas a confuso  enorme e
quase impossvel fixar quem utiliza o telefone ou parte
no rpido.
  - No compreendo o motivo desse telefonema-
observou Melrose. - Parece no fazer sentido.
  Poirot que examinava uma porcelana respondeu
sem se voltar:
  - Deve existir uma razo poderosa.
  - Mas qual?
  - Quando soubermos isso - respondeu novamen-
te o detective -, saberemos tudo.
  Dirigiu-se  janela e olhou para o exterior. Depois,
perguntou-me:
  - Disse serem nove horas, quando encontrou o tal
desconhecido?

74 75







Sim - confirmei. - Ouvi-as soar no relgio da
torre.
  - Quanto tempo precisaria ele para chegar at
aqui..., a esta janela, por exemplo?
  - Cinco minutos, o mximo - calculei.
  - Mas precisaria de conhecer o local, no?
  - Certamente. Teria de voltar  esquerda e meter
pelo atalho - confirmei.
  - Portanto, para pr-se aqui em cinco minutos,
teria de j c ter estado anteriormente.
  - No h dvida - disse o coronel Melrose.
  - Haver maneira de sabermos se Mister Ackroyd
recebeu algum forasteiro na semana passada?
  - Talvez Raymond o saiba - sugeri.
  - Ou Parker - acrescentou Melrose.
  - Ou ambos - concluiu Poirot, sorrindo.
  O coronel foi  procura de Raymond e eu toquei a
campainha para chamar Parker.
  Raymond mostrou-se encantado por conhecer
o detective belga.
  - No sabia que viera viver junto de ns. Ser pa-
ra mim deveras excitante v-lo trabalhar.
  Poirot empurrava a poltrona para o lugar indicado
por Parker e Raymond inquiriu:
  - Quer que me sente a?
  - Ontem  noite, Mister Raymond, algum em-
purrou esta poltrona, tal como viu, e foi nessa posio
que se encontrou o cadver de Mister Ackroyd. Foi o
senhor, por acaso? - perguntou Poirot.
  - Nem sequer me lembro de a ter visto nessa po-
sio.
  - No tem importncia. J agora, diga-me: sabe
se, na semana passada, veio algum forasteiro visitar
Mister Ackroyd?
  O secretrio franziu a testa e retorquiu:
  - No fao a menor ideia. Talvez Parker.
  Este entrava nesse momento e sendo identicamente
interrogado, declarou:

  - Sim. Veio um rapaz na quarta-feira, da firma
Curtis & Troute.
  - Esse  o empregado dos ditafones - interrom-
peu Raymond. - No  decerto o indivduo que Mis-
ter Poirot procura. Mister Ackroyd pretendia adquirir
um desses aparelhos que facilitam muito o servio.
  Virando-se para Parker o detective sondou:
  - Como era esse rapaz?
  - Loiro e de baixa estatura, mas vestia elegante-
mente, para a sua posio. Lembro-me, senhor, que
trazia uma camisa azul.
  Voltando-se agora para mim, Poirot perguntou:
  - O desconhecido que viu, doutor, era alto, no 
verdade?
  - Sim. Cerca de um metro e oitenta.
  - Obrigado, Parker - disse o belga. - Nada feito!
  O mordomo dirigiu-se ento a Raymond para
anunciar-lhe:
  - Mister Hammond acaba de chegar.
  - Vou imediatamente - disse o secretrio.
  Quando saiu, Poirot interrogou Melrose com os
olhos.
  - Hammond  o advogado da famlia - esclare-
ceu este. - Ackroyd considerava-o muito eficiente.
  - E Raymond?
  - Um excelente secretrio e moo encantador.
  - Pratica desportos?
  - Golfe e, no Vero, tnis. Porqu? - estranhou
Melrose.
  - Apreciar corridas de cavalos?
  - No creio que se interesse por isso, se  que
pensa no jogo de apostas.
  Poirot passou os olhos em torno, pela sala e ouvi-
-me murmurar:
  - Se estas paredes falassem...
  - No lhes bastava ter boca - respondeu Poirot.-
Precisariam tambm de olhos e ouvidos. Mas s vezes,
os objectos prestam-nos preciosas indicaes.

76 77







  - Algum deles lhe comunicou hoje alguma coisa?-
motejei.
  Piscou-me um olho e respondeu:
  - Uma janela aberta, uma porta fechada, uma
poltrona que se moveu sozinha, podem vir a dizer
muita coisa.
  Pensei que a sua famosa reputao poderia resultar
apenas de um factor sorte repetido e creio que o coro-
nel Melrose pensava o mesmo.
  - Deseja ver mais alguma coisa? - perguntou este.
  - Essa mesinha onde se guardava o punhal. De-
pois disso no o incomodarei mais, coronel.
  Dirigimo-nos  saleta. Mostrei a mesa de tampo de
vidro e levantei e baixei este duas vezes. Depois, fo-
mos para o terrao.
  O inspector Raglan apareceu nesse momento, ca-
minhando na nossa direco. A sua expresso, sempre
severa, demonstrava agora certa satisfao.
  - Descobrimos, Mister Poirot - anunciou.-
O caso no tinha a menor importncia, mas no fiquei
satisfeito, j que se trata de um rapaz que todos sem-
pre julgmos excelente, mas que se deixou transviar.
  Notei que a bazfia de Poirot se dilua no ar.
  - Nesse caso, j no poderei ser-vos til - la-
mentou.
  - Fica para outra vez - retorquiu Raglan conso-
lado -, embora por aqui no haja crimes todos os
dias.
  Poirot evidenciou grande admirao elogiando:
  - O senhor foi de uma rapidez maravilhosa. Posso
perguntar-lhe como o conseguiu?
  - Certamente. Com mtodo e  tudo!
  -  o que sempre digo: mtodo e matria cin-
zenta.
  - Que  isso de matria cinzenta?
  - A das celulazinhas cerebrais - esclareceu Poirot.
  - Ah, pois! Tambm por c sabemos servir-nos
disso.

  - Sem falarmos da psicologia do crime, no  ver-
dade?
  - Vejo que o senhor tambm sofreu toda essa in-
fluncia da psicanlise. So uma data de teorias idiotas
que s complicam o sistema. Eu sou um homem sim-
ples e no preciso dessas tretas para nada. Vou dizer-
-lhe como procedi: Mister Ackroyd foi visto vivo, pela
ltima vez, por sua sobrinha, Miss Flora, s dez me-
nos um quarto. Para j, circunstncia nmero um, no
 verdade?
  - Exactamente - confirmei.
  - E segundo o doutor Sheppard, aqui presente, a
morte de Mister Ackroyd verificara-se meia hora an-
tes, no  assim?
  - Aproximadamente.
  -  a circunstncia nmero dois. Isso significa
que o crime foi praticado num quarto de hora. Fiz um
elenco de todas as pessoas que estavam em casa, verifi-
cando o que faziam, desde as nove e quarenta e cinco,
s dez horas de ontem  noite. Como v, muito sim-
ples.
  Entregou a Poirot uma folha de papel que li por ci-
ma do seu ombro. Dizia:

 <Major Blunt - Na sala de bilhar, com Mr. Raymond
  (este confirma);
Mr. Raymond - Sala de bilhar (confirmado pelo major
  Blunt);
Mrs. Ackroyd - s 9 e 45, assiste  partida de bilhar;
  s 9 e 55, vai para a cama (Raymond e Blunt vi-
  ram-na subir);
Miss Ackroyd - Subiu do escritrio do tio, directamente
  para o seu quarto (confirmado por Parker e pela
  criada Elsa Dale);

Pessoal de servio:

Parker - Foi directamente para a despensa (confirmado

7g 79







  pela governanta, Mrs. Russell, que desceu para fa-
  lar-lhe s 9 e 47 e permaneceu junto dele cerca de 10
  minutos);
Mrs. Russell - (Vide indicao supra - falou com a
  criada Elsa Dale, s 9 e 45);
Elsa Dale - Achava-se no andar superior, onde foi vista
  por Mrs. Russell e por Miss Flora Ackroyd;
Ursula Bourne (criada) - Permaneceu no quarto at s
  9 e 45, aps o que se dirigiu para as dependncias de
  servio;
Emma Cooper (cozinheira) - Esteve sempre nas depen-
  dncias de servio;
Mary Tripp (criada) - Idem;
Nota: A cozinheira est na villa h seis anos; a primeira
  criada, h 18 meses; Parker, h pouco mais de um
  ano. Os outros esto h pouco tempo. Excepto Par-
  ker, que demonstra um comportamento um pouco am-
  biguo, todos os restantes parecem pessoas de bem.   

  -  um elenco completssimo - apreciou Poirot,
devolvendo o papel. - Estou plenamente convencido
de que no foi Parker quem cometeu o crime.
  - Minha irm tambm  dessa opinio - inter-
vim -, e geralmente acerta.
  Ningum fez caso do que eu disse.
  - Agora um ponto importante. A porteira, Mary
Black, ontem  noite, quando baixava os cortinados
das janelas viu Rudolph atravessar o porto e dirigir-se
para a villa.
  - Ela est certa disso? - perguntei com excessiva
exaltao.
  - Absoluta. Conhece-o bem. Viu-o passar diante
da portaria, com muita pressa, e tomar o caminho da
esquerda de acesso ao terrao.
  - Que horas eram? - interessou-se Poirot.
  - Nove e vinte cinco, exactamente - respondeu
o inspector.
  Aps alguns segundos de silncio meditativo, Ra-
glan prosseguiu:

  - Agora tudo  claro, visto que todas as circuns-
tncias se combinam. s nove e quinze, o capito Ru-
dolph Paton  visto passar diante da portaria; s nove
e trinta, aproximadamente, Mister Raymond ouve al-
gum, no escritrio, pedir dinheiro a Mister Ackroyd
que lho nega. Que aconteceu depois disso? Pois bem,
o capito sai por onde entrara, ou seja, pela janela.
Passeia um pouco desiludido pelo terrao e aborda a
janela aberta da sala. So cerca das nove horas e trs
quartos. Miss Flora est a desejar boas-noites ao tio.
O major Blunt, Mister Raymond e Mistress Ackroyd
encontram-se na sala de bilhar. A sala est portanto
vazia. Paton entra pela janela, apodera-se do punhal
que est na mesinha da sala e volta ao escritrio. Co-
mete o crime. Depois, trepa o peitoril... e...  intil
insistir nos pormenores. A seguir sai e foge. No tem
coragem de regressar ao hotel. Vai para a estao e te-
lefona.. .
  - Porqu? - interrogou Poirot.
  Colhido de surpresa, Raglan emudeceu. Por fim
arriscou:
  - Bem,  difcil de explicar o motivo por que o
fez, mas os assassinos cometem, por vezes, actos inex-
plicveis. Os mais espertos de entre eles tm cado em
erros verdadeiramente pueris. Mas... se me acompa-
nharem, mostrar-vos-ei as marcas dos sapatos de Paton.
  Seguimo-lo, dobrando a esquina do terrao, at 
janela do gabinete. A uma ordem de Raglan, um agen-
te da polcia entregou os sapatos que tinham sido en-
contrados no hotel e o inspector colocou-os sobre as
pegadas.
  - So precisamente estes - declarou com certa
arrogncia. - Pelo menos, isto  um par de sapatos
idntico ao que deixou estas marcas no peitoril, embo-
ra esteja um pouco mais usado, como se v pelos saltos
de borracha j gastos.
  - Mas h muita gente que usa esses saltos de bor-
racha - observou Poirot.

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  - Certamente - respondeu Raglan - e eu pr-
prio no daria grande importncia s pegadas, se no
houvesse outros indcios.
  - Deve ser um rapaz muito ingnuo - comentou
Poirot -, para deixar tantos rastos da sua passagem.
  - Sim, realmente - concordou de mau modo o
inspector. - A noite estava seca e serena, mas um
pouco alm, junto da estrada, deve ter brotado gua
de qualquer lado, visto que a terra se encontra mole.
Ora, justamente nesse ponto, vem-se marcas de sapa-
tos com saltos de borracha.
  Fomos at ao local.
  - Notou que tambm h marcas de sapatos de
mulher? - inquiriu o detective belga.
  Raglan riu, um pouco contrafeito.
  - E natural - concedeu. - Passa por aqui muita
gente: homens e mulheres. Este atalho conduz  vila e
 impossvel identificarmos todas as marcas de sapa-
tos. As que realmente nos interessam so as que detec-
tmos sobre o peitoril da janela do gabinete.
  Poirot aprovou com um sinal de cabea, enquanto
os seus olhos se detinham num pequeno pavilho rs-
tico, ou quiosque, como lhe chamavam, que se achava
 esquerda do atalho. Dava-lhe acesso um pequeno tri-
lho muito estreito.
  Depois de Raglan ter regressado a casa, Poirot
olhou para mim e disse:
  - O doutor foi um enviado do Cu para substituir
o meu amigo Hastings!
  Piscou-me um olho e continuou:
  - Quer vir comigo investigar aquela espcie de
quiosque?
  Fomos at l e abri a porta. A luz, no interior, era
insuficiente. Viam-se um par de assentos rsticos, um
jogo de croquet e vrias cadeiras de viagem, dobradas.
  Admirei-me de ver o meu novo amigo pr-se de
gatas e apalpar o cho com as mos. Por fim, tornou a
erguer-se manifestando um certo desagrado.

  - Nada - confessou. - Mas podia ter sido mui-
to importante...
  - O qu? - interessei-me.
  Abriu a mo e mostrou-me um pedao de tecido
engomado.
  Peguei-lhe, examinei-o e devolvi-lho.
  - ( ue me diz a isso? - desafiou.
  - E um pedao de cambraia, arrancado a um leno.
  Realmente aquilo parecia no ter a menor impor-
tncia. Encolhi os ombros. Subitamente, com outro
movimento rpido, Poirot apanhou do cho o tubo de
uma pena de pato.
  - E isto? - perguntou, com ar triunfante.-
Que me diz a isto?
  Limitei-me a observ-lo, admirado.
  Guardou o tubinho no bolso e comeou a examinar
o pedao de cambraia.
  - Ser realmente de um leno? - murmurou,
pensativo.
  - Assim parece - concordei.
  - Mas no se esquea de que,   numa boa lavanda-
ria  , no se engomam lenos.
  Com uma atitude quase triunfal, entalou o pedao
de tecido entre as pginas da sua agenda.



CAPTULO IX

O LAGO DOS PEIXES DOURADOS


  Voltmos juntos para a villa onde ningum sabia
do paradeiro do inspector. Poirot parou no terrao, de
costas voltadas para o edifcio e abanou a cabea.
  -  uma bela propriedade. Quem ser o herdeiro?
  As suas palavras fizeram-me estremecer. At que-
le momento, a questo da herana no me viera 
ideia.

82 83







  - Ainda no tinha pensado nisso, no  verdade?-
sondou o detective.
  - No - admiti -, e sinto-me tolo por esse meu
alheamento.
  - Quem sabe a causa desse seu alheamento!-
disse Poirot. - Que outra preocupao mais forte o
impediu de considerar o mais natural motivo para um
crime? Mas o senhor no mo diria.
  - Cada qual tem sempre qualquer coisa a ocultar-
sentenciei.
  - Precisamente - respondeu -, mas no  fcil
esconder segredos a Hercule Poirot. Sou bastante es-
perto para descobri-los.
  Dizendo isto, desceu para o jardim.
  - Vamos passear um pouco - convidou. - Est
um dia encantador.
  Segui-o. Conduziu-me por um caminho ladeado de
teixos-anes. Por ele se chegava a uma vereda que con-
duzia ao centro do jardim. As margens estavam deco-
radas por flores bem cuidadas e terminava num reces-
so circular com bancos, em torno de um pequeno lago
onde nadavam peixes doirados.
  Em vez de seguir at ao fim, Poirot enveredou por
outro caminho que serpenteava pelo declive de um
bosque.
  Desembocmos numa clareira onde se achava
um banco rstico. Podamos apreciar dali um belo pa-
norama, vendo-se claramente o lagozinho de peixes.
  Foi nesse momento que vi Flora. Vinha pelo cami-
nho que tnhamos acabado de percorrer. Cantarolava.
Dir-se-ia que danava e, apesar do vestido negro, ema-
nava alegria de toda a sua atitude. De repente deu
uma pirueta, fazendo revoar a saia em torno das ancas
perfeitas. Lanou a cabea para trs e soltou uma risada.
  Nesse instante, saiu um homem de entre as rvo-
res. Era Hector Blunt. A jovem estremeceu e a sua ex-
presso transformou-se imediatamente.
  - Assustou-me. No o tinha visto.

  O major, sem responder, ficou-se a contempl-la
com evidente agrado.
  Em tom mordaz, Flora criticou:
  - O que me atrai em si,  a vivacidade da sua
conversa! No  muito loquaz, pois no?
  Creio que Blunt corou sob a epiderme bronzeada
pelo sol dos trpicos. Quando comeou a falar, vibra-
va-lhe na voz uma estranha humildade.
  - A loquacidade nunca foi o meu forte. Nem
mesmo quando era jovem e um pouco irresponsvel.
  - O que j deve ter sido h bastante tempo - ob-
servou Flora maliciosamente.
  - Com efeito - respondeu ele, simplesmente.
  - J agora, diga-me, major, como se sente uma
pessoa, quanto atinge a idade de Matusalm?
  Desta vez o gracejo era contundente, mas o militar
no reagiu, preferindo perguntar:
  - Lembra-se daquele indivduo que vendeu a al-
ma ao Diabo para que este o rejuvenescesse?
  - Refere-se a Fausto, das peras?
  - Sim, o Fausto, de Goethe. Sei de uma pessoa
que gostaria de firmar um pacto semelhante.
  - Ouvindo-o falar to seriamente, quase me sinto
assustada, major!
  Blunt no retorquiu. Desviou o olhar para o arvo-
redo e acabou por observar:
  - Creio que j  tempo de voltar para frica.
  - Para novas caadas?
  - Talvez.
  - Foi o senhor quem matou o animal cuja cabea
ornamenta o nosso vesti'bulo?
  Fez um sinal afirmativo. Depois, corando, balbu-
ciou:
  - Gostaria de ter uma pele, Miss Flora? Terei
muito gosto em mandar-lha.
  - Oh, sim! Muito! No se esquea.
  - Pode estar descansada que no me esquecerei
de si. Mas j  tempo de voltar  floresta. No nasci

84 85







para este gnero de vida palaciana. Sou demasiado ru-
de para uma sociedade sofisticada e esqueo o que 
conveniente dizer-se, em dadas circunstncias.
  - Mas no vai partir j, pois no? - disse Flora,
um pouco desiludida. - Pelo menos no nos deixar,
enquanto estivermos a braos com este infeliz pro-
blema.
  - Quer que fique? - sondou o major.
  - Todos gostamos de t-lo entre ns...
  - Pergunto-lhe a si, pessoalmente.
  Flora deu um passo para ele e fitou-o de frente,
bem nos olhos.
  - Peo-lhe que fique..., se isso no afecta as suas
decises.
  - Pelo contrrio. D-me profunda satisfao e po-
de ser de mxima importncia no curso da minha vida.
  Aps um momento de silncio, sentaram-se num
banco, junto do lago. Parecia que nenhum deles sabia,
agora, como reencetar a conversao.
  - Est um dia lindo - comentou Flora, para que-
brar o mutismo embaraoso. - No posso deixar de
sentir-me satisfeita, apesar de tudo o que aconteceu.
 estranho, quase inconveniente, este sentimento, no
acha?
  - Acho-o perfeitamente natural - apoiou o ma-
jor. - Miss Flora apenas conhecia o seu tio, h dois
anos. Nunca o vira antes, no  verdade? No se pode
exigir-lhe que se aflija muito por uma pessoa com
quem nunca se mantiveram laos de grande intimida-
de. A sinceridade  bem melhor do que a hipocrisia.
  - H em si qualquer coisa que consola e cativa,
major. Consegue fazer-nos sentir que tudo quanto nos
rodeia  simples e seguro!
  - Na maioria dos casos, as coisas so realmente
simples. As pessoas  que as imaginam complicadas.
  - Nem sempre - objectou a jovem.
  Flora disse ento algumas frases em surdina que
no pudemos detectar, enquanto o major fitava a copa

das rvores, parecendo embrenhado numa das suas di-
gresses imaginativas pelos sertes. Contudo, naquele
momento, vivia bem a realidade, visto que respondeu:
  - Vamos l, Miss Flora, no se aflija. O caso do
seu noivo no est ainda perdido. Esse inspector 
burro.  absurdo que Rudolph tenha praticado aquele
crime. Foi certamente algum que entrou pela jane-
la..., um criminoso comum... E a nica soluo pos-
svel.
  - E o senhor acredita realmente nisso?
  - Miss Flora tambm no acredita?
  - Eu... sim, naturalmente. Vou confessar-lhe por-
que me sinto satisfeita, esta manh. O notrio, Mis-
ter Hammond, esteve esta tarde na villa para falar-nos
do testamento. O tio Roger deixou-me vinte mil li-
bras.
  Blunt olhou-a surpreendido.
  - E isso significa realmente muito para si?
  - Sim: significa liberdade, vida. No precisarei
mais de torturar o crebro..., contar cada centavo, no
fundo da minha magra bolsa... no terei mais de fingir
que estou grata por uma felicidade que no tinha.
  - Miss Flora fingia?
  A jovem hesitou. Depois decidiu confessar:
  - Sim. Fingi-me reconhecida e alegre com as mi-
galhas que os meus parentes me lanavam... vaidosa
de ostentar os vestidos usados e os chapus fora de
moda de minha tia.
  - Pouco entendo de modas, Miss Flora - comen-
tou o major Blunt -, mas pareceu-me sempre a mais
bela, a mais elegante...
  - Os seus olhos no so os da sociedade que nos
rodeia; so de amigo. Os desta sociedade eram de car-
cereiro... e agora estou livre para fazer o que quiser.
Livre para no ter que aceitar...
  - ... um casamento indesejado? - inquiriu
Blunt.
  Flora no respondeu, levando a mo  boca. O ma-

86







jor levantou-se e inclinou-se sobre o lago. Subitamen-
te, introduziu a ponta da bengala na gua.
  - Que est a fazer - interessou-se Flora, recom-
pondo-se da emoo.
  - Vi uma coisa a brilhar l no fundo. Pareceu-me
um alfinete de ouro.
  - Talvez a coroa que Melisenda viu no fundo das
guas.
  - Melisenda?... - repetiu o major, em surdi-
na. - Ah, j sei: refere-se  da pera?
  Flora sorriu e ele correspondeu, mas com certa
amargura.
  - A jovem Melisenda que casou com um homem
que poderia ser seu pai! - terminou ele.
  - E foram muito felizes..., como nas histrias in-
fantis.
  Blunt fitou-a gravemente e inquiriu:
  - Posso ser-lhe til, Miss Ackroyd?... Quero di-
zer, posso fazer algo em favor de Paton? Imagino
como deve estar inquieta.
  - Obrigada, major - respondeu Flora, friamen-
te. - Rudolph nada tem a recear. Sei que est inocen-
te e entreguei-me nas mos do mais hbil detective do
Mundo. Estou certa de que Mister Poirot descobrir a
verdade.
  Bastar-nos-ia termos levantado a cabea, Poirot e
eu, para que os dialogantes nos tivessem visto. Pes-
soalmente no o fiz, porque o meu amigo belga mo
impedira, em nome dessa mesma verdade que intenta-
va descobrir. Obrigou-me a uma imobilidade, incmo-
da por indiscreta, e eis que foi ele prprio quem subi-
tamente se ergueu, levantando um brao.
  - Peo que me desculpem - declarou -, mas
no posso permitir que me faam elogios, dessa ma-
neira exagerados,  minha pessoa.  uso dizer-se que
  quem escuta, s escondidas, nunca ouve falar bem de
si  . Contudo, desta vez, o ditado falhou. Vou descer e
apresentar-vos as minhas desculpas.

  Apressei-me a acompanh-lo e alcanmos o par,
junto do pequeno lago.
  - Mister Hercule Poirot - apresentou Flora.-
O major Hector Blunt. Decerto j ouviu falar dele.
  O detective inclinou-se, numa vnia.
  - Conheo o major Blunt de fama - respondeu
Poirot, cortesmente. - Sinto-me honrado por falar-
-lhe pessoalmente e particularmente satisfeito por ter
oportunidade de solicitar-lhe algumas informaes.
  Blunt fitou-o com uma expresso reservada e ao
mesmo tempo interrogativa.
  - Quando viu, pela ltima vez, Mister Ackroyd
com vida?
  - Ao jantar.
  - Depois disso, no voltou a v-lo?
  - No o vi, mas ouvi-lhe a voz.
  - Como aconteceu isso?
  - Enquanto passeava no terrao, sob a janela do
gabinete.
  - Desculpe-me a quase impertinncia das minhas
perguntas, mas... a que horas ainda o ouviu falar?
  - Cerca das nove e meia.
  - E no viu mais ningum, no exterior?
  - Pareceu-me ver uma mulher desaparecer entre
os arbustos.
  - Uma mulher?
  - Bem... um vulto branco. Se no era um fantas-
ma... devia ser um vestido feminino, deslocando-se
para l da folhagem. Foi nesse momento que ouvi a
voz de Roger falando com o seu secretrio.
  - A Mister Raymond?
  - Assim pensei... embora agora saiba que devo
ter-me enganado.
  - Mister Ackroyd no chamou o secretrio pelo
nome?
  - No.
  - Nesse caso, porque pensou que fosse ele? - es-
tranhou Poirot.

88 89







  - Porque, antes de sair, Raymond dissera-me que
tencionava levar umas cartas a Roger. Naturalmente,
no pensei noutra pessoa.
  - Lembra-se, por acaso, das palavras que conse-
guiu ouvir?
  - Frases comuns, sem significado especial; sim-
ples fragmentos de conversa.
  - No ouviu, portanto, a voz de Mister Ray-
mond?
  - No. S Roger falava.
  - J agora, major Blunt, diga-me: quando entrou
no escritrio, depois da descoberta do cadver pelo
doutor Sheppard e por Parker, foi o senhor quem des-
locou uma poltrona do seu lugar?
  - Uma poltrona? No! Para qu?
  Poirot encolheu os ombros e no respondeu. Vi-
rando-se para Flora, sorriu, com o olhar de um gato
vendo um rato.
  - H uma circunstncia que desejaria esclarecer,
Miss Ackroyd. Quando examinava, com o doutor
Sheppard, os objectos que se achavam dentro da mesi-
nha de tampo de vidro, reparou, por ventura, se o pu-
nhal se encontrava l dentro?
  A jovem fez um gesto de aborrecimento e retor-
quiu:
  - O inspector Raglan j me fez essa mesma per-
gunta. Vou repetir ao senhor, Mister Poirot, a resposta
que lhe dei. Estou absolutamente certa de que o pu-
nhal j l no estava. O inspector julga que teria sido
Rudolph quem o subtraiu, mais tarde.  falso, mas es-
se teimoso... perdo, Mister Raglan no quis acredi-
tar-me, insinuando que eu apenas pretendo ilibar Ru-
dolph.
  - E no pretende, Flora? - inquiri docemente.
  - Sim, doutor, mas com o esclarecimento da ver-
dade. E deixe que lhe diga, doutor, julgava-o amigo de
Rudolph.
  Antes que eu tivesse tempo de justificar-me, Poirot
desviou a conversa:

  - Tinha razo, major, no que dizia h pouco. H
qualquer coisa a brilhar dentro do lago. Vou tentar
agarr-la.
  Arregaou a manga, ajoelhou-se e imergiu o brao,
lentamente, para no turvar a gua com o lodo do fun-
do. Contudo, apesar de todas as suas precaues, este
agitou-se, escurecendo o lquido e o detective retirou o
brao da gua, confessando irritado que no pescara
coisa alguma.
  Ofereci-lhe um leno para limpar-se do lodo que se
lhe colara  pele, enquanto Blunt, aps consultar o
relgio, anunciava:
  - So quase horas de almoo. Acho melhor re-
gressarmos  villa.
  - Quer dar-nos o prazer de almoar connosco,
Mister Poirot? - convidou Flora. - Desejaria que o
senhor conhecesse minha me. Ela tem grande simpa-
tia por Rudolph...
  Com um cumprimento, o detective declarou:
  - Tenho o maior prazer.
  - O doutor vir tambm, no  verdade? - per-
guntou Flora.
  Hesitei um momento.
  - Peo-lhe que nos faa companhia - insistiu a
jovem.
  Aceitei, dissimulando a minha curiosidade, pelo
que se iria passar com a presena de Poirot.
  Precedidos por Flora e Blunt, dirigimo-nos para
a villa.
  - Que cabelos! - elogiou o belga, erguendo o
queixo em direco de Flora. - Oiro genuno! Que
belo contraste faro com o negro dos do capito Paton!
  Fitei-o fixamente e Poirot acrescentou:
  - Meu caro amigo, Hercule Poirot no se arrisca a
sujar a manga do casaco, sem ter a certeza de que al-
cana o seu objectivo. De outro modo seria ridculo.
E ridculo  coisa que no sou.
  - Mas o senhor no pescou nada! Veio com a mo
vazia!

90 91







  - Temos s vezes de ser discretos. O senhor tam-
bm no diz tudo o que sabe aos seus pacientes. Tam-
bm no expe tudo o que pensa a sua irm, no 
verdade? De igual maneira, antes de mostrar-vos
a mo vazia, j passara para a outra o que pescara.
Aqui est.
  Abriu-a e exibiu um pequeno anel de oiro: uma
aliana de mulher.
  - Veja o que est inscrito do lado interior-
apontou.
  Na parte interna via-se gravada uma inscrio:


DE R. - I3 DE MARO

  Olhei atnito para Poirot, mas nessa altura j ele
estava entretido a mirar-se num pequeno espelho de
algibeira e a alisar o bigode, com tal cuidado, que no
me prestou ateno. Naturalmente compreendi que
no desejava falar mais no assunto.



CAPTULO X

A CRIADA


  Fomos encontrar Mrs. Ackroyd, no vestbulo,
acompanhada de um homenzinho seco, com um quei-
xo agressivo e um par de olhos penetrantes.
  - Mister Hammond fica para almoar - anun-
ciou Mrs. Ackroyd, antes de iniciar as apresentaes:
- Mister Hammond  o meu advogado.
  Virando-se para este sorriu e perguntou como se
exibisse celebridades:
  - Conhece o major Blunt? E o nosso doutor Shep-
pard? Eram amigos do querido Roger. E permita
que lh...

  Calou-se olhando para o detective belga.
  -  Mister Poirot, mam - interveio Flora.-
 aquele senhor de que te falei esta manh.
  - Ah, sim! - disse Mrs. Ackroyd, vagamente co-
mo se se tratasse de uma coisa sem importncia.-
Minha filha encarregou-o de descobrir onde pra Ru-
dolph, no  verdade?
  - No, mam - contrariou a jovem -, vai des-
cobrir quem matou o tio.
  - Oh, querida por piedade! - exclamou
Mrs. Ackroyd teatralmente. - Os meus pobres ner-
vos! Sinto-me to mal esta manh, to mal! Esta des-
graa foi to atroz! Estou certa de que se tratou de um
acidente. Roger era to desastrado a mexer fosse no
que fosse. Deve ter estado a examinar aquela arma ra-
rssima e esta escorregou-lhe da mo, ou qualquer coi-
sa desse jeito.
  A delicadeza dos presentes fez com que esta decla-
rao tivesse sido escutada em discreto silncio.
  Vi Poirot dirigir-se ao advogado e falar-lhe em tom
confidencial.
  Aproximei-me, indeciso, e perguntei:
  - Venho incomod-los?
  - De maneira nenhuma - disse o detective.-
Tanto eu como o doutor colaboramos nas investiga-
es. Se no o tivesse como brao direito, neste am-
biente desconhecido, sentir-me-ia perdido. Desejava
apenas pedir a Mister Hammond uma pequena infor-
mao.
  - Mas acontece que o senhor est agindo a favor
do capito Rudolph Paton - observou o advogado.
  - No, Mister Hammond - corrigiu Poirot.-
Ajo apenas no interesse da Justia. Miss Flora Ack-
royd pediu-me que investigasse a morte do tio.
  O advogado no parecia sentir-se muito  vontade.
  - No quero dizer que eu considere, pessoalmen-
te, o capito Paton envolvido no crime, mas... h cer-
tos indcios que lhe so altamente desfavorveis...

92 93







O simples facto de ter grandes necessidades de di-
nheiro.. .
  Poirot mostrou-se admirado.
  Tinha, realmente, grandes necessidades de dinheiro?
  O advogado encolheu os ombros e respondeu:
  - Era um gastador impenitente. Nele, a falta de
dinheiro constitua um estado crnico. Estava sempre
a pedir vrias quantias ao padrinho.
  - Que entende por sempre, Mister Hammond?-
insistiu Poirot. - Refere-se a qualquer pedido que lhe
tenha feito, este ano?
  - Bem, este ano... no sei - balbuciou o advo-
gado.
  - Foi, portanto, no ano passado - persistiu o de-
tective.
  - Bem... no posso precisar, se teria sido no ano
passado. Ouvi dizer que Rudolph Paton estava fre-
quentemente a sangrar a bolsa de Mister Roger Ack-
royd.
  - E a pessoa que lhe prestou essa informao seria
de confiana, Mister Hammond?
  - De absoluta confiana - respondeu este, ligei-
ramente perturbado.
  - Pode dizer-me quem lhe confidenciou esse por-
menor da vida familiar?
  - Bem... foi Mrs. Ackroyd... casualmente...
  - E tambm lhe falou no testamento? Mis-
ter Hammond est a par das disposies testament-
rias de Mister Ackroyd?
  - Certamente. Foi esse o motivo que aqui me
  trouxe.
  - Nesse caso, dada a misso que Miss Ackroyd
  me confiou, poder pr-me ao corrente do contedo
  testamentrio?
  - No vejo qualquer inconveniente - respondeu
o advogado -, visto no ser secreto. As disposies
so muito simples. Depois de pagos certos legados...
  - Tais como? - precisou Poirot.

  A relutncia em falar que Hammond manifestava
  era contrria  sua aparente afabilidade.
  - Bem... pequenas coisas: mil libras para a gover-
  nanta, Mistress Russell; cinquenta libras para a cozi-
  nheira, Ema Cooper; quinhentas libras para o secret-
  rio, Mister Godofred Raymond. Depois, vrios donati-
  vos a hospitais...
  Poirot ergueu uma mo e declarou:
' - J chega. No estou interessado nos actos de
  beneficncia colectivos a instituies distantes. Que h
  quanto  herana, propriamente dita?
  - Mistress Ackroyd ficar com o usufruto de dez
  mil libras, em aces, enquanto for viva. Miss Flora
  Ackroyd herda vinte mil libras em dinheiro. Agora,



  todo o remanescente, incluindo a propriedade e as ac-
  es da firma c Ackroyd & Filho  , foi deixado ao so-
  brinho e filho adoptivo: Rudolph Paton.
  - Mister Ackroyd possua, realmente, uma gran-
  de fortuna?
  - Vastssima! O capito Paton tem na verdade
  motivo para sentir-se feliz, pois ficar extraordinaria-
  mente rico.
  O sequente momento de silncio foi interrompido
  por Mrs. Ackroyd que elevava a voz, chamando:
  - Mister Hammond!
  Enquanto o advogado se aproximava da viva, Poi-
  rot apontou para as flores e elogiou:
  - Que cor magnfica! - e baixando a voz inqui-
  riu: - E verdade, doutor, que est disposto a auxiliar-
  -me nas minhas investigaes?
  - Nada me agradaria mais - respondi, procuran-
  do no denunciar excessivo entusiasmo. - Sempre al-
  tera favoravelmente a monotonia desta minha vida de
  mdico de aldeia.
  - Nesse caso, seremos colegas. Estou certo de que,
  dentro de instantes, o major Blunt se acercar de
  ns, visto ter-me j apercebido de que a companhia da
  mam Ackroyd no  muito do seu agrado. Desejo sa-
94 g5







ber uma coisa, mas no quero manifestar-lhe directa-
mente o meu interesse. Seria o meu amigo capaz de
insinuar o nome de Mistress Ferrars, na vossa conver-
sa? Depois, desbravaria o terreno para algumas outras
perguntas.
  - Que devo indagar? - perguntei, ligeiramente
apreensivo.
  - Se ele estava c, em King's Abbot, quando
morreu o marido dessa senhora. Observe-o bem,
quando ele lhe responder. A sua reaco interessa-me
particularmente.
  No teve tempo para acrescentar nova recomenda-
o, pois Blunt j batia em retirada, na nossa direco.
  Propus ao major irmos tomar um pouco de ar fres-
co e encaminhmo-nos para o terrao, enquanto Poirot
se fora postar junto  janela aberta que lhe ficava so-
branceira.
  Inclinei-me para cheirar uma rosa serdia e depois
  comentei:
  - Quantas mudanas em to pouco tempo! Ainda
  na quarta-feira passada, quando passeava neste mesmo
  terrao, estava Ackroyd cheio de vida. Agora, trs dias
  depois, tudo se alterou. Morreu tambm Mistress Fer-
  rars! O major conhecia-a?. . Certamente que sim.
  Blunt confirmou com um aceno de cabea.
  - Teve tambm ocasio de v-la, aps este seu re-
gresso de frica?
  - Fui visit-la, com Roger Ackroyd, na tera-feira
passada. Que mulher fascinante. Era um ser misterio-
so e ningum seria capaz de adivinhar o que realmente
estava a pensar quando se nos dirigia. Era uma belda-
  de esfngica.
  - J a conhecia h muito tempo? - indaguei.
  - Travei conhecimento com ela e com o marido,
  quando vieram instalar-se neste lugarejo, o que coinci-
  diu com a minha ltima estada aqui. Mas Mistress
  Ferrars mudou muito, de ento para c!
  - Em que sentido? - sondei.

  - Dir-se-ia que envelheceu dez anos, nesse curto
perodo.
  - O major estava c, por acaso, quando Mis-
ter Ferrars morreu? - inquiri, procurando tornar a
pergunta o mais natural possvel.
  - No, mas, pelo que ouvi dizer, essa morte foi
como que uma verdadeira libertao para Mistress Fer-
rars.
  - Tem razo, major. Arthur Ferrars no seria
uma prola de marido - critiquei.
  - Um verdadeiro canalha - catalogou Blunt.-
A sua morte foi um alvio para a pobre Mistress Fer-
rars.
  - O mal de Arthur Ferrars, segundo creio - ar-
gumentei -, era possuir demasiado dinheiro.
  - Talvez. Todos os males do mundo provm do
dinheiro; derivam da nsia pela sua obteno, ou
da sua falta.
  - O que no  o seu caso, major - comentei, ten-
tando no parecer indiscreto.
  - Tenho o indispensvel para as minhas necessi-
dades. Recebi uma herana, no ano passado, e perdi-
-a, estupidamente, numa desastrosa operao de bolsa.
  Manifestei-lhe o meu pesar e contei-lhe as minhas
desditas no mesmo campo de especulao com aces.
  Nesse momento, ouvimos tocar o gongo e avan-
mos para a sala de almoo. Pegando-me levemente por
um cotovelo, Poirot chamou-me  parte.
  - Ento? - perguntou.
  - Parece-me um homem irrepreensvel - classifi-
quei.
  - Nada de suspeito?
  - Recebeu uma herana no ano passado. Desbara-
tou-a na bolsa, mas tem com que viver desafogada-
mente.
  Entrmos na sala das refeies e pareceu-me ina-
creditvel que tivessem j decorrido menos de vinte e
quatro horas desde a ltima vez que me sentara quela


96







mesa, to mudados se achavam os semblantes. Uma
herana opera milagres, e a ansiedade coberta de des-
gosto dera lugar a uma quase euforia coberta de ansie-
dade.
  Depois do jantar, Mrs. Ackroyd levou-me para um
canto da sala e fez-me sentar a seu lado, num sof.
  - No posso deixar de sentir-me um pouco ofen-
dida - murmurou manejando um minsculo lencinho
de renda que me no pareceu adequado para limpar as
lgrimas, a menos que simuladas. - Ofendida, sim,
pela falta de confiana que Roger demonstrou. Aque-
las vinte mil libras dever-me-ia ter deixado, a mim, e
no a Flora. Deve-se ter confiana na me para velar
pelos interesses da filha... Foi uma verdadeira falta de
confiana.
  - No se esquea, Mistress Ackroyd, de que Flo-
ra  sobrinha consangunea de Mister Ackroyd. Ela 
uma parenta directa. O caso poderia ser interpretado
diferentemente, se Mistress Ackroyd fosse irm e no
apenas cunhada do meu falecido amigo.
  - Na qualidade de viva do meu pobre Camile,
  acho que Roger devia ter tido um pouco de mais con-
  siderao por mim, mas foi sempre extremamente ava-
  ro. Pode crer, doutor, que Flora e eu chegmos a pas-
sar por situaes bem crticas, dentro desta casa,
embora houvesse a aparncia exterior de que nadva-
mos em opulncia. Roger no dava nem um cntimo 
pobre pequena, para as coisas dela. Nem se percebe
como nos fez a afronta de deixar todo aquele dinhei-
ro... mil libras, imagine... quela mulher!
  - Que mulher?
  - Essa Russell. H qualquer coisa de equvoco
nesse seu comportamento e tambm na maneira como
Roger se lhe referia, elogiando-lhe despropositada-
mente a rectido, esprito de independncia e coisas
  desta natureza. No me importaria que Roger casasse
  com ela, mas francamente... no o aprovaria. Sei que
  sempre me odiou, essa Russell, mas compreendo-a!

  Como Hammond se acercasse para despedir-se,
aproveitei a oportunidade para levantar-me.
  - E quanto ao inqurito, Mistress Ackroyd - in-
quiriu -, onde quer que se realize?... Aqui, ou nos
Trs Javalis?
  - O inqurito? - repetiu ela, perturbada. - Mas
torna-se necessrio uma investigao policial?
  O advogado tossiu e esclareceu:
  - Dadas as circunstncias de morte por causa vio-
lenta, Mistress Ackroyd, a lei determina que a inquiri-
o do Coroner seja feita na presena de um jri.
  - Mas, Mister Hammond - protestou ela -, co-
mo meu advogado, pode certamente evitar a minha
presena nessa enfadonha reunio e... que saberia eu
responder, se julgo ter-se tratado de um acidente in-
feliz?
  - Tentarei evitar-lhe os possveis incmodos. Tal-
vez Mister Raymond, como secretrio particular da v-
tima, possa evitar a sua presena, fornecendo as pro-
vas necessrias para identificao dos despojos.
  Como o rosto de Mrs. Ackroyd continuasse a ma-
nifestar viva preocupao, Hammond sondou:
  - Quanto a dinheiro, tem o imprescindvel para
as despesas da casa? Se, neste momento, Mistress
Ackroyd, carece de qualquer quantia, poderei provi-
denciar no sentido de...
  - Parece que h dinheiro em casa - interveio
Raymond que se aproximara ao ouvir proferir o seu
nome. - Mister Roger Ackroyd levantou, ontem de
manh, cem libras do banco.
  - Cem libras?
  - Sim, para o pagamento dos salrios e outras
despesas previstas para hoje. A quantia deve, portan-
to, estar intacta.
  - Onde est o dinheiro? No escritrio?
  - No. Mister Ackroyd costumava guard-lo no
quarto, dentro de uma velha caixa de colarinhos. Ideia
deveras curiosa, no lhe parece?

98 99







  Em vez de responder, o advogado sugeriu:
  - Talvez fosse conveniente certificarmo-nos da
existncia dessa quantia.
  - Acompanho-o ao quarto - ofereceu-se Ray-
mond -, mas... lembro-me agora de que a porta est
fechada  chave.
  Parker informou-nos de que o inspector Raglan es-
tava nos aposentos de servio a interrogar a criadagem.
Momentos depois, Raglan juntou-se-nos e subimos as
escadas. Tudo ficara como na noite anterior, no quarto
de Roger fechado pela polcia. O inspector ergueu os
estores para entrar luz e Raymond dirigiu-se para a ga-
veta superior de uma cmoda de madeira-rosa.
  - Guardava o dinheiro, numa gaveta sem chave?-
admirou-se Raglan.
  Corando, Raymond respondeu:
  - Mister Ackroyd tinha a mxima confiana em
todos quantos trabalhavam com ele.
  Pegou numa caixa circular, de coiro, para colari-
nhos engomados, levantou a tampa e retirou uma bolsa.
  - Aqui est - anunciou o jovem, apresentando
um grosso rolo de notas. A quantia tem de estar intac-
ta, visto que Mister Ackroyd no chegou a tocar-lhe,
depois de ter arrumado o dinheiro.
  O advogado comeou a contar o dinheiro e excla-
mou:
  - Mas... aqui s esto sessenta libras!
  Raymond tirou-lhe o dinheiro das mos e contou-
-o, por sua vez.
  - No percebo - confessou Raymond, no s es-
pantado, como preocupado.
  Poirot adiantou-se e perguntou-lhe:
  - Viu Mister Ackroyd guardar a esse dinheiro?
  - Pois vi, enquanto se vestia, ontem  noite, para
  o jantar.
  - Tem a certeza de que no o teria levado, nessa
  altura, para fazer qualquer pagamento?
  - Tenho a certeza, pois ele prprio me declarou

textualmente:   No quero levar cem libras comigo,
pois fazem um grande volume na algibeira.  
  - Nesse caso, deve ter tirado quarenta libras do
mao, ou ento foram-lhe roubadas - concluiu Ra-
glan.
  - Qual das criadas esteve ontem aqui, Mistress
Ackroyd? - inquiriu Poirot.
  - No sei - respondeu esta -, mas deve ter sido
a criada de quarto.
  - Tem confiana nela?
  -  uma excelente rapariga do campo.
  - E os outros servidores so honestos?
  - Creio que sim, nunca faltou nada.
  - H algum, entre o pessoal de servio, que te-
nha manifestado desejo de despedir-se e esteja para
deixar a villa?
  - Bem... esta criada de quarto vai sair. Despediu-
-se ontem, segundo creio.
  - Foi a si, Mistress Ackroyd, que a rapariga ma-
nifestou essa inteno?
  - A mim! - espantou-se ela, quase indignada.-
De maneira nenhuma. Isso so assuntos da alada de
Mrs. Russell. Eu nada tenho a ver com a criadagem.
Mas ser assim to importante, essa investigao?
  - Poder estar relacionada com o crime, Mistress
Ackroyd - justificou o inspector. - , pois, conve-
niente interrogar Mistress Russell e essa moa.
  Poirot e eu acompanhmos Raglan ao quarto da
governanta.
  Mrs. Russell recebeu-nos com a sua costumada
frieza e informou-nos de que Elsa Dale estava na villa
Fernly havia seis meses, tecendo-lhe os maiores elo-
gios, recusando-se a admitir a hiptese de que a jovem
se tivesse apoderado fosse do que fosse.
  - Sabe, porventura, Mistress Russell, por que ra-
zo Elsa se vai embora?
  - No sei nada a esse respeito. Devem referir-se a
Ursula Bourne que foi despedida.

100 101







  - Por que motivo?
  - Tambm no sei. Julga-se que, ao limpar a se-
cretria de Mister Ackroyd, lhe teria desarrumado al-
guns papis e que, furioso com isso, o patro a des-
pediu.
  Eu j tivera ocasio de observar essa empregada,
alta, de cabelos castanhos que lhe caam para os om-
bros, linda de rosto e de formas esculturais. Era real-
mente uma estampa e Mrs. Russell reconhecia-lhe as
melhores qualidades, tanto como pessoa, como no de-
sempenho das suas obrigaes profissionais.
  Fomos, atrs de Raglan, falar  rapariga.
  -  Ursula Bourne? - perguntou o inspector.
  - Sim, senhor.
  - Disseram-me que foi despedida. Por que razo
Mister Ackroyd tomou essa deciso?
  - O meu patro enfureceu-se por eu ter alterado,
involuntariamente, a ordem de alguns papis que ti-
nha sobre a secretria, ao fazer-lhe a limpeza habitual.
Disse-me que deixasse o servio, o mais breve pos-
svel.
  - No esteve, por acaso, no quarto de dormir de
Mister Ackroyd?
  - No, senhor. Esse servio pertence a Elsa.
  - Devo inform-la, Ursula - insistiu o inspector

-, de que do quarto do seu patro desapareceu uma
importante soma, em dinheiro.
  Pela primeira vez, vi-a perturbar-se.

  - Nada sei acerca desse dinheiro e, se pensa que
isso foi a causa do meu despedimento, senhor, afirmo-
-lhe que est plenamente enganado - respondeu a jo-
vem, numa atitude e linguagem que nos deixou assom-
brados.
  - No estou a acus-la - quase se desculpou Ra-
glan. - No se inquiete, miss.
  - Se o desejar - desafiou ela, brandamente -,
pode revistar o meu quarto e todos os meus haveres.

  - Foi na tarde de ontem, Miss Ursula - interveio
  Poirot -, que se verificou o seu despedimento?

  - Sim, senhor.
  - E quanto tempo durou essa conversa?
  - Que conversa?
  - A que Mister Ackroyd manteve consigo e o le-
vou a despedi-la?
  - No sei.
  - Vinte minutos? Meia hora?
  - Sim, aproximadamente.
  - Mais de meia hora?
  - No tanto, decerto - respondeu a jovem.
  - Obrigado, Miss Ursula - despediu-a Poirot.
  Notei que os olhos do detective belga brilhavam de
satisfao, enquanto ordenava simetricamente alguns
objectos sobre a mesa do quarto.
  Entretanto, Raglan tornara a interrogar Mrs. Rus-
sell:
  - Tem referncias acerca dessa empregada?
  Sem responder, a governanta tirou da gaveta de
uma cmoda, um mao de cartas. Escolheu uma e en-
tregou-a ao inspector.
  - Hum! - fez este com o queixo atirado para a
frente. - Excelentes referncias de Mistress Ada Fol-
liot, da villa Marby. Quem so estas pessoas?
  - Proprietrios rurais... gente educada - respon-
deu Mrs. Russell.
  - Vejamos agora Elsa Dale - prosseguiu o ins-
pector. - Desejo falar com ela.
  Era uma moa loira, um pouco apatetada, que se
mostrou francammente aflita com o desaparecimento
do dinheiro. Depois de ter respondido a todas as per-
guntas foi-se embora e Raglan perguntou:
  - Considera-a, suspeita, Mistress Russell?
  - De uma coisa dessas... no.
  Contudo, torceu o nariz, como indicando que po-
deria haver qualquer motivo estranho ao dinheiro que
motivara uma certa reserva da governanta a respeito
da criada, embora momentos antes lhe tivesse feito os
maiores elogios.

102 103







  Havia algo de duvidoso que permanecia no ar, sem
materializar-se.
  - E quanto a Parker? - continuou Raglan.
  Desta vez, o nariz de Mrs. Russell franziu-se fran-
camente, mas no respondeu.
  Finalmente samos depois de a governanta nos ter
cumprimentado com extrema secura. Pensei que Par-
ker cortejasse Elsa e isso desagradasse a Mrs. Russell.
Entretanto, Raglan meditava em voz alta:
  - Acho algo de suspeito em Parker, mas no vejo
quando teria ocasio de vir at c acima. Esteve cons-
tantemente ocupado, depois do jantar, e apresentou
um libi indestrutvel para toda a noite. Deixemos este
assunto como est, por enquanto, j que  admissvel
que Mister Ackroyd tenha feito qualquer pagamento
que ignoramos.
  Deixei a villa Fernly, na companhia de Poirot.
  De sbito, observei:
  - Quem sabe o que representariam aqueles pa-
pis, para Mister Ackroyd? Porque teria ficado to fu-
rioso? Pensaria que Ursula os lera ao arrumar a secre-
tria? No estar, nesse despedimento, qualquer
indcio para a soluo do mistrio?
  - O secretrio disse no haver papis importantes
sobre a secretria - lembrou o detective.
  - Sim, mas...
  - Que lhe parece a moa?
  - Quem? Ursula Bourne? - precisei.
  - Sim. Um criada demasiado bem educada, falan-
do correctamente ingls e com um fsico que bem po-
deria lev-la a bailarina...
  - Parece-me boa pequena - respondi.
  Poirot tirou um papel da algibeira e estendeu-mo.
  - Repare - convidou.
  Era a nota que Raglan lhe entregara nessa manh
e, em frente do nome Ursula Bourne, destacava-se
uma cruz feita a lpis.
  -  a nica criada - explicou o detective -, cujo
libi no foi confirmado.

  - Mas no vejo motivo para que tenha assassinado
Ackroyd - observei.
  Franzindo as sobrancelhas, Poirot pensou em voz
alta:
  - Se o chantagista era um homem, claro est que
no poderia ser ela, mas...
  Sufoquei um ataque de tosse e admiti:
  - Realmente, Ackroyd e eu, partimos do princ-
pio que o chantagista seria um homem. Contudo...,
Mistress Ferrars, na sua carta, apenas se referia a
  uma pessoa  .
  Poirot j no parecia escutar-me.
  -  possvel - murmurava ele -,  muito poss-
vel, mas, nesse caso... Mtodo! Tenho de pr as ideias
em ordem. Onde fica Marby?
  - A cerca de vinte e dois quilmetros, do lado
oposto de Cranchester.
  - Vamos l amanh, sim?
  - Amanh  domingo - lembrei. - Para fazer
o qu?
  - Quero que fale com Mistress Folliot acerca de
Ursula Bourne.
  - Est bem - anu -, mas desde j lhe digo que
essa misso no me agrada muito.
  - So ossos do ofcio, mas no se esquea que
desta visita pode resultar a salvao de um homem.
  - Pobre Rudolph! - lamentei. - Ainda pensa
que esteja inocente?
  Com ar grave, Poirot declarou:
  - Tudo concorre para indigit-lo como verdadeiro
culpado. As permissas acusatrias acumulam-se com
tal preciso que chego a consider-las demasiado bem
coordenadas. E aquele imbecil tem todas as circuns-
tncias a seu favor.
  - Imbecil? Quem? - admirei-me.
  - O inspector. No h dvida que os indcios
apontam para Rudolp Paton, mas, meu amigo, eu pro-
curo a verdade... Pode estar certo de que nada deixa-
104 105







rei escapar, como prometi a Miss Flora. E ela tem a
certeza, ela sabe...



CAPTULO XI

UMA VISITA DE POIROT


  Sentia-me embaraado quando, na manh seguin-
te, toquei  campainha da porta da villa Marby. Que
pretenderia Poirot descobrir com aquela diligncia?
  Fui recebido por uma graciosa criadita que me in-
troduziu numa ampla sala. Enquanto contemplava
uma gravura de Bartolozzi, suspensa da parede,
Mrs. Folliot apareceu na entrada. Era uma mulher al-
ta, formosa, de sorriso atraente, cabelo castanho e
solto.
  - Doutor Sheppard? - inquiriu com certa hesi-
tao.
  - Precisamente, minha senhora. Sinto vir incomo-
d-la. Desejaria apenas obter algumas informaes
acerca de uma criada que teve ao seu servio: Ursula
Bourne.
  Bastou que tivesse pronunciado o nome para que o
sorriso se lhe desvanecesse dos lbios. Com ele extin-
guira-se a cordialidade com que me prendara no pri-
meiro momento. Percebi que no se sentia  vontade,
quando repetiu:
  - Ursula Bourne?
  - Talvez no se recorde j do nome... - sugeri.
  - Lembro-me perfeitamente - respondeu contra-
riada.
  - Segundo me informaram, deixou esta casa h
pouco mais de um ano.
  - Precisamente.
  - Era uma pessoa competente?... Quanto tempo
esteve ao seu servio, minha senhora?

  - Um ano ou dois..., no me lembro exactamen-
te. Era uma moa muito activa. Estou certa de que lhe
agradar o seu servio... Mas no fazia a mnima ideia
de que estava para sair da villa Fernly.
  No podia explicar que no desejava contrat-la,
mas tinha de prosseguir:
  - Desejava informaes mais pormenorizadas a
seu respeito.
  - De que natureza?
  - De onde  natural, de que famlia provm, etc.
  A expresso de Mrs. Folliot tornou-se quase hostil.
  - Nada sei - replicou secamente.
  - Que fazia antes de vir trabalhar para sua casa?
  - No me lembro.
  Ergueu subitamente a cabea, num jeito que devia
ser-lhe familiar.
  - Precisa de fazer-me todas essas perguntas?-
indagou.
  Mostrei surpresa e inteno de desculpar-me.
  - No supunha que lhe desagradasse responder-
-me, Mistress Folliot. Sinto imenso...
  A sua hostilidade pareceu atenuar-se.
  - Nada me custa responder-lhe, doutor. Apenas o
seu questionrio me pareceu um pouco... estranho.
Nada mais.
  A minha experincia de mdico e de lidar com
gente de todos os tipos e educaes indicava-me que
aquela mulher tinha verdadeira relutncia em falar de
Ursula Bourne. Compreendi, portanto, que no seria
por seu intermdio que conseguiria obter mais infor-
maes sobre a bela criada. Renovando as minhas des-
culpas, peguei no chapu e sa.
  Fui ver uns doentes e, por volta das seis horas, re-
gressei a casa. Encontrei Caroline sentada  mesa onde
havia duas chvenas com restos de ch. No seu rosto
discerni uma expresso de satisfao contida, sinal in-
confundvel de que tivera uma nova notcia e estava
prestes a difundi-la, se o no fizera j algures.

106 107







  - Esta tarde foi interessantssima - prologou.
  Enquanto me sentava na poltrona, junto do fogo
de sala e estendia as pernas, tentei adivinhar:
  - Esteve c Miss Ganett?
  - Reprovado! - motejou, satisfeita.
  Procurei adivinhar, citando nomes aps nomes,
mas minha irm acolhia cada sugesto com triunfante
negativa.
  Por fim, decidiu-se a desvendar.
  - Mister Hercule Poirot. Que te parece?
  Parecia-me muita coisa, mas tentei no o dar a per-
ceber.
  - De que falaram? - sondei.
  - De si prprio e das suas aventuras. J ouviste
falar no prncipe Paulo da Mauritnia, que, h pouco
tempo, se casou com uma bailarina?
  - Sim, e ento?
  - Li h dias, no Bisbilhoteiro, um artigo que fala-
va a respeito da noiva. Insinuava... tratar-se de uma
gr-duquesa russa, filha do czar, que conseguira fugir
a esses assassinos bolchevistas. Parece que Mister Poi-
rot conseguiu aclarar o mistrio de um certo crime que
ameaava envolver a segurana do casal. O prncipe
Paulo ficou muito grato...
  - E fez-lhe presente de um alfinete de gravata,
com uma esmeralda do tamanho de um ovo de aves-
truz, no? - motejei.
  - No falou nisso. Porqu?
  - Porque  o costume, nos romances policiais de
  superdetectives  . . .
  - Fiquei encantada por ouvi-lo dissertar sobre o
crime e a sua deteco, nos mais ntimos pormenores
- cortou Caroline, entusiasmada.
  No pude deixar de admirar a sagacidade de Poi-
rot, procurando impressionar uma solteirona de pro-
vncia cujo maior prazer  a tagarelice.
  - Disse-te que a bailarina era, realmente, uma
gr-duquesa?

  - Sim, mas pediu-me sigilo. No estou autorizada
a falar.
  - E, depois de todas essas confidncias, fez-te ou-
tras perguntas?
  - Como s desconfiado, Jacques! s um orgulho-
so incurvel e, ainda por cima, resmungo.
  - Falaram do assassinato de Roger Ackroyd?
  - De que outra coisa iramos falar? Tentei tirar-
-lhe nabos da pcara, como  natural, e consegui cor-
rigir-lhe certas dedues, aclarando vrios pontos e ele
mostrou-se-me muito reconhecido. Disse-me que te-
nho todas as caractersticas do detective nato e uma
maravilhosa penetrao na natureza humana.
  Parecia uma gata lambuzada de leite-creme.
  - E fez-te perguntas?
  - No. Falou-me das celulazinhas da massa cin-
zenta cerebral e confidenciou-me que as dele eram de
primeira qualidade.
  - J era de esperar. A modstia no  o seu forte.
  - Depois declarou que seria de mxima importn-
cia descobrir o paradeiro de Rudolph Paton e conven-
c-lo a aparecer.
  - Que lhe disseste a esse respeito? - inquiri.
  - Contei-lhe o que se murmura por a.
  - Falaste-lhe da conversa que escutaste na flores-
ta? - perguntei subitamente.
  - Decerto e at fiquei espantada por tu no lhe
teres revelado isso.
  - Quis proteger Rudolph. Sou seu amigo...
  - Tambm eu e  por esse motivo que no acredi-
to que seja o criminoso. Concordo com Mister Poirot
na necessidade de faz-lo aparecer, para que se esclare-
a a verdade. Se pensares como eu, Jacques, concorda-
rs que provavelmente, na noite do crime, Rudolph
veio encontrar-se com aquela pequena. Isso dava-lhe
um libi irrefutvel.
  - Se pode provar isso, porque no aparece a de-
clar-lo?

108 109







  - Para no comprometer a moa - respondeu-me
Caroline, exultante.
  - Ests continuamente a ler romances e criaste
um novo enredo - critiquei. Momentos depois insisti:
- E no te fez outras perguntas?
  - No, a no ser a respeito dos teus doentes.
  - Que doentes? - inquiri, incredulamente.
  - Dos que vieram ao teu consultrio. Quis apenas
saber se trabalhaste muito e quantos eram.
  - Conseguiste dizer-lho?
  - Certamente. Desta janela vejo perfeitamente a
ruazinha de acesso ao consultrio e bem sabes que te-
nho uma excelente memria.
  - No duvido - respondi mecanicamente, saben-
do-a uma prodigiosa coscuvilheira.
  - Nessa tarde - prosseguiu Caroline, contando
pelos dedos -, visitaram-te a velha Mistress Bennett,
o rapaz da feitoria e Dorothy Grice, para lhe tirares
uma agulha do dedo; depois, aquele criado americano
do transatlntico e o velho George Evans, por causa do
tumor... e por ltimo...
  Minha irm fez uma pausa significativa.
  - Ento? - desafei.
  - Mistress Russell! - exclamou, numa apoteose.
  - Que h de estranho nisso - repliquei -, para
fazeres tanto teatro? Veio tratar do joelho.
  - Ora, ora, Jacques! Sofre tanto disso como eu!
Era outra coisa que a interessava.
  - Que coisa?
  - Isso  o que Mister Poirot desejava saber. Diz
que h algo de equvoco naquela mulher.
  - Tem graa que Mistress Ackroyd fez-me idnti-
ca observao.
  - Mistress Ackroyd! - exclamou Caroline.-
Essa tambm  c boa  , deixa estar!
  -   Boa  , porqu?
  Mas Caroline recusou-se a alongar as suas explica-
es. Arrumou o tric e subiu para vestir o casaquinho

de seda lils e colocar ao pescoo o medalho de oiro
que para ela constituem a sua toilette para jantar.
  Pensei se Poirot teria vindo realmente investigar
acerca da visita de Mrs. Russell, ou se tudo se delinea-
ra na imaginao fecunda de minha irm.
  Lembrei-me da insistncia da governanta acerca de
estupefacientes, antes de desviar a conversa para enve-
nenamentos... Mas Roger Ackroyd no fora envene-
nado...
  Ouvi a voz de Caroline, num tom um pouco spe-
ro, chamar-me do alto da escada.
  - Vais atrasar-te para o jantar, Jacques - cen-
surou.
  Coloquei mais carvo no fogo e subi docilmente a
escada.
  A paz em famlia exige certos sacrifcios.


CAPTULO XII

UMA REUNIO NTIMA


  Na segunda-feira seguinte, realizou-se o inqurito
pblico.
   intil descrever os pormenores. De acordo com a
polcia ficou decidido no haver divulgao das inves-
tigaes. Fiz o meu depoimento acerca da morte de
Roger Ackroyd e estabeleci a hora provvel da morte.
O mdico legista referiu-se  ausncia de Rudolph,
sem contudo insistir muito no caso.
  A seguir, Poirot e eu trocmos algumas palavras
com Raglan que se mostrava preocupado.
  - Est tudo embrulhado, Mister Poirot - quei-
xou-se ele. - Esforo-me por julgar o caso com a
maior imparcialidade. Sou daqui e vi frequentemente
o capito Paton em Cranchester. No quero afirmar

110 111







que seja ele o assassino, mas o facto  que todos os in-
dcios convergem para incrimin-lo. Se ao menos apa-
recesse, para destruir as provas que contra ele se acu-
mulam...
  No confessou que os sinais de Rudolph tinham si-
do transmitidos a todos os postos da polcia e, com tal
rede de vigilncia, parecia impossvel que conseguisse
escapar-lhes.
  - Ningum o viu naquela noite, na estao-
prosseguiu Raglan -, e de Liverpool tambm no
veio qualquer notcia positiva.
  - Pensou que estivesse em Liverpool? - pergun-
tou Poirot.
  - Era admissvel, j que o telefonema da estao
se verificou precisamente trs minutos antes da partida
do directo para Liverpool.
  - A no ser que o tenha feito para confundir a in-
vestigao - admiti.
  - Uma coisa  certa - sentenciou o detective.-
Quando descobrirmos o autor do telefonema, desven-
dmos a identidade do assassino.
  - J o ouvimos dizer isso - lembrei.
  O belga confirmou com um aceno de cabea.
  - Creio que lhe d excessiva importncia - ob-
jectou Raglan. - Temos melhores indcios do que
esse, como, por exemplo, as impresses digitais no pu-
nhal.
  Poirot pareceu alhear-se do problema, mas retor-
quiu:
  - No se meta nisso, meu amigo. Essas impres-
ses podem conduzi-lo a um resultado negativo.
  - Porqu? No me consta que possam ser falsifi-
cadas!
  Poirot limitou-se a encolher os ombros.
  - Recolhi todas as impresses digitais das pessoas
da villa Fernly, desde Mistress Ackroyd at  criada
que lava os pratos e nenhumas coincidem com as do
punhal. Portanto, restam duas hipteses: ou so de

Rudolph Paton, ou de um desconhecido. Esse tal fo-
rasteiro de que o doutor nos falou. Quando tivermos
caado os dois...
  - J se perdeu um tempo precioso - respondeu o
belga. - E no se ter esquecido de ningum?
  - No me esqueci de ningum - afirmou o ins-
pector peremptoriamente.
  - Nem vivo, nem morto?
  - Refere-se a...?
  - Ao prprio Roger Ackroyd - insinuou Poirot.
  - No vai decerto apresentar a hiptese imposs-
vel de suicdio.
  - No, mas o assassino, depois de limpar a arma,
pode ter-lhe impresso os dedos do morto. De resto, 
fcil de verificar. O cadver ainda no foi sepultado.
  - Mas para qu? - protestou Raglan, calando-se
em seguida por compreender a ingenuidade da per-
gunta.
  - Para complicar ainda mais as investigaes-
disse Poirot, benevolamente. - De resto, note que as
impresses no cabo da arma mostram que quem a em-
punhou f-lo como quem pega num talher e no como
quem pretende crav-la nas costas de um homem.
Tendo de enfiar a lmina naquela posio, nunca po-
deria ter segurado a arma como as impresses o su-
gerem.
  Raglan fitou espantado o homenzinho que, na sua
frente, sacudia, tranquilo, um gro de p invisvel da
manga do casaco.
  - Parece uma boa ideia e vou ocupar-me desse
ponto de vista, mas no se admire, Mister Poirot, de
que se verifique mais um impasse..., e que aquelas
impresses sejam de outra pessoa.
  Poirot sorriu e, quando Raglan se afastou, disse-me.
  - Para a prxima vez terei de ser mais cuidadoso
e no ferir o seu amor-prprio. Agora, caro doutor,
que me diz a uma pequena c reunio ntima  ?

A reunio efectuou-se meia hora mais tarde na sala

112 113







de jantar da villa Fernly. Sentmo-nos em volta da
mesa e Poirot ocupou a cabeceira. ramos seis:
Mrs. Ackroyd, Miss Flora, o major Blunt, o jovem
Raymond, Poirot e eu. Os criados no estavam pre-
sentes.
  - Reunimo-nos aqui - comeou o belga -, por
um motivo cuja importncia veremos muito em breve.
Para j tenho de fazer um pedido a Miss Ackroyd.
  - A mim? - admirou-se Flora.
  - Est noiva do capito Rudolph Paton - conti-
nuou Poirot. - Se sabe onde ele se encontra, deve de-
clar-lo, pois a sua situao torna-se, de dia para dia,
mais perigosa para a sua segurana. Se sabe onde ele
pra, convena-o a aparecer. Caso contrrio, ser de-
masiado tarde.
  O rosto de Flora tornou-se extremamente plido.
  - Juro-lhe solenemente, Mister Poirot, que igno-
  ro o seu paradeiro - respondeu com voz flrme.

  - Est bem - disse o belga. - Agora dirijo um
  apelo a todos os circunstantes: se so amigos do capi-
  to Paton e sabem onde se esconde, tm de mo dizer.

  Seguiu-se um prolongado silncio que foi quebrado
  por Mrs. Ackroyd.
  - Acho realmente muito estranho o desapareci-
  mento de Rudolph. Felizmente que o noivado de Flo-
ra no chegou a ser anunciado. No o julgo culpado,
mas esta situao atrairia uma publicidade terrvel pa-
  ra o nosso nome. Ele teve uma mocidade muito irre-
  gular e... francamente no sei...

  - Mam! - protestou Flora, indignada. - No
  ests a acusar Rudolph, certamente!
  - No, mas pergunto-me o que aconteceria  he-
  rana, se ele fosse considerado culpado. De qualquer
  maneira, apenas quero dizer que me sinto feliz por o
  noivado no ter sido anunciado publicamente.

  - Ser amanh - decidiu a jovem. - Mis-
  ter Raymond, far-me- o favor de enviar esse anncio
  para os jornais. Tal como esto as coisas, devo procu-
rar amparar Rudolph por todos os meios. No acha,
major Blunt, que  esse o meu dever?
  Depois de fix-la demoradamente, o major fez um
sinal de aprovao.
  Mrs. Ackroyd protestou ruidosamente, mas Flora
no se demoveu. Foi ento que Raymond se atreveu a
falar:
  - Aprecio as suas razes, Miss Flora, mas no lhe
parece que a deciso  um pouco precipitada? Porque
no espera mais um dia ou dois?
  - Amanh - teimou a jovem.
  - Mister Poirot - invocou Mrs. Ackroyd, em
tom choroso -, o senhor no interfere?
  - Nada h a interferir - disse Blunt. - O que
Miss Flora tenciona fazer  justo e estarei a seu lado,
acontea o que acontecer.
  - Obrigada, major Blunt - murmurou Flora.
  Finalmente Poirot decidiu-se a abrir a boca.
  - Permita-me, Miss Ackroyd, que a felicite pela
sua lealdade. Rogo-lhe agora, tanto pelo interesse de
Rudolph Paton, como pelo seu, que no levante obst-
culos  misso que me honrou confiar-me.
  Virou-se ento para todos os presentes e declarou:
  - Agora, senhoras e senhores, quero que com-
preendam que vou descobrir a verdade. J avancei
bastante na idade e no quero encerrar a minha carrei-
ra com um desaire. Apesar das resistncias que todos
vs me tm oposto, hei-de atingir o meu fim.
  - Que quer dizer com as resistncias que... - co-
meou Raymond a protestar.
  - Quero dizer que todos quantos aqui esto tm
qualquer coisa a esconder. Podem ser coisas banais,
sem importncia, que julgam alheias ao crime, mas
que podem constituir a chave do problema.  ou no
verdade que   cada um dos presentes tm algo a ocul-
tar-me  ?
  Lanou um olhar acusador em torno da mesa e ter-
minou:


114 115







  - Com o vosso silncio, todos me responderam.
- Levantou-se da mesa e repetiu. - Apelo novamen-
te para que me digam a verdade... Ningum quer fa-
lar?. . E pena!
  E dizendo isto, saiu.



CAPTULO XIII

A PENA DE PATO


  Naquela noite, depois do jantar, atendendo um
convite de Poirot, fui a sua casa. Caroline viu-me sair
com evidente mau humor, pois ter-me-ia seguido de
bom grado.
  O detective belga recebeu-me cordialmente, com
uma garrafa de usque irlands (que detesto) e enfren-
tando uma taa de chocolate que, como pude concluir
mais tarde,  a sua bebida preferida.

  Pediu-me notcias de minha irm que defmiu como
  pessoa interessantssima  .
  - Creio que o senhor a envaideceu demasiada-
mente, quando esteve em minha casa - censurei.
  Ele riu, franzindo os olhos.
  - Quando posso, agrada-me servir-me de pessoas
de observao aguda - confessou.
  - De qualquer modo - objectei -, recolheu um
molho de informaes verdadeiras de mistura com ou-
tras falsas, produto da imaginao e bisbilhotice local.

  - A virtude est em separar o trigo do joio. E ob-
  tive informaes preciosas.
  - Por exemplo? - desafiei.
  - Por que motivo no me disse a verdade? Num
lugarejo como este, todas as aventuras de Rudolph vi-
riam a ser conhecidas. Se, por acaso, naquele dia, sua
irm no tivesse passado pelo bosque, qualquer outra
pessoa poderia t-lo visto.

  - E possvel, mas no compreendo porque se in-
teressou tanto pelos meus pacientes?
  - Por um s, doutor! Um s!
  - O ltimo?
  - No posso negar que a visita de Mistress Rus-
sell me interessou muitssimo.
  - Concorda, portanto, com a minha irm, desco-
brindo nessa governanta um no sei qu de equvoco?
  -  possvel.
  - No tem o menor fundamento. A consulta de
Mistress Russell circunscreveu-se a matrias de medi-
cina. S minha irm lhe atribuiu outra motivao.
  - Meu caro amigo, as mulheres - generalizou
Poirot -, so uns seres maravilhosos. Inventam coi-
sas, ao acaso, mas muitas vezes tm razo. Notam pe-
quenos pormenores, num estado de subconscincia,
instintivamente, quase sem deles se aperceberem. De-
pois, juntam todos os factos recolhidos e chegam a
concluses surpreendentes. A isso do o nome de in-
tuio. No se esquea de que sou um psiclogo e sei
de que estou a falar.
  Bebeu um gole de chocolate e enxugou o bigode
cuidadosamente.
  - Gostaria que me dissesse francamente o que
pensa de todo este caso.
  - Mas o doutor viu tanto como eu. As suas ideias
devem ser idnticas s minhas.
  - No esteja a caoar comigo. No tenho prtica
de assuntos desta natureza.
  Poirot sorriu com indulgncia.
  - Pois bem, vou dar-lhe uma lio. Em primeiro
lugar,  necessrio formar uma ideia bem clara de tudo
quanto aconteceu naquela noite, tendo-se sempre pre-
sente que quem falou no nos disse a verdade.
  -  uma atitude muito suspeitosa - observei.
  - Mas imprescindvel, garanto-lhe. Por exemplo,
o doutor Sheppard declarou ter deixado a villa s nove
menos dez. Como poderei ter a certeza disso?

116 117







  - Porque eu lho disse.
  - Mas poderia dar-se o caso de o seu relgio estar
errado, ou o doutor, por qualquer motivo, no estar a
falar verdade. Contudo, se aceitarmos essa sua declara-
o como verdadeira, registmos que, s nove horas,
encontrou um indivduo desconhecido, precisamente
em frente do porto. Como poderei saber se  verda-
de? Poderia tratar-se de um personagem imaginrio,
para desviar a ateno dos indcios que incriminam
Rudolph Paton, ou outra qualquer pessoa que o dou-
tor quer proteger. Sei contudo que no se tratou de
um expediente, nem de uma alucinao, porque a
criada de uma tal Miss Ganett tambm foi abordada
por esse forasteiro, poucos minutos antes de o doutor
o encontrar. O homem pediu-lhe informaes sobre o
caminho a seguir para a villa Fernly e dessa maneira
a sua informao, doutor, foi confirmada. Duas con-
cluses se tiram desse facto: o indivduo no conhecia
a villa e no procurava ocultar a sua visita, visto que
se informou do caminho, junto de duas pessoas.
  - Compreendo.
  - Dei-me ao trabalho de investigar - prosseguiu
Poirot -, que o homem esteve a beber no Trs Javalis
e, a, a criada disse-me que ele falava com sotaque
americano e dizia ter chegado dos Estados Unidos.

  - Tambm tive essa impresso - declarei -,
mas a pronncia era pouco notria.

  - Precisamente. Agora, aqui tem um pequeno ob-
jecto que encontrei no quiosque.
  Ps-me diante dos olhos o tubo da pena de pato.
Olhei-o com viva curiosidade e, subitamente, lembrei-
  -me de uma coisa que lera acerca de cocana.
  Poirot fez um sinal de aprovao, quando lhe men-
  cionei o facto.
  - Exactamente. Os cocainmanos servem-se
  usualmente de uma pena de ave, para cheirarem coca-
  na. Essa maneira de aspirarem estupefacientes  muito
  comum nos Estados Unidos e no Canad. Bastou jun-
  tar dois e dois.

  - Mas como se lembrou de procurar no pavilho
rstico? - admirei-me.
  - Porque pensei que, se algum quisesse marcar
um encontro na villa Fernly, sem dar nas vistas, utili-
zaria aquele   quiosque  , como aqui lhe chamam.
  - E o pedao de cambraia?
  - Se quisesse usar a sua massa cinzenta, a explica-
o ser-lhe-ia evidente.
  - Continuo a no ver...
  - No tem importncia, por agora. O que interes-
sa  descobrir esse indivduo e com quem teria vindo
encontrar-se.
  - Est a pensar no facto de Mistress Ackroyd e
Flora terem vindo do Canad, para se instalarem aqui?
  - Tambm essa hiptese seria de considerar.
  - Por isso aludiu a que lhe ocultavam a verdade?
  - Talvez, mas prossigamos: que me diz  histria
da criada?
  - Que histria?
  - Do despedimento. Seria realmente necessria
meia hora para despedir uma criada? Acha verosmil a
justificao dos papis importantes desarrumados?
E note: embora a rapariga declare que esteve no seu
quarto, desde as nove at s dez horas, ningum con-
firmou essa sua assero.
  - O senhor deixa-me perplexo - confessei.
  Tirei do bolso uma folha de papel e declarei:
  - Muito bem. Como me disse ser sempre necess-
rio mtodo, alinhavei algumas notas, a fim de analisar-
mos os factos, sob um ponto de vista lgico.
  -  precisamente o que o meu amigo Hastings
costumava dizer - interrompeu Poirot -, mas infe-
lizmente nunca conseguia pr em prtica o seu prin-
cpio.
  Comecei a ler:

  uPrimeiro ponto - Mr. Ackroyd foi ouvido a falar
com algum, s nove e meia.

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  Segundo ponto - A certa hora indeterminada da
noite, Rudolph Paton deve ter penetrado pela janela, co-
mo ficou provado pelas marcas dos seus sapatos.
  Terceiro ponto - Naquela noite, Mr. Ackroyd esta-
va bastante inquieto e decidira s receber pessoas conhe-
cidas.
  Quarto ponto - A pessoa que se encontrava com ele,
s nove e meia, pedia dinheiro. Ora, sabemos que Ru-
dolph se encontrava com dificuldades financeiras.

  Estes quatro pontos concorrem para demonstrar que a
pessoa que se achava com Mr. Ackroyd, s nove e meia,
s podia ser Rudolph Paton. Contudo, por outro lado, sa-
be-se que Mr. Ackroyd ainda estava vivo s dez menos
um quarto. Desta maneira, conclui-se que no foi Ru-
dolph quem o matou. Este, ao sair, deixou a janela aber-
ta. Foi por essa via que o assassino penetrou na villa.  

  - Ento, quem foi o assassino? - inquiriu Poirot.
  - O americano. Podia estar de acordo com Parker
e talvez fosse o mordomo quem exercia chantagem so-
bre Mistress Ferrars. Sendo assim, deve ter percebido
que a extorso fora descoberta e precisou de avisar o
cmplice. Este, por sua vez, utilizou o punhal forneci-
do por Parker, para perpetrar o crime.
  - Eis uma reconstituio vlida - elogiou Poirot.
- V-se que o doutor tambm tem a sua parcela de
massa cinzenta. Comete, porm, o erro de desprezar
muitos elementos.
  - Quais, por exemplo?
  - O telefonema; a poltrona colocada fora do seu
lugar...
  - Acha esse elemento muito importante? - per-
guntei ligeiramente amuado.
  - Talvez no, mas h ainda o desaparecimento
das quarenta libras.
  - Roger pode ter reconsiderado e deve t-las dado
a Rudolph - sugeri.

  - O que ainda deixa um ponto obscuro.
  - Qual?
  - Por que motivo estava Blunt certo de que o se-
cretrio se encontrava com Ackroyd s nove e meia?
  - Ora, ele explicou isso - observei.
  - Parece-lhe? Bem, no quero, por agora, insistir
nesse ponto. Diga-me quais foram as razes que leva-
ram Rudolph a desaparecer?
  - Isso  difcil de explicar. Sob um ngulo cient-
fico, diria que o sistema nervoso de Rudolph sofrera
um sbito colapso. Ao saber que o tio fora assassina-
do, aps o seu dilogo com ele, tempestuoso, ficou im-
pressionado, tomado de pnico e fugiu. No seria o
primeiro a agir desse modo. Sei de muitos indivduos
inocentes que se comportaram como culpados, em cir-
cunstncias semelhantes.
  - Sim,  verdade - admitiu Poirot -, mas no
devemos esquecer um factor.
  - Bem sei: o motivo. Com a morte do tio, Ru-
dolph herda uma enorme fortuna.
  - Esse  um - concordou o detective.
  - Como, um?
  - Certamente. No se esquea de que estamos pe-
rante trs motivos diferentes. Algum subtraiu o so-
brescrito azul, com o nome do autor da chantagem.
 possvel que Rudolph fosse quem exercia a extorso
sobre Mistress Ferrars, j que, pelo que disse o advo-
gado Hammond, havia algum tempo que Rudolph no
recorria aos pedidos de dinheiro a Ackroyd. Isso leva-
-nos a deduzir que tinha outra fonte de angariao mo-
netria. E h ainda o facto de ele se encontrar num
sarilho que temia chegasse aos ouvidos do tio. Final-
mente, h o motivo de que j falmos.
  - Pobre rapaz - comentei, no sabendo como
dissimular a minha surpresa. - Tudo parece conspi-
rar contra ele!
  - Parece-lhe? - inquiriu Poirot. - Eis o ponto
em que no estamos de acordo. Trs motivos so real-
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mente muito, mas, mesmo assim, creio que Rudolph
Paton esteja inocente... Contra todas as aparncias.



CAPTULO XIV

MRS. ACKROYD


  Depois da conversa h pouco narrada, pareceu-me
que a questo poderia ser dividida em duas partes, ca-
da uma bem diversa da outra.
  A primeira desenrola-se desde a morte de Roger
Ackroyd, verificada na noite de sexta-feira, at  noite
de segunda-feira seguinte.  a rgida e exacta relao
dos factos, tal como se apresentaram a Hercule Poirot.
Durante todo esse tempo estive sempre a seu lado: o
que ele viu, tambm eu vi.
  Fiz o que pude para adivinhar os seus pensamen-
tos, mas, at agora, no consegui. Embora me tenha
posto ao corrente das suas descobertas como, por
exemplo, a do anel, ocultou-me as impresses de capi-
tal importncia e sempre lgicas que se formavam no
seu crebro. Como descobri depois, essa discrio era
uma caracterstica essencial da sua ndole. Limitava-
-se, no mximo, a fazer algumas aluses, nada mais.
  Como disse, at  noite de segunda-feira, a minha
exposio poderia ser exactamente a do prprio Poirot.
Desempenhava o papel de Watson em relao ao seu
amigo Sherlock Holmes; depois de segunda-feira, as
nossas investigaes tomaram uma direco diversa.
Ele comeou a trabalhar por conta prpria. Vim a sa-
ber o que fazia porque, em King's Abbot, todos aca-
  bam por saber tudo; porm, no fui posto a par dos
  seus pensamentos. De resto, tambm eu tinha as mi-
  nhas preocupaes.
  O que me surpreende  o carcter fragmentrio, t-
pico desse perodo. Cada um trouxe a sua contribuio
para a soluo do mistrio: era quase um jogo de pala-
vras cruzadas ao qual cada um contribua com uma
pequena informao, uma pequena descoberta pessoal.
Mas, a Poirot, somente cabe o merecimento de ter sa-
bido combinar todos esses fragmentos, de modo a
compor um quadro complexo.
  Alguns factos pareciam ser insignificantes. Por
exemplo, a questo dos sapatos pretos. Mas isso vir
depois.
  Para expor as coisas na sua ordem estritamente
cronolgica, devo comear com a chamada   parte de
Mrs. Ackroyd  .
  Mandou-me chamar bem cedo, na manh de tera-
-feira; julgando tratar-se de um caso urgente, apressei-
-me a atend-la, temendo encontr-la no fim da vida.
  Estava de cama. Estendeu-me a mo ossuda e indi-
cou-me uma cadeira que se encontrava perto do leito.
  - Ento, Mistress Ackroyd? - perguntei.-
Que h?
  Falei com aquela espcie de falsa cordialidade que
parece ser obrigatria por parte de um mdico.
  - Estou pronta! - disse com um fio de voz.-
Inteiramente pronta. Foi o golpe que recebi com a
morte do pobre Roger. Costuma-se dizer que certas
dores no se sentem no momento. A reaco vem mais
tarde!
   pena que a um mdico seja vedado, na sua pro-
fisso, dizer o que s vezes realmente pensa. No sei
quanto teria pago para poder responder-lhe:   Velha hi-
pcrita!v
  Em vez disso, tive de receitar-lhe um tnico, que
ela aceitou de bom grado. No pensei que me tivesse
chamado para falar-me do golpe que recebera com a
morte de Ackroyd. Mas a viva revelava absoluta inca-
pacidade de seguir uma linha recta em qualquer as-
sunto. Aproximava-se sempre do objectivo por linhas
transversas.

122   123







  - Depois daquela cena de ontem! - continuou a
minha paciente. Parou, como se esperasse que eu reto-
masse o fio do discurso.
  - Que cena?
  - Mas, doutor! .. .  possvel que se tenha esqueci-
do? Aquele odioso homenzinho francs... ou belga, ou
l o que ele seja... Insultar-nos como o fez! Perturbou-
-me completamente. Uma coisa dessas depois da mor-
te de Roger?
  - Sinto muito, Mistress Ackroyd.
  - No sei o que pretendia. Gritar daquela manei-
ra! Julgo saber qual seja o meu dever e nada tenho a
ocultar. Prestei  polcia todo o auxlio que me foi pos-
svel!
  Calou-se. Depois, prosseguiu:
  - Ningum pode dizer que eu tenha faltado ao
meu dever. Estou certa que o inspector Raglan est
mais do que satisfeito. Por que razo esse forasteiro se
intromete? No fim de contas,  to ridculo! No sei
porque Flora insistiu em que ele tratasse do caso.
Nunca me falou nisso. Foi procur-lo, por iniciativa
prpria, sem sequer me consultar. Ela  muito inde-
pendente. E no pensa que sou uma mulher com ex-
perincia e, afinal de contas, sua me. Deveria ter
falado comigo antes e pedir a minha opinio.
  Eu escutava em silncio.
  - Pensa que tenho alguma coisa a ocultar? E on-
tem, teve a coragem de acusar-me!
  Encolhi os ombros.
  - Ora, Mistress Ackroyd, so coisas sem impor-
tncia. Desde o momento que nada tem a ocultar,
qualquer que seja a acusao que ele tenha feito no
poder atingi-la.
  Subitamente, a viva mudou de assunto.
  - Os servidores so to aborrecidos! Esto sempre
a fazer comentrios. Assim, as murmuraes propa-
gam-se... e na maioria das vezes sem motivo.
  - Ah! Os criados falaram? - Interessei-me.-
E a propsito de qu?

  Mrs. Ackroyd olhou-me muito significativamente,
deixando-me perplexo.
  - Estava certa, doutor, de que o senhor soubesse
melhor do que qualquer outro. No esteve sempre
com Mister Poirot?
  - Sim.
  - Ento deve saber. Aquela Ursula Bourne...
E natural que esteja para partir. Quis praticar todos os
desaforos que pde! Os criados so to insidiosos! Vai
saber exactamente o que ela teve a coragem de dizer.
No quero que circulem falsas impresses. Afinal, o
senhor no ir repetir todos os pormenores  polcia,
no  verdade? s vezes, h questes de famlia, coisas
que nada tm que ver com o crime. Mas, se a rapariga
 ruim, pode ter inventado sabe Deus quantas perf-
dias.
  Percebi imediatamente que atrs dessas desordena-
das efuses devia ocultar-se uma inquietao profun-
da. As indues de Poirot estavam bem justificadas!
Entre as seis pessoas que ontem se encontravam em
torno da mesa, Mrs. Ackroyd tinha, pelo menos, qual-
quer coisa a ocultar. Eu ia agora descobrir o que era!
  - Se eu estivesse no seu lugar, Mistress Ackroyd,
decidir-me-ia a confessar tudo.
  Soltou um gemido.
  - Ah, doutor!, como pode ser to severo? Parece-
-me como se... como se... Contudo, posso explicar-lhe
tudo to facilmente!
  - E ento porque o no faz? - encorajei.
  Puxou um leno bordado e comeou a lacrimejar.
  - Julgava, doutor, que o senhor pudesse apresen-
tar o facto a Mister Poirot, explicando-o, porque  to
difcil que um estrangeiro possa compreender os nos-
sos pontos de vista. E o senhor no sabe, ningum o
pode saber, contra o que tive de lutar! Um martrio,
um longo martrio! Eis o que foi a minha vida. No
gosto de falar mal dos mortos, mas  assim. No havia
a mais insignificante conta que no passasse pelas suas

124 % 125







mos... como se Roger ganhasse apenas uma miservel
centena de libras por ano, em vez de ser (como dizia
ontem o advogado Hammond) um dos homens mais
ricos da regio.
  Calou-se por um momento, enxugando os olhos
com o leno bordado.
  - Compreendo - animei. - A senhora falava de
contas a pagar?
  - Ah! As malditas contas! E algumas nem quis
que as visse. Tratavam de coisas que um homem no
poderia compreender. Estou certa que teria dito no
serem necessrias. Naturalmente, as contas subiam e
continuavam a subir...
  Dirigiu-me um olhar implorativo, como se procu-
rasse uma palavra de consolo para essa inslita conse-
quncia.
  -  assim, realmente.  uma particularidade que
tm as contas - confirmei.
  Ento, mudou de tom e tornou-se decididamente
agressiva.
  - Garanto-lhe, doutor, que me sentia sem re do-
minada por uma terrvel agitao nervosa. A noite,
no conseguia dormir; tinha sempre dolorosas palpita-
es do corao. Um dia, recebi por carta um ofereci-
mento; verdadeiramente, eram duas cartas de dois ca-
valheiros gentilssimos. Chegavam justamente no
momento oportuno.
    Fornecerei imediatamente de dez a dez mil libras,
contra um simples "pagarei"  , murmurou com triste-
za, depois de uma pausa. - Escrevi a um deles mas,
parecia existirem dificuldades.
  Calou-se.
  Percebi que chegava  encruzilhada. Nunca conhe-
ci pessoa com mais dificuldade de se explicar do que
Mrs. Ackroyd.
  - Veja - murmurou -,  uma questo de espera
e de perspectivas. Naturalmente, perspectivas de he-
rana. E eu esperava que Roger se tivesse lembrado de

mim no seu testamento, embora no soubesse como.
Oh! Se eu tivesse podido dar uma olhadela no seu tes-
tamento (no para ser indiscreta, compreenda-se
bem!) mas s para poder tomar as minhas delibera-
es.
  Lanou-me um olhar de esguelha. A situao tor-
nava-se realmente delicada. Felizmente, as palavras,
quando usadas habilmente, servem para mascarar a
mais feia das realidades.
  - Somente ao senhor ouso dizer isto, doutor
Sheppard - prosseguiu rapidamente. - Ouso esperar
que no me julgue mal e que saber apresentar as coi-
sas a Mister Poirot sob a sua justa fisionomia. Foi na
tarde de sexta-feira...
  Parou perplexa.
  - Na tarde de sexta-feira - repeti para encoraj-
-la - e ento?
  - Todos tinham sado. Pelo menos, assim julguei.
Entrei no escritrio de Roger (tinha um motivo real
que ali me levava) isto , quero dizer que nada havia
de incorrecto nas minhas intenes. E, ao ver papis
amontoados sobre a secretria, tive uma ideia repenti-
na: quem sabe se Roger no guardar o seu testamento
numa das gavetas da secretria? Sou assim, impulsiva
por natureza; sempre fui, desde criana... Deixo-me
conduzir pela impresso momentnea... Meu cunhado
deixava as chaves (muito imprudente da sua parte) na
fechadura da gaveta superior.
  - Ah! - exclamei, como para ir em seu auxlio.-
A senhora remexeu na gaveta. E pde encontrar o tes-
tamento?
  Ela emitiu um pequeno grito e fez-me compreen-
der no ter eu sido suficientemente diplomata.
  - Que insinuaes! Que pergunta! Mas se no
houve nada disso!
  - No, certamente - apressei-me a repreender-
-me. - A senhora deve desculpar a maneira um pou-
co rude como costumo dizer as coisas.

126 I 127







  -  assim mesmo. Os homens so to singulares!
No lugar do pobre Roger, no teria dificuldade algu-
ma em revelar as disposies testamentrias. Mas os
homens so to reservados!  natural que se recorra a
pequenos subterfgios para defesa prpria.
  - E o resultado desses pequenos subterfgios?-
perguntei.
  -  justamente o que eu estava para dizer-lhe.
Chegara  ltima gaveta, quando Ursula Bourne en-
trou na sala. Coisa aborrecidssima. Naturalmente, fe-
chei a gaveta e levantei-me. Fiz-lhe observar que, so-
bre a secretria, ainda havia p. Mas no me agradou
o seu aspecto: muito respeitosa, como de costume,
mas com uma expresso estranha no olhar. Quase de
desprezo. Nunca traguei aquela rapariga.  boa cria-
da, chama-me sempre   senhora   e no faz caretas para
usar a touca e o avental (como fazem muitas actual-
mente, garanto-lhe). E sabe dizer:   No est em casa  ,
sem nenhum escrpulo, quando vai responder  porta.
E no tem aqueles equvocos rudos de estmago
  quando vai servir  mesa, como parece terem quase to-
  das as criadas... Ah! onde ia eu?

  - Estava a dizer que, no obstante as diversas
  qualidades, a rapariga nunca lhe agradou.
  - Nem antes, nem agora.  estranho... H nela
  qualquer coisa diferente das outras.  muito instruda,
  a meu ver.
  - E depois, que aconteceu? - perguntei.

  - Nada. Isto , meu cunhado entrou no escrit-
rio. Julgava que ele estivesse a passear.
  -   Que h?  , perguntou.   Nada  , respondi.  cVim
buscar o jornal.   Agarrei no jornal e sa. A criada fi-
cou no escritrio. Ouvi que perguntou a Roger se lhe
  podia falar por um momento. A seguir subi ao quarto
  para me deitar. Sentia-me muito perturbada e nervosa.
  Seguiu-se uma pausa.
  - O doutor explicar tudo a Mister Poirot, no 
  verdade? Pode ver como a coisa em si  insignificante.

128

Naturalmente, quando vi que insistia tanto, dizendo
que todos ocultvamos qualquer coisa, pensei imedia-
tamente que fosse isto. Talvez a criada tenha feito um
barulho dos diabos em torno deste facto; mas o senhor
saber explicar, no  verdade?
  -  tudo? - perguntei. - Disse-me realmente
tudo?
  - Ss... - respondeu Mrs. Ackroyd, com certa
hesitao. - Oh! Sim! - acrescentou com firmeza.
  Contudo, pressenti haver mais qualquer coisa. Foi
um verdadeiro relmpago de gnio que me sugeriu na-
quele instante esta pergunta:
  - Desculpe, foi a senhora quem deixou aberta a
mesinha da sala?
  O rubor significativo que se espalhou pelo seu ros-
to e que nem o rouge nem o p-de-arroz conseguiram
esconder, foi mais eloquente que qualquer resposta.
  - Como soube? - murmurou.
  - Ento foi a senhora?
  - Sim... eu... sabe... havia dois objectos de prata
velha... muito interessantes. Li muito a respeito destas
coisas; num livro havia at reprodues de um peque-
no objecto que alcanara um preo enorme, num lei-
lo. Pareceu-me idntico ao que se encontrava na me-
sinha. Pensei em tir-lo para levar comigo a Londres,
quando tivesse ocasio para... para mand-lo avaliar.
Se fosse realmente um objecto de valor, que bela sur-
presa seria para Roger!
  Abstive-me de fazer comentrios e aceitei a expli-
cao de Mrs. Ackroyd pelo que ela valia. Cuidei at
de no lhe perguntar porque tentava subtrair de um
modo to clandestino o que desejava levar com um fim
to inocente.
  - E porque foi que deixou a tampa levantada?-
perguntei. - Esqueceu-se?
  - Assustei-me - respondeu. - Ouvi rumor de
passos do lado de fora, no terrao. Apressei-me a sair
da sala e subi a escada justamente antes de Parker
abrir a porta.

129







  - Deve ter sido Mistress Russell - murmurei,
pensativo.
  Mrs. Ackroyd acabava de revelar-me um facto que
era extremamente interessante. Se os seus propsitos,
relativamente s quinquilharias de Ackroyd, tinham
sido rigidamente honestos ou no, no sabia nem me
interessava saber. O que me interessava era o facto de
Mrs. Russell ter passado para entrar na sala, pela por-
ta envidraada que dava para o terrao, o que provava
que no me enganara quando me pareceu anelante, co-
mo se viesse de uma rpida corrida. Onde teria esta-
do? Pensei no quiosque do jardim e no pedao de
cambraia.
  - Quem sabe se Mistress Russell manda engomar
os lenos? - perguntei, tomado de sbita intuio.
  O assombro de Mrs. Ackroyd fez-me voltar  reali-
dade e levantei-me para sair.
  - Cr que poder explicar a Mister Poirot, o
acontecido? - perguntou-me ansiosamente.
  - Certamente. No duvide.
  Finalmente, pude sair aps ouvir ulteriores expli-
caes da sua conduta.
  A criada encontrava-se no vestbulo e foi ela quem
me ajudou a vestir o sobretudo. Observei-a mais aten-
tamente do que fizera at ento. Era evidente que de-
via ter chorado.
  - Como foi - perguntei - que nos disse que
Mister Ackroyd a chamara ao escritrio na sexta-feita?
Soube que, pelo contrrio, foi a menina quem lhe quis
falar.
  Baixou os olhos um instante; depois declarou:
  - De qualquer modo, tencionava despedir-me-
disse, titubeante.
  Nada mais acrescentei. Abriu-me a porta e, quan-
do estava para sair, perguntou-me baixando a voz:
  - Desculpe, doutor, no h notcias do capito
Paton?
  Abanei a cabea, olhando-a surpreso.

  - Todavia deve voltar - respondi.
  Olhava-me com um olhar implorante.
  - Ningum sabe onde est? - perguntou.
  - Voc sabe? - perguntei vivamente.
  Abanou a cabea.
  - Nada sei. Mas se algum fosse verdadeiramente
amigo dele, devia dizer-lhe para voltar, custe o que
custar.
  Parei um momento, esperando que me dissesse
mais alguma coisa. Em vez disso, a pergunta que me
dirigiu causou-me imensa surpresa.
  - Quando julga que foi praticado o crime? Antes
das dez?
  - Sim, julga-se que foi entre as nove e trs quar-
tos e as dez.
  - No antes? No antes das nove e trs quartos?
  Fixei-a atentamente. Era to evidente que esperava
uma resposta afirmativa!
  - No, isso est fora de dvida - esclareci.-
Miss Ackroyd viu o tio ainda com vida s nove e trs
quartos.
  Voltou-se abatida, como se estivesse para desfa-
lecer.
    Que linda pequena!  , pensei enquanto me afasta-
va.   Uma beleza rara!  
  Caroline estava em casa. Recebera nova visita de
Poirot e mostrava-se toda orgulhosa.
  - No sabes que estou a ajud-lo nas suas investi-
gaes? - declarou.
  Experimentei um vago sentimento de inquietao,
ao v-la encorajada nos seus instintos policiais.
  - Andas, por acaso,  procura da jovem misterio-
sa que se encontrava com Rudolph? - perguntei.
  - Em todo o caso, poderia faz-lo por minha con-
ta. Mas no  isso que Mister Poirot quer que in-
dague.
  - Que quer saber, ento? - perguntei.
  - Quer saber se as botas de Rudolph eram pretas
ou amarelas - informou Caroline solenemente.

130 131







  Fixei-a, estupefacto. Somente agora via que estpi-
do fora, a propsito dessas botas. No compreendi o
objectivo da pergunta.
  - Eram sapatos amarelos - esclareci.
  - Mas no, Jacques, no se trata de sapatos, trata-
-se de botas. Mister Poirot quer saber se o par de bo-
tas que Rudolph tinha consigo, no hotel, eram pretas
ou amarelas. E um elemento de grande importncia.
  Fui mesmo obtuso. No compreendi.
  - E como conseguirs saber? - perguntei.
  Respondeu que, quanto quele ponto, no haveria
dificuldade. A melhor amiga da nossa criada Anny era
a Clara, criada de Miss Ganett. E Clara dava-se com o
criado do hotel Trs Javalis. Tudo se resolveu com
a mxima simplicidade; com o auxlio de Miss Ganett,
que lealmente colaborava na empresa e que, para isso,
concedeu a Clara uma breve licena; a incumbncia foi
concluda com rapidez.
  De modo que,  hora do almoo, minha irm pde
observar com suprema indiferena:
  - Ah! A propsito das botas de Rudolph...
  - Ento que h?
  - Mister Poirot julgava que fossem amarelas. En-
ganou-se. So pretas.
  E Caroline sacudiu a cabea vrias vezes. Era evi-
dente que julgava ter ganho um ponto sobre Poirot.
  No respondi. Perguntava a mim prprio, bastante
perplexo, que relao poderia ter com o crime a cor de
um par de botas de Rudolph Paton.



CAPTULO XV

GODOFRED RAYMOND


  Naquele mesmo dia, devia ter outra prova da estra-
tgia de Poirot. A ameaa de revelar quanto cada um
de ns queria ocultar-lhe fora um golpe magistral do

seu conhecimento da natureza humana. Um misto de
culpa e de temor arrancara a verdade a Mrs. Ackroyd.
Fora a primeira a ceder; mas no devia ser a nica.
  Nessa tarde, de volta das minhas visitas, Caroline
disse-me que Raymond me procurara, tendo partido
pouco antes da minha chegada.
  - Queria falar-me? - perguntei, enquanto pen-
durava o sobretudo.
  Minha irm apareceu.
  - Queria falar com Mister Poirot - disse. - Vi-
nha naquele momento da villa dos Larios, mas o nos-
so vizinho no estava em casa. Ento, Raymond julgou
que ele estivesse aqui; ou que, pelo menos, soubesses
onde se encontra.
  - No fao a mnima ideia.
  - Procurei ret-lo - acrescentou -, mas disse
que voltaria a passar pela villa dentro de meia hora e
saiu. Foi pena, porque Mister Poirot voltou para casa
logo aps ele ter sado.
  - Mas esteve aqui?
  - No, foi para sua casa.
  - Como soubeste?
  - Pela janela lateral - explicou.
  Pareceu-me que estava esgotado o assunto. Mas
minha irm no desistiu.
  - No vais? - perguntou.
  - Aonde?
  - Aos Larios!
  - Fazer o qu?
  - Mister Raymond parecia estar ansioso por falar
a Poirot - respondeu Caroline. - Poderias saber o
que h no ar.
  Franzi a testa.
  - A curiosidade no  o meu pecado capital-
observei friamente. - Posso viver perfeitamente sem
saber o que fazem e o que pensam os meus vizinhos.
  - No digas tolices, Jacques - respondeu.-
No s menos curioso do que eu. Somente no s to
sincero. Sentes sempre a necessidade de dissimular.

132 , 133







  - Parece-te, Caroline? - resmunguei saindo para
o consultrio.
  Dez minutos depois, bateu  porta e entrou. Tinha
na mo uma coisa que parecia uma travessa com mar-
melada.
  - No te agradaria, Jacques, levar esta marmelada
a Mister Poirot? Prometi-lha. Nunca experimentou
marmelada feita em casa.
  - Porque no mandas Anny? - perguntei seca-
mente.
  - Est ocupada.
  Eu e minha irm olhmo-nos.
  - Est bem - acedi, levantando-me. - Mas fica
entendido: deporei essa travessa na soleira da porta.
Estamos entendidos, no  verdade?
  Caroline franziu a testa.
  - Naturalmente - disse. - Quem te pediu outra
coisa?
  No soube que responder.
  - Se por acaso encontrares Mister Poirot - acres-
centou, enquanto eu abria a porta - poders dizer-lhe
aquilo das botas...
  Foi um golpe de verdadeira diplomacia, porque
realmente, tinha pressa de decifrar o enigma das bo-
tas. Quando a velha criada, com a touca de bret, me
abriu a porta, quase automaticamente perguntei se
Mister Poirot estava em casa...
  O detective veio ao meu encontro, demonstrando
viva satisfao.
  - Sente-se, meu amigo - convidou. - A poltro-
na ou esta cadeira? A sala no estar muito quente?
  Pareceu-me que estava sufocante, mas no me ar-
risquei a diz-lo. As janelas estavam fechadas e na cha-
min ardia um grande fogo.
  - Os Ingleses tm uma verdadeira mania pelo ar
fresco - declarou. - O ar livre est bem, l fora, no
seu lugar natural. Ento porque deix-lo entrar em ca-
sa? Mas no falemos nessas banalidades. O senhor tem
alguma coisa para mim?

  - Duas coisas - respondi. - Em primeiro lugar
isto, da parte de minha irm.
  Entreguei-lhe a marmelada.
  - Como Miss Caroline  gentil. No se esqueceu
da promessa! E a segunda coisa?
  - Trata-se de uma informao.
  E contei-lhe do meu dilogo com Mrs. Ackroyd.
  Ouviu com interesse, mas sem se comover.
  - Esclarece-me uma dvida - disse, pensativo.
- E tem certo valor por vir confirmar o depoimento
da governanta. Ela disse ter encontrado a tampa da
mesinha da sala levantada e t-la baixado, ao passar.
  - E que diz, a propsito da sua afirmao, de ter
entrado na sala para ver se as flores estavam frescas?
  - Ah! Nunca tomei a srio essa afirmao. Era
bem evidente a desculpa, inventada apressadamente,
apenas para explicar a sua presena ali. Explicava a
sua comoo pelo facto de ter estado a mexer na mesi-
nha; mas agora, parece-me que se deve procurar outro
motivo.
  - Sim - concordei. - Com quem foi encontrar-
-se? Porqu?
  - O senhor julga que tenha sido para encontrar-se
com algum?
  - Sim.
  Poirot fez um sinal de assentimento.
  Houve uma pausa.
  - A propsito - acrescentei - devo transmitir-
-lhe uma informao da parte da minha irm. As botas
de Rudolph Paton eram pretas e no amarelas.
  Enquanto dizia isto, observava-o atentamente e pa-
receu-me ver nos seus olhos um relmpago de desi-
luso.
  - Tem a certeza de que no eram amarelas?
  - Absoluta.
  - Ah! - exclamou ele. - Que pena!
  Pareceu-me profundamente desiludido.
  No quis entrar em explicaes, mas imediatamen-
te passou a outro assunto.

134 C 135







  - Ser indiscreto perguntar-lhe que se passou a
seguir de o senhor ter atentido a governanta, na sexta-
-feira de manh?
  - Absolutamente nada - respondi. - Terminada
a consulta, falmos acerca de venenos, da facilidade e
da dificuldade de lhes descobrir a aco, dos estupefa-
cientes e das pessoas que os tomam.
  - Com referncia particular  cocana? - pergun-
tou Poirot.
  - Como sabe? - perguntei um tanto surpreso.
  Em vez de responder, levantou-se e dirigiu-se para
um canto da sala onde se encontravam jornais. Trou-
xe-me um exemplar do Dayle Budget, com a data de
sexta-feira, 16 de Setembro, e indicou-me um artigo
onde se falava do contrabando da cocana.
  - Eis o que lhe meteu na cabea a cocana - dis-
se o belga.
  No conseguia perceber o que queria dizer mas,
justamente naquele momento, a porta abriu-se e Ray-
mond foi anunciado.
  Entrou com as suas maneiras corteses e cumpri-
mentou-nos a ambos.
  - Como est, doutor? Mister Poirot,  a segunda
vez que venho a sua casa esta manh. Estava interessa-
do em v-lo.
  - Talvez seja melhor que eu saia - propus, em-
bora sem muita vontade.
  - Por minha causa no, doutor - prosseguiu,
sentando-se a um sinal do detective. - Vim fazer uma
confisso.
  - Verdade? - disse Poirot, mostrando interesse.
  - Na realidade, no  nada de importncia. Mas,
para dizer-lhe a verdade, desde ontem  noite que a
minha conscincia no me deixa em paz. Ontem, o se-
nhor acusou-nos a todos de lhe ocultarmos qualquer
coisa. Pois bem; devo confessar a minha culpa: tenho
alguma coisa a dizer-lhe.
  - E que , Mister Raymond?

  - Como j disse, nada de importante... Estava en-
dividado e no pouco; por forma que aquele legado
chegou no momento oportuno. Quinhentas libras ti-
ram-me de dificuldades e ainda sobra alguma coisa.
  Sorriu simpaticamente.
  - Eis a histria. No  agradvel confessar  pol-
cia que se est depenado... Causa sempre m impres-
so. Mas fui verdadeiramente tolo. Naquela noite, fi-
quei a jogar com Blunt, na sala de bilhar, das nove e
trs quartos em diante; por isso tenho um libi indes-
trutvel e nada tenho a temer. Contudo, quando o se-
nhor nos fez aquele sermo, a propsito do que ocult-
vamos... bem, senti vivo remorso na conscincia e
pensei vir aqui para libertar-me dele.
  Levantou-se e olhou-nos, sorrindo novamente.
  - O senhor  um rapaz prudente - disse Poirot,
fazendo um sinal de aprovao. - Quando sei que al-
gum tenta ocultar-me alguma coisa, suspeito logo que
aquilo que oculta seja algo muito feio. Fez muito bem
em c vir.
  - Sinto-me contente por me ter livrado de uma
suspeita - disse rindo, o secretrio. - Agora, vou-me
embora.
  - Desta maneira, tambm ele est no seu lugar-
observei, quando a porta se fechou, depois de ter
sado.
  - Sim - aprovou Poirot. - Uma simples bagate-
la... mas, se no tivesse estado na sala de bilhar, quem
sabe?... Afinal j se praticaram muitos crimes, por
menos de quinhentas libras. Tudo depende da c uantia
que pode bastar para transviar uma pessoa. E uma
simples questo de relatividade, no lhe parece? J
pensou, meu amigo, quantas pessoas naquela casa tira-
ram benefcio da morte de Mister Ackroyd? Mistress
Ackroyd, a sua filha, o secretrio, Mistress Russell...
s um no tirou vantagem: o major Blunt.
  Pronunciou este nome com um tom de voz to es-
tranho, que o olhei embaraado.

136   137







  - No chego a compreender - confessei.
  - Dois dos acusados disseram-me a verdade.
  - O senhor cr que tambm o major Blunt tenha
alguma coisa a ocultar?
  - Quanto a isso - observou o detective displicen-
temente - h um ditado que diz que os Ingleses s
ocultam uma coisa: o seu amor. E parece-me que o
major no foi feito para subterfgios.
  - s vezes pergunto a mim prprio se no cheg-
mos a concluses muito apressadas acerca deste assunto.
  - Que quer dizer?
  - Estabelecemos como premissa que o extorcion-
rio de Mistress Ferrars e o assassino de Mister Ack-
royd no podem ser mais do que uma s pessoa. No
 possvel que estejamos enganados?
  O belga fez um enrgico sinal de aprovao.
  - Muito bem. Perguntava se teria pensado nisto.
Naturalmente que  possvel! Mas precisamos de no
esquecer um ponto: o desaparecimento da carta. Isso
no implica necessariamente que tenha sido o assassi-
no quem a fez desaparecer. E possvel que tenha sido
subtrada por Parker, sem que o senhor se apercebes-
se, quando encontraram o cadver.
  - Parker?
  - Sim, Parker. Volto sempre  figura do mordo-
mo; mas no como assassino: ele no praticou o crime.
Porm, quem seno ele, poderia ter sido o misterioso
canalha que aterrorizava Mistress Ferrars?  possvel
que tenha chegado ao conhecimento do envenenamen-
to por intermdio de algum criado dela. De qualquer
modo,  muito mais provvel que ele se tenha apode-
rado da carta, do que um hspede casual, como o ma-
jor, por exemplo.
  - Decerto,  possvel que tenha sido o mordomo
quem fez desaparecer a carta - concordei. - S mais
tarde pude observar que no acertava.
  - Mais tarde, quando? Depois que Blunt e Ray-
mond entraram no escritrio ou antes?

  - No posso lembrar-me - respondi lentamente.
- Parece-me que foi antes... No, depois. Sim, tenho
quase a certeza que foi depois.
  - A suspeita, agora, estende-se a trs pessoas-
observou pensativo. - Mas  mais provvel que tenha
sido Parker. Parece-me oportuno tentar uma pequena
experincia com o mordomo. Oia, doutor, querer
acompanhar-me at  villa Fernly?
  Concordei e samos imediatamente. Poirot pediu
para falar com Miss Ackroyd e esta apresentou-se logo.
  - Miss Flora - comeou o belga. - Devo con-
fiar-lhe um pequeno segredo. No estou completa-
mente persuadido da inocncia de Parker; proponho-
-me fazer uma pequena experincia com o seu auxlio.
Quero reconstituir alguns dos actos daquela noite.
Mas antes, devo pensar em qualquer coisa para dizer-
-lhe... Ah!, encontrei: desejo certificar-me se   de fora  
do terrao, se podem ouvir as vozes vindas do corre-
dor. Agora, doutor, faa o obsquio de chamar o mor-
domo.
  Fiz como ele me pedia e logo apareceu Parker, me-
lfluo como sempre.
  - Chamou, senhor?
  - Sim, meu bom Parker. Pensei em fazer uma pe-
quena experincia: mandei vir o major Blunt para o
terrao e parar diante da janela do escritrio. Quero
saber se de l se pode ouvir a voz de Miss Ackroyd e a
sua, partindo do corredor. Quero repetir ainda, a pe-
quena cena da outra noite. Queira ir buscar a bandeja
ou o que trazia.
  O mordomo saiu e ns fomos at o corredor, dian-
te da porta do escritrio. Pouco depois, ouvimos um
tilintar proveniente do vesti'bulo; Parker apareceu na
soleira com uma garrafa de soda, uma garrafa de us-
que e dois copos.
  - Um momento - exclamou Poirot, levantando a
mo. - Tudo deve ocorrer com ordem; tal como
aconteceu.  um mtodo meu, particular.

138   139







  -  um mtodo que praticam no estrangeiro, se-
nhor - observou o mordomo. - Chamam-lhe recons-
tituio do crime, no  verdade?
  Estava imvel e imperturbvel, como se esperasse
as ordens do detective.
  - Ah! Sabe muita coisa, o nosso bom Parker!-
exclamou Poirot. - V-se que l. Bem, agora procure-
mos dispor cada coisa do modo mais exacto. Voc che-
gava do vesti'bulo, assim. Miss Flora encontrava-se...
onde?
  - Aqui - respondeu Flora, tomando o seu lugar,
justamente diante da porta do escritrio.
  - Muito bem, senhor - disse o mordomo.
  - Tinha apenas fechado a porta - continuou Flora.
  - Sim, miss - aprovou Parker -, a sua mo esta-
va ainda apoiada na maaneta da porta, como agora.
  - Prontos? - interveio Poirot. - Representem,
ento a pequena comdia.
  Flora ficou com a mo apoiada na maaneta e o
criado, chegando do vestl'bulo, com a bandeja na mo,
parou na soleira da porta que d para o corredor.
    Ol, Parker! Mister Ackroyd no quer ser inco-
modado esta noite  , disse a jovem.
  - Est bem assim? - perguntou em voz baixa.
  - Optimamente, se a memria me no engana,
miss - disse o mordomo. A seguir, levantou a voz,
num tom um tanto teatral, disse:   Est bem, miss. De-
vo fechar a porta, como de costume?  
    Sim, peo-lhe.  
  Parker atravessou a porta para sair; Flora seguiu-o
e comeou a subir a escada principal.
  - Chega? - perguntou sem se voltar.
  -  maravilha - declarou Poirot, esfregando as
mos. - A propsito, Parker, tem a certeza de que
estavam dois copos na bandeja, naquela noite? Para
quem o segundo?
  - Trazia sempre dois copos, senhor - respondeu
Parker. - Deseja mais alguma coisa?

  - Nada mais, obrigado.
  O mordomo retirou-se com ar de suprema digni-
dade.
  Poirot deixou-se ficar no meio do vesu'bulo, de tes-
ta franzida. Flora desceu e aproximou-se de ns.
  - Deu-lhe bons resultados a experincia? - per-
guntou. - No me parece muito claro, sabe?...
  O belga olhou-a e sorriu.
  - No  necessrio que parea muito claro miss.
Mas diga-me uma coisa: havia realmente dois copos na
bandeja de Parker, naquela noite?
  A moa franziu as sobrancelhas.
  - Na verdade, no me lembro - confessou.-
Parece-me que eram dois. ...  este o objectivo da
experincia?
  O detective tomou-lhe as mos acariciando-as.
  - Interessa-me sempre ver se os outros dizem a
verdade.
  - E parece-lhe que Parker tenha dito a verdade?
  - Inclino-me a cr-lo - respondeu o belga pensa-
tivo.
  Pouco depois, samos.
  - Diga-me uma coisa: qual era o objectivo daque-
la pergunta acerca dos dois copos? - perguntei com
curiosidade.
  Poirot ergueu os ombros.
  - Era necessrio dizer alguma coisa - observou.-
E aquela pergunta serviu como qualquer outra.
  Olhei-o com surpresa.
  - De qualquer modo, meu amigo - prosse-
guiu -, agora sei uma coisa que queria saber. E fi-
quemos por aqui.





140







CAPTULO XVI

UMA PAR TIDA EM FAMLIA


  Naquela noite, em nossa casa, reuniu-se um pe-
queno grupo para jogar o majongue. Esse gnero de
divertimento  muito popular em King's Abbot. Os
convidados chegaram depois do jantar, com as suas ga-
lochas e os seus impermeveis. Tomaram uma chcara
de caf e, mais tarde, doces, sanduches e ch.
  Os nossos hspedes naquela noite eram Miss Ga-
nett e o coronel Carter, que mora perto da igreja. H
sempre mexericos durante essas noitadas e, s vezes,
chegam a impedir o prosseguimento do jogo. Outrora,
jogava-se o brdege - um brdege terrvel, barulhen-
to, cheio de falatrio e murmuraes. Agora, achamos
que o majongue  um jogo mais pacfico. Pelo menos,
pode-se evitar a pergunta irritada, sobre por que razo
o parceiro jogou uma carta em lugar de outra; e se ain-
da continuarmos a exprimir os nossos juzos, estes es-
to longe do esprito acrimonioso de antes.
  - Muito fria esta noite, no , doutor? - disse o
coronel, com as costas viradas para o fogo. Caroline
conduzira para o seu quarto Miss Ganett e ajudava-a a
desembaraar-se dos inmeros agasalhos que a envol-
viam.
  - Lembra-me o Afeganisto - acrescentou o co-
ronel.
  - Realmente - respondi, corts.
  -  um caso muito misterioso esse do pobre Ack-
royd - continuou ele, sorvendo uma xcara de caf.
- H uma quantidade de pontos obscuros. Confiden-
cialmente, ouvi falar em extorso!
  O coronel dirigiu-me um olhar especial que pode-
ria ser classif cado   o olhar entre os homens do mundo  .
  - Deve haver de permeio uma mulher - admitiu.-
Pode estar certo disso.

  Justamente naquele momento, apareceram minha
irm e Miss Ganett. Esta ltima tomou o caf, en-
quanto Caroline puxava a caixa do majongue e coloca-
va as pedras sobre a mesa.
  - Lavagem das pedras - disse o coronel em tom
jocoso. - Assim est bem... lavagem das pedras, co-
mo se dizia no nosso crculo, em Xangai.
  Agora,  preciso que se saiba que tanto eu como a
minha irm temos a firme opinio que o coronel Car-
ter nunca ps os ps no Crculo de Xangai. E mais:
gue nas suas viagens pelo Oriente, nunca foi alm da
India onde, durante a guerra, lhe foi mandado fazer
jogo de prestidigitao com latas  de carne em conserva
e de marmelada. Mas ele anda sempre animado de um
esprito decididamente militar e, em King's Abbot, to-
leramos que cada um se entregue livremente s suas
pequenas manias.
  - Comecemos - disse Caroline.
  Sentmo-nos em torno da mesa. Durante cerca de
cinco minutos mantivemos um silncio religioso, visto
haver sempre em cada jogador uma luta secreta e te-
naz para ser o primeiro a levantar a muralha.
  - Ento, para diante, Jacques - exclamou final-
mente, minha irm. - Seis Vento Este.
  Tirei uma pedra. Fez-se um par de giros, inter-
rompidos pelas montonas chamadas de Trs Bambus,
Duas Rodas, Pong e, frequentemente de Miss Ganett,
de Unpong, dado o seu hbito inveterado de se apres-
sar a reclamar pedras a que no tinha direito algum.
  - Esta manh, vi Flora Ackroyd - disse ela.-
Pong... no... Unpong. Enganei-me.
  - Quatro Rodas - exclamou Caroline. - Onde
foi que a viu?
  - Ela, porm, no me viu - respondeu a outra,
com aquele ar cheio de misterioso significado que  ca-
racterstico dos lugarejos.
  - Ah! - exclamou Caroline com interesse.-
Chau!

142   143







  - Creio - observou a amiga, momentaneamente
distrada do assunto - que se diz agora Ciau e no
Chau.
  - Tolices - respondeu minha irm -, eu sempre
disse Chau.
  - No Crculo de Xangai - interveio o coronel-
dizem Chau.
  A solteirona, vencida, no disse palavra.
  - Que estava dizendo a respeito de Flora Ack-
royd? - perguntou Caroline, depois de um instante
dedicado ao jogo. - Estava com algum?
  - Exactamente - respondeu a outra.
  As duas trocaram olhares e pareceram trocar tam-
bm notcias.
  - Verdade!? - exclamou minha irm, com inte-
resse. -  assim mesmo? Bem, afinal em nada me
surpreende.
  - Estamos  espera que jogue, Miss Caroline-
observou o coronel, a quem agrada, s vezes, assumir
uma atitude severa de inteira observao no jogo e de
indiferena s tagarelices. Mas ningum se ilude.
  - Se quiserem que diga o que penso - prosse-
guiu Miss Ganett. - (Tirou um Bambu, Caroline?
Ah! no, vejo... era uma Roda). Como dizia, se quise-
rem que d a minha opinio, Flora teve uma sorte ex-
traordinria. L isso teve!
  - Oh! Como, Miss Ganett? - perguntou o coro-
nel. - Fao Pong com aquele Drago Verde. Como
pode dizer que a Flora teve sorte?  uma jovem muito
habilidosa, no h dvida!
  -  possvel que eu no entenda muito de crimes-
respondeu a outra, com ar de quem sabe tudo quanto
se pode saber -, mas uma coisa posso dizer; a primei-
ra pergunta que sempre se faz :   Quem foi a ltima
pessoa que viu a vtima ainda com vida?   E a pessoa
que a viu torna-se suspeita. Pois bem, Flora Ackroyd
foi a ltima pessoa que viu o tio vivo. Esta circunstn-
cia no pode deixar de produzir impresso bastante

desfavorvel a respeito dela.  minha convico, e ofe-
reo-a pelo que vale, que Rudolph permanece afastado
por causa dela, para desviar as suspeitas.
  - Ora! - protestei. - No vai certamente supor
que uma pequena como Flora seja capaz de apunhalar
o prprio tio, a sangue-frio.
  - Eh! No sei! - continuou a outra. - Acabei
h pouco de ler um livro sobre os bas fond de Paris em
que se conta que entre os criminosos mais ferozes, h
raparigas de rostos anglicos.
  - Ah! Mas isso  na Frana - observou pronta-
mente minha irm.
  - Isso mesmo! - apoiou o coronel. - Agora,
vou contar-lhes uma coisa bem curiosa;, uma historia-
zinha que se divulgou nos bazares na India...
  A histria do coronel foi de um comprimento in-
terminvel e pouco interessante. Um facto que aconte-
ceu na ndia, h muitos anos, no se pode comparar,
nem por um momento, com o acontecimento verifica-
do em King's Abbot, h poucos dias.
  Foi Caroline quem conseguiu pr termo  narrativa
do coronel com a feliz ideia de retomar o jogo do ma-
jongue. Depois dos leves dissabores determinados
pelas minhas correces aos clculos aritmticos de
minha irm, como sempre errados, jogmos outra par-
tida.
  - Passa o Vento Este - disse ela. - A propsito
de Rudolph Paton, tenho uma ideia particular. Trs
Caracteres. Mas, de momento fico com ela.
  - Ah! Sim, querida? - exclamou a Ganett.-
Chau... queria dizer, Pong.
  - Sim - respondeu, decidida, a minha irm.
  - E a propsito das botas, que aconteceu? - per-
guntou a outra.
  Minha irm franziu os lbios e sacudiu a cabea
com ar de saber toda a histria.
  - Pong - exclamou a nossa convidada. - No...
Unpong. Creio que o doutor, que  ntimo de Mister
Poirot, deve saber todos os segredos.

144   145







  - Bem longe disso! - respondi.
  - Jacques  sempre to modesto! - observou Ca-
roline. - Ah!, um Kong escondido!
  O coronel deixou escapar um assobio. Por um mo-
mento, a tagarelice parou.
  - E tem tambm o prprio Vento - disse.-
E tem dois Pongs de Drago. Devemos prestar aten-
o. Miss Caroline quer fazer um grande jogo!
  Durante mais algum tempo, continumos a jogar
em silncio.
  - Mas Mister Poirot - disse o coronel Carter-
 to grande detective como se diz?
  -  o mais valente que jamais existiu - respon-
deu solenemente Caroline. - Imagine que teve de vir
aqui incgnito, para evitar a publicidade.
  - Chau - exclamou Miss Ganett. -  um verda-
deiro acontecimento para o lugarejo. A propsito: Cla-
ra, a minha criada,  amiga ntima de Elsa, a criada da
villa Fernly; e sabem o que disse? Que se verificou o
roubo de uma avultada quantia em dinheiro e que
 sua convico, diz Elsa, que a outra criada sabe de
alguma coisa. Vai deixar o servio no fim do ms e 
noite chora frequentemente. Se quiserem saber o que
penso, provavelmente a rapariga tem relaes com um
bando de malfeitores. Sempre foi esquisita; no tem
amigas entre as raparigas dos arredores. Nos dias de
  folga sai sozinha, coisa nada comum e que d margem
  a suspeitas. Certa vez, convidei-a para ir ao Crculo
Educativo para as Raparigas e ela no aceitou. Ento,
fiz-lhe algumas perguntas a respeito da sua casa, dos
seus e de outras coisas mas, devo confessar, achei os
seus modos extremamente impertinentes. Exterior-
mente,  muito misteriosa... mas fez-me calar de um
modo bem insolente.
  A solteirona parou um momento para respirar e o
coronel, que no tinha o mnimo interesse no proble-
ma das criadas, aproveitou para observar que, no Cr-
culo de Xangai, o jogo movimentado era norma cons-
tante.

  Foi assim que se teve finalmente uma partida um
pouco animada.
  - Mas a tal Russell! - recomeou pouco depois
minha irm. - Veio aqui com o pretexto de consultar
Jacques, na sexta-feira de manh. Creio que apenas
queria era ver onde esto guardados os venenos. Cinco
Caracteres.
  - Chau - retorquiu a sua amiga. - Que ideia es-
tranha! Quem sabe se voc no tem razo!
  - A propsito de venenos - interveio o coronel.-
Ah! O qu? No descartou? Oh! Oito Bambus!
  - Majongue! - exclamou Miss Ganett.
  Caroline ficou desanimada.
  - Um s Drago Vermelho - disse com triste-
za -, e teria vencido com trs duplos.
  - Tive sempre dois Drages Vermelhos durante to-
do o jogo - declarei.
  - S a tua mentalidade, Jacques - observou em
tom de censura. - No compreendes o esprito do jogo.
  Parecia-me, pelo contrrio, ter jogado bem. Se Ca-
roline tivesse feito majongue, teria de pagar-lhe uma
quantia considervel. O majongue de Miss Ganett era
dos mais mesquinhos, como minha irm no deixou
de observar.
  Passou o Vento Este e comeou em silncio nova
partida.
  - O que estava dizendo h pouco  isto - respon-
deu Caroline.
  - Sim?! - exclamou a amiga em tom animador.
  - Isto,  o que penso a propsito de Rudolph
Paton.
  - Ah! Sim, querida - disse a nossa hspede num
tom ainda mais encorajador. - Chau.
  -  um sinal de fraqueza fazer Chau to cedo-
respondeu minha irm com severidade. - Devia sus-
tentar o jogo.
  - Sei isso - disse ela. - Estvamos a falar de
Rudolph, sabe?

146   147







- Sim. Parece-me poder adivinhar onde se en-
contra.
  Interrompemos o jogo e olhmo-la com curiosidade.
  - Isso  muito interessante, Miss Caroline - ob-
servou o coronel. - A ideia  inteiramente sua?
  - No totalmente. J viram a carta geogrfica da
nossa provncia que est na entrada?
  Afirmmos t-la visto.
  - No outro dia, quando Poirot estava para sair,
parou examinando-a e fez algumas observaes de que
no me lembro com preciso. Um comentrio qual-
quer acerca de Cranchester ser a nica cidade prxi-
ma, o que  verdade. Mas, depois de ele sair, veio-me
uma ideia...
  - Que ideia?
  - Que Rudolph se encontra em Cranchester.
  Foi nesse momento que derrubei o estojo que con-
tinha as peas de jogo. Caroline repreendeu-me pela
distraco. Mas, toda entregue s suas suposies, no
insistiu na reprimenda.
  - Em Cranchester, Miss Caroline? - estranhou o
coronel. - Qual!,  muito perto.
  - Mais uma razo - exclamou a outra com ar
triunfante. - Parece estar averiguado que no se afas-
tou daqui no comboio. Deve ter ido a p at Cranches-
ter. E creio que ainda l se encontra. Ningum pensa-
r em ir procur-lo to perto.
  Fiz ressaltar vrias incongruncias que tal hiptese
apresentava: mas, quando minha irm se aferra a uma
ideia no h quem lha tire da cabea.
  - E julga que Mister Poirot seja da mesma opi-
nio? - perguntou Ganett pensativa. -  uma coin-
cidncia verdadeiramente curiosa! Hoje, sa a passeio
pela estrada de Cranchester e Mister Poirot passou por
mim num automvel que vinha daquela direco.
  Olhmo-nos uns aos outros.
  - Ah! Finalmente! - exclamou de sbito a soltei-
rona. Fizera majongue h muito sem que o soubesse.

  A ateno de Caroline foi chamada  realidade.
Observou  amiga que no valia a pena fazer majongue
numa partida de cores mistas e de muitos Chaus.
A outra ouviu imperturbvel e recolheu os lucros.
  -  verdade, minha amiga, sei o que quer dizer
- observou. - Mas isso depende do modo de come-
ar uma partida, no acha?
  - Sim, mas nunca far uma grande partida, desse
modo - rebateu minha irm.
  - Bem, cada um joga como sabe - respondeu a
outra. - Apesar de tudo, estou a ganhar.
  Minha irm, que, pelo contrrio, estava a perder
muito, nada disse.
  Passou o Vento Este e recomeou o jogo. Entretan-
to Anny preparava o ch. Minha irm e a amiga olha-
vam-se de esguelha, como acontece frequentemente
durante essas festivas noitadas.
  - Se se decidir a jogar um pouco mais depressa,
minha amiga... - observou Caroline, vendo que ela
jogava depois de longa hesitao. - Os Chineses jo-
gam as pedras com muita rapidez.
  E durante alguns minutos, jogmos como os Chi-
neses.
  - Caro doutor, no se pode dizer que o senhor
tenha contribudo muito com as suas notcias - ob-
servou alegremente o coronel. - J sabemos!  um
perito! Agarrado ao grande detective no deixa escapar
nem um gesto nem uma palavra a respeito do anda-
mento do caso.
  - Sim! Jacques  extraordinrio - respondeu mi-
nha irm. -  contra a sua natureza dizer o que sabe.
- E olhou-me, evidentemente, pouco satisfeita.
  - Garanto-lhes - objectei - que nada sei. Poirot
sabe guardar os seus segredos.
  - Ele  esperto! - disse o coronel com um sorri-
so malicioso. - So realmente maravilhosos esses po-
lcias estrangeiros! Conhecem todos os truques e todos
os ardis!

148 I 149

  - Pong - declarou Miss Ganett, em tom pacato
de triunfo. -  majongue.
  A situao tornou-se tensa. Aborrecida por a amiga
ter feito majongue pela terceira vez, Caroline no sou-
be fazer outra coisa seno descarregar a sua raiva sobre
mim que estava a erguer uma nova muralha.
  - Como s aborrecido, Jacques! - exclamou.-
Ficas a com essa careta e no nos contas nada!
  - Minha irm - protestei. - Nada tenho a di-
zer, pelo menos no gnero do que pensas!
  - Tolices! Deves saber alguma coisa de interes-
sante.
  No respondi. Estava entusiasmado, quase inebria-
do de contentamento. Sabia que no jogo h uma figura
chamada Vitria Perfeita que  quando o jogador faz
majongue no primeiro lance, com as suas pedras origi-
nais. Nunca esperei ganhar daquele modo.
  Procurando refrear a minha alegria, estendi a mo
com a palma para cima.
  - Como dizem no Crculo de Xangai - exclamei.
- Tin-ho, isto , Vitria Perfeita!
  O coronel ficou com os olhos fora das rbitas.
  - Palavra de honra! - disse. -  verdadeira-
mente extraordinrio! Nunca vi coisa semelhante!
  Foi ento que comecei a tagarelar, provocado pelos
gracejos de Caroline e tornando-me imprudente devi-
do ao triunfo.
  - A propsito de notcias interessantes - excla-
mei. - Que diriam de uma aliana de oiro, com esta
gravao interna:   De R.  ?
  Abstenho-me de descrever a cena que se seguiu.
Fui obrigado a dizer exactamente onde fora achado es-
se tesouro. Fui obrigado a revelar a data.
  - Treze de Maro - observou minha irm.-
Justamente h seis meses.
  Da aflitiva babel das hipteses e dedues, foi pos-
svel chegar s trs seguintes concluses:
  l.a - O coronel Carter sugeria que Rudolph se casara

secretamente com Flora. Esta foi a primeira e a mais sim-
ples soluo.
  2.a - A de Miss Ganett, que Roger Ackroyd se casa-
ra secretamente com Mrs. Ferrars.
  3.a - A de minha irm, que Roger Ackroyd se casara
com a governanta, Mrs. Russell.
  Uma quarta soluo, uma verdadeira super-
-hiptese, foi formulada mais tarde, pela prpria Caro-
line, na hora de ir deitar-se.
  - Lembra-te das minhas palavras - disse repen-
tinamente. - No me admiraria de que Flora e Ray-
mond se tivessem casado.
  - Mas ento haveria   De G.   e no   De R.   gra-
vado na aliana - objectei.
  - Nunca se sabe. H raparigas que tm o costume
de chamar os homens pelo sobrenome. Depois, ouvis-
te o que disse a Ganett, a respeito do comportamento
de Flora?
  No rigor da verdade, no me consta que a Ganett
tenha dito coisa alguma a tal respeito, mas no quis
contradiz-la.
  - E que dirias do major Blunt? - observei. - Se
h algum...
  - Tolices! - disse Caroline. - No nego que ele
tenha admirao, mesmo amor, por ela. Mas, acredita-
-me, uma rapariga no se dispe a apaixonar-se por
um homem que poderia ser pai dela, quando h um
rapago como o secretrio que lhe faz a corte.  poss-
vel que se sirva do major para disfarar. Elas so mui-
to espertas. Mas h uma coisa que quero dizer-te: que
Flora no se interessa por Rudolph e nunca se interes-
sou por ele. Isso te garanto eu.
  Aceitei, docilmente, a afirmao de minha irm.





150







CAPTULO XVII

PARKER


  Na manh seguinte, tive a impresso de que a sa-
tisfao da Tin-ho, a Vitria Perfeita, me tornara indis-
creto. Poirot pedira-me que mantivesse segredo sobre
a descoberta do anel e eu era a nica pessoa que estava
ao corrente da descoberta. A notcia agora, j se estava
a divulgar pelo lugarejo, como incndio na floresta.
Esperava, portanto, uma srie de censuras, por parte
do detective.
  As exquias de Mrs. Ferrars e de Mr. Ackroyd fo-
ram marcadas para as onze horas. Foi uma cerimnia
comovedora. Estiveram presentes todos os habitantes
da villa Fernly.
  Terminada a solenidade, Poirot pegou-me pelo
brao e obrigou-me a acompanh-lo at casa. Tinha
um ar muito grave e temi que a minha indiscrio da
noite anterior lhe tivesse chegado aos ouvidos. Mas
percebi que pensava noutra coisa.
  - Doutor, temos de agir! Quero examinar uma
testemunha com a sua interveno. Interrog-la-emos
e infundir-lhe-emos tal terror que a verdade ter de
surgir.
  - A que testemunha alude? - perguntei.
  - Parker! - respondeu. - Disse-lhe que se en-
contrasse em minha casa ao meio-dia. A esta hora j l
deve estar.
  - Julga que era ele quem explorava Mistress Fer-
rars?
Ou ele, ou...
Ento? - perguntei depois de um instante de
espera.
  - Digo-lhe isto, meu caro amigo: espero que seja ele.
  O ar grave e algo de indefinvel que essa atitude
evidenciava, reduziram-me ao silncio.

  Chegados  villa dos Larios, anunciaram-nos que
Parker estava  nossa espera. Quando entrmos na sa-
la, o mordomo levantou-se, com deferncia.
  - Bom dia, Parker - disse Poirot, cortesmente.
  Tirou as luvas e o sobretudo.
  O mordomo aproximou-se, pegou nos objectos
com o mximo cuidado e colocou-os sobre uma cadei-
ra, perto da porta. Poirot observava-o com olhar de
aprovao.
  - Obrigado, meu bom Parker. Sente-se, porque
preciso de falar-lhe.
  O criado sentou-se com um leve gesto de agradeci-
mento.
  - Por que motivo julga que o mandei vir c?
  Parker tossiu.
  - Pensei, senhor, que desejasse fazer-me alguma
pergunta sobre o meu defunto amo... coisas confiden-
ciais.
  - Precisamente - respondeu Poirot. - E... voc
tem muita experincia relativamente a chantagem?
  - Senhor!
  O mordomo levantou-se, repentinamente.
  - No se inquiete - disse o detective com a m-
xima calma. - No venha representar a comdia do
homem honesto insultado. Voc sabe muito bem... tu-
do quanto  preciso saber a respeito de extorses, no
 assim?
  - Mas, senhor, eu... eu nunca... nunca fui...
  - Insultado assim - completou Poirot. - Por
que razo, Parker, naquela noite, depois de ter ouvido
a palavra   extorso   estava ansioso a escutar, quieti-
nho, a conversa que se desenvolvia no escritrio de
Mister Ackroyd?
  - Mas, no... eu...
  - Quem foi o seu ltimo patro? - perguntou
Poirot  queima-roupa.
  - O meu ltimo patro?
  - Sim, antes de Mister Ackroyd.

152 I 153







  - Um major, senhor. O major Ellerby...
  Poirot interrompeu-o, quase arrancando-lhe a pala-
vra da boca.
  - Precisamente, o major Ellerby. Este dava-se aos
estupefacientes, no  verdade? Voc viajou pelo mun-
do com ele. Durante a estada nas Bermudas aconteceu
um grave incidente... um homem foi assassinado.
O major era, em parte, responsvel. A coisa foi abafa-
da. Voc, porm, sabia. Quanto lhe deu o major Eller-
by para que se calasse?
  Parker fitava-o de boca aberta. Parecia aniquilado.
  - Como v, fiz algumas indagaes - continuou
Poirot em tom de gracejo. - E  como lhe digo. Apa-
nhou uma bela quantia pelo seu silncio. O major con-
tinuou a pagar at  morte! Agora quero saber os por-
menores da sua ltima tentativa.
  O mordomo continuava a olh-lo assombrado.
  -  intil negar. Hercule Poirot   sabe  .  ou no
verdade o que eu disse do major Ellerby?
  Embora com muita relutncia, o mordomo fez um
breve gesto afirmativo com a cabea. O seu rosto esta-
va cadavrico.
  - Mas nunca torci um cabelo a Mister Ackroyd
- gemeu. - Juro-o em nome de Deus, senhor. Sem-
pre pensei que um dia se viria a saber. Mas juro que
no fui eu... no fui eu quem o matou!
  A sua voz quase se transformou num grito.
  - Estou disposto a acreditar, meu amigo - disse
o detective. - Voc no tem coragem. Mas eu preciso
de saber a verdade.
  - Direi tudo. Tudo o que desejar saber.  verda-
de que naquela noite procurei ouvir. Uma ou duas pa-
lavras, surpreendidas quando passava, despertaram a
minha ateno. E tambm o facto de Mister Ackroyd
no querer ser perturbado e ter-se fechado no escrit-
rio com o doutor, despertaram as minhas suspeitas.
Mas  a pura verdade, juro-o pela minha alma, aquilo
que disse  polcia. Ouvi a palavra   extorso   se-
nhor, e...

  Calou-se por um momento.
  - Pensou logo que podia haver alguma coisa tam-
bm para si - completou imperturbavelmente Poirot.
  - Isso... sim, senhor. Pensei que, se Mister Ack-
royd fosse extorquido, porque no haveria alguma coi-
sa tambm para mim?
  O rosto do mordomo adquiriu uma expresso mui-
to curiosa. Projectou-se para a frente.
  - E antes, tinha algum motivo para crer que Mis-
ter Ackroyd poderia ser vtima de chantagem?
  - Absolutamente nenhum, senhor. Foi uma gran-
de surpresa para mim! Um cavalheiro to perfeito so-
bre todos os aspectos!
  - Pde ouvir muito?
  - No muito, senhor. Quando pude encostar o
ouvido uma ou duas vezes  porta, no valeu a pena.
Da primeira vez saiu repentinamente o doutor Shep-
pard e, por puro acaso, no me surpreendeu em fla-
grante; da outra vez, Mister Raymond passou no vest-
bulo e tambm nada consegui quando fui com a
bandeja; Miss Flora impediu-mo.
  Poirot fixou-o demoradamente, como se quisesse
perscrutar-lhe a alma com o olhar. O mordomo nem
pestanejou.
  - Espero que acredite, senhor. Receava que a po-
lcia viesse a descobrir aquela velha histria do major
Ellerby e desconfiasse de mim.
  - Est bem - disse Poirot. - Estou disposto a
acreditar. Mas quero ver a sua caderneta do banco.
Tem uma, no  verdade?
  - Sim, senhor, e est aqui comigo.
  Sem a menor hesitao tirou do bolso uma cader-
neta com capa verde e apresentou-a ao belga que a
examinou.
  - Vejo que este ano adquiriu quinhentas libras de
ttulos do Tesouro!
  - Sim, senhor. Tenho mais de mil libras economi-
zadas...  o resultado das minhas relaes com... o

154 [ 155







meu amo de outrora, o major Ellerby. Alm disso, es-
te ano tive um pouco de sorte nas corridas. Lembra-
-se? Foi um cavalo no classificado que ganhou o Pr-
mio do Jubileu. Tive a sorte de apostar nele... vinte
libras.
  Poirot restituiu-lhe a caderneta.
  - Ento, at outro dia. Creio que falou verdade.
De contrrio, tanto pior para si!
  Logo que o mordomo saiu, Poirot retomou o so-
bretudo.
  - Vamos fazer agora uma pequena visita ao advo-
gado Hammond - props. - A histria de Parker 
bastante verosmil. Parece evidente julgar que a vtima
da extorso fosse o prprio Ackroyd. Se assim , quer
dizer que nada sabe do caso de Mistress Ferrars.
  - Nesse caso... quem...
  - Precisamente! Quem? Mas a nossa visita ao ad-
vogado definir a questo. Ou libertar Parker total-
mente de qualquer suspeita ou...
  - Ento?
  - Esta manh voltei ao antigo hbito de no com-
pletar as frases - disse Poirot em tom de desculpa.-
Tem de perdoar-me.
  - A propsito - exclamei, acanhadssimo.-
Devo fazer-lhe uma confisso: fui indiscreto a respeito
do anel.
  - Que anel?
  - O que o senhor achou no lago dos peixes dou-
rados.
  - Ah! Sim? - exclamou ele sorrindo.
  - Espero que no se zangue.
  - Nada, meu amigo. Absolutamente nada. No o
proibi de falar. O senhor podia contar esse facto. Creio
que a sua irm deve ter ficado interessadssima.
  - Foi para ela uma notcia verdadeiramente sensa-
cional! Deu lugar s mais desencontradas hipteses.
  - Todavia, a coisa  simples. A verdadeira expli-
cao salta diante dos olhos, no lhe parece?

  - Parece-lhe simples?
  - O homem sbio no se compromete - obser-
vou. - Mas vamos ao escritrio do advogado.
  Hammond estava no escritrio. Levantou-se e
cumprimentou-nos no seu modo preciso e lacnico.
  Poirot entrou logo no assunto.
  - Desejaria obter uma informao se quiser ter a
bondade de ma prestar. Tratou dos interesses da de-
funda Mistress Ferrars, no  verdade?
  - Certamente. Todos os seus negcios passaram
pelo meu escritrio.
  - Muito bem. Agora desejaria que ouvisse quanto
o doutor Sheppard vai expor-lhe. No tem dificuldade
em repetir, doutor, a conversao que teve, sexta-feira,
com Mister Ackroyd?
  - Pelo contrrio! - e repeti a narrativa da trgica
noite.
  O advogado ouviu-me com vivssima ateno.
  -  tudo! - exclamei, ao terminar.
  - Uma extorso - disse o advogado pensativo.
  - Surpreende-o? - perguntou Poirot.
  O advogado tirou os culos e limpou-os com o leno.
  - No muito - respondeu.
  - H algum que possa dar uma ideia certa das
quantias desembolsadas?... - inquiriu Poirot.
  - No tenho dificuldade em fornecer-lhe as infor-
maes que solicita - respondeu o advogado depois
de um momento de hesitao. - No ano passado,
Mistress Ferrars mandou vender alguns ttulos. Visto
o seu rendimento ter sido bastante vultoso e ela depois
da morte do marido ter levado uma vida simples, su-
ponho que essas quantias tenham tido um destino
qualquer. Certa vez, procurei sond-la acerca desse as-
sunto e respondeu-me que tinha de ajudar alguns pa-
rentes pobres. No insisti. Sempre pensei que o di-
nheiro tivesse sido dado a qualquer mulher com
direitos sobre Arthur Ferrars.
  - E a quantia? - perguntou Poirot.

156 I 157







  - No total, parece-me que as quantias ascendem a
vinte mil libras.
  - Vinte mil libras, num ano! - exclamei.
  - Mistress Ferrars era riqussima - disse Poirot,
secamente - e o castigo que aguarda uma envenena-
dora no  nada agradvel.
  - H algo mais que lhe possa interessar? - per-
guntou o advogado.
  - No, muito obrigado - disse Poirot, levantan-
do-se. - Desculpe t-lo incomodado.
  - Ento? - perguntou o belga, logo que samos
do escritrio. - Que diz, agora, do nosso amigo Par-
ker? Com vinte mil libras julga que teria continuado a
servir de mordomo? Por minha parte, no creio. Pode-
ria tambm dar-se o caso de ter depositado o dinheiro
com outro nome; mas estou tentado a crer que nos te-
nha contado a verdade. Embora sendo canalha,  um
canalha modesto: no tem largas vises. Resta ainda a
possibilidade de Raymond ou do major Blunt.
  - Raymond no, certamente - protestei. - Sa-
be-se que se acha sem dinheiro e com quase quinhen-
tas libras de dvidas.
  - Isso, pelo menos,  o que ele diz.
  - Quanto ao major...
  - Quero dizer-lhe alguma coisa a respeito do nos-
so major - interrompeu o outro. -  da minha pro-
fisso fazer investigaes e fao-as. Aquela herana a
que ele se refere atinge mais ou menos umas vinte mil
libras. Que lhe parece?
  Fiquei to surpreendido que apenas pude formular
uma resposta.
  -  imposvel - disse por fim. - Uma pessoa
to conhecida como o major Blunt!
  Poirot encolheu os ombros.
  - Quem sabe? Decerto v as coisas mais longe do
que Parker. Devo admitir, no entanto, que no o ima-
gino autor de chantagem. Mas h outra possibilidade,
meu amigo, na qual nunca pensou.

  - Qual?
  - O fogo.  possvel que Ackroyd tenha destru-
do a carta, depois de o senhor ter sado.
  - No me parece verosmil - murmurei lenta-
mente. - Contudo pode ter mudado de ideias.
  Chegmos  porta de casa e senti-me no dever de
convid-lo para almoar. Pensava que Caroline ficava
satisfeita, mas  um verdadeiro problema agradar s
donas de casa. Parece-me que s tnhamos costeletas;
duas costeletas colocadas diante de trs pessoas  um
verdadeiro embarao. Minha irm no se intimida pe-
rante uma situao penosa. Com uma mentira bem ur-
dida, comeou a explicar a Poirot que aderira ao regi-
me vegetariano. Enalteceu com entusiasmo as delcias
das omeletas de nozes (que nunca experimentara) e co-
meu um pedao de queijo assado sobre uma torrada,
citando os perigos que derivam da alimentao carn-
vora.
  Mais tarde, quando fumvamos, inquiriu:
  - Rudolph Paton ainda no foi encontrado?
  - Onde iria desencant-lo?
  - Em Cranchester - respondeu Caroline.
  Poirot olhou-a atordoado.
  - Porqu em Cranchester?
  - Um membro do imenso exrcito dos nossos po-
lcias femininos viu-o ontem a si, num automvel, na
estrada de Cranchester - expliquei.
  A surpresa de Poirot desapareceu. Riu  vontade.
  - Foi uma simples visita ao dentista! Di-me um
dente, chego l e imediatamente deixa de doer-me.
Digo-lhe que voltarei noutra ocasio; desta vez respon-
deu que era melhor arranc-lo; insistiu e ganhou. Es-
tou certo que aquele dente no tornar a molestar-me.
  A seguir comemos a falar de Rudolph.
  -  um carcter fraco - insisti -, mas no  mau.
  - Ah! - exclamou Poirot. - Mas at onde chega
a fraqueza?
  -  verdade - interveio Caroline. - Jacques,

158   159







por exemplo... Fraco como ele , se eu no estivesse
sempre a cuidar dele...
  - Ouve, Caroline - atalhei irritado -, no podes
deixar-me em paz?
  - Tu s fraco, Jacques - continuou imperturb-
vel. - Tenho oito anos mais do que tu... Oh! no me
importa que Mister Poirot o saiba...
  - Sim? Nunca o teria pensado, Miss Caroline-
disse Poirot curvando-se galantemente.
  - Oito anos a mais. Por isso, sempre considerei
um dever cuidar de ti. Se, por infelicidade, tivesses re-
cebido uma m educao, s Deus sabe em que esp-
cie de desgraas poderias estar metido!
  - Talvez tivesse casado com uma linda aventureira!
  - Jacques est convencido de que o senhor julga
ter sido algum de casa que praticou o crime. Est en-
ganado. Na minha opinio, somente duas pessoas da
casa teriam tido a possibilidade de pratic-lo: Rudolph
Paton e Flora Ackroyd.
  - Mas, Caroline - protestei.
  - Jacques, no me interrompas. Sei o que digo.
Parker viu-a do lado de fora, junto  porta. Mas no
ouviu o tio de Flora dizer-lhe boa noite. Bem poderia
ter sido ela a criminosa.
  - Caroline!
  - No estou a dizer que o tenha feito. Digo que
poderia t-lo feito. Contudo, embora Flora seja como
todas as raparigas de hoje, sem respeito pelos que lhes
so superiores e julgam saber tudo, no a acharia ca-
paz de matar... nem um frango. Mister Raymond e o
major tm os seus libis. At aquela mulherzinha,
a Russell, parece ter um, o que  uma sorte para ela.
Quem ficaria ainda? Somente Rudolph e Flora! Digam
o que quiserem, eu no creio que Rudolph Paton seja
assassino. Um rapaz que conheo desde que nasceu!
  Poirot permaneceu em silncio. Quando por fim se
resolveu a falar, a sua voz parecia ter-se suavizado e
vir de longe.

  - Tomemos um homem, por exemplo, um ho-
mem comum que no tenha qualquer ideia criminosa
no corao. Mas nele, na profundidade da sua alma,
h um ponto fraco, um defeito moral. At o presente,
no teve modo de revelar-se.  possvel que nunca te-
nha ocasio; e, neste caso, viver respeitado e cercado
pela estima universal. Mas suponhamos que lhe acon-
tea qualquer coisa; que se encontre em dificuldades.
Ou que venha, por um acaso qualquer, a conhecer um
segredo de vida ou de morte, de algum. O seu pri-
meiro impulso ser o de falar e cumprir o seu dever de
homem honesto. Mas eis que o ponto fraco se mani-
festa;  uma boa ocasio para obter dinheiro em abun-
dncia. Precisa de dinheiro, deseja-o e v-o ao alcance
da sua mo! Nada tem a fazer. Basta calar-se, nada
mais: gua na boca! E assim comea. De dia para dia
a avidez do dinheiro cresce, agiganta-se. Quer mais e
sempre mais! Est como que inebriado, deslumbrado
pela mina de oiro que v diante dele, a seus ps. Tor-
na-se insacivel; e, na sua avidez, excede todos os li-
mites. Um homem pode ser apertado at onde quiser;
mas com uma mulher  preciso cautela; no se deve
chegar at ao exagero, porque a mulher tem no cora-
o o grande desejo de dizer a verdade. Quantos mari-
dos enganaram a mulher e levaram consigo, muito
quietos, o seu segredo para o tmulo! Quantas mulhe-
res, pelo contrrio, traram o marido e se abriram de
repente, lanando a verdade no rosto do prprio mari-
do.  por terem sido impelidas at ao extremo limite
do desespero. Num momento de abandono (do qual se
arrependero mais tarde) desprezam toda a prudncia,
toda a precauo e gritam a verdade, gesto que nesse
momento lhes causa grande alvio. Parece-me que 
este o nosso caso. A presso era muito forte. E assim,
morreu a galinha dos ovos de oiro. Mas no foi o fim.
O perigo do escndalo ameaava de muito perto o in-
divduo a que nos referimos. J no  o homem que
era antes; a sua fibra moral est muito debilitada. Est

160 [ 161







 beira do desespero; combate numa batalha em que
sabe que perder e est disposto a lanar mo de qual-
quer meio ao seu alcance, porque sabe que o escndalo
ser a sua runa total. E... est ali o punhal!
  Calou-se. No tentarei descrever a impresso pro-
duzida pelas suas palavras. Naquela anlise implac-
vel, havia qualquer coisa que despertou um vivo ter-
ror, tanto em mim como em minha irm.
  - Em seguida - prosseguiu lentamente -, desa-
parecido o perigo, voltar a si; voltar a ser normal,
afvel, socivel. Mas, se a necessidade surgir, ferir
outra vez!
  Finalmente, Caroline despertou.
  - O senhor refere-se a Rudolph Paton? - per-
guntou. -  possvel que tenha razo, mas acho que
no tem o direito de condenar um homem sem o ouvir.
  Naquele instante, vibrou a campainha do telefone.
Fui ao vesti'bulo e atendi.
  A seguir repus o auscultador no seu lugar, voltan-
do para a sala.
  - Mister Poirot - informei. - Prenderam um
indivduo em Liverpool cujo nome  Charles Kent e
julga-se que seja o desconhecido que foi visto em
Fernly, sexta-feira  noite. Querem que v imediata-
mente a Liverpool, para identific-lo.



CAPTULO XVIII

CHARLES KENT


  Meia hora depois, Poirot, o inspector Raglan e eu,
seguamos de comboio em direco a Liverpool.
O inspector estava visivelmente agitado.
  - Se outra coisa no conseguirmos, talvez possa-
mos obter algum indcio sobre o caso da extorso-
declarou com ar de jbilo. - A julgar pelo que infor-
maram pelo telefone, esse indivduo  um cadastrado e
dado aos estupefacientes. No deve ser difcil faz-lo
falar. Se houvesse um motivo, nada mais provvel do
que tivesse sido ele quem matou Mister Ackroyd.
Mas, nesse caso, porque continua Paton ausente?
A propsito, Mister Poirot, tinha razo a respeito das
impresses digitais. Eram de Mister Ackroyd. Tam-
bm tive essa ideia, mas abandonei-a por no me pare-
cer verosmil.
  No pude deixar de sorrir. Era muito clara a tenta-
tiva de Raglan para justificar-se.
  - E esse indivduo ainda no foi preso? - per-
guntou Poirot.
  - No. Acha-se detido por suspeitas.
  - E que diz?
  - Muito pouco - respondeu o inspector com
uma careta. - No  burro de todo. Insolncias, pro-
testos e nada mais.
  Ao chegarmos a Liverpool, vi Poirot entusiasma-
do. O intendente Hayes, que veio ao nosso encontro,
tivera a oportunidade de colaborar, anos antes, com o
belga num caso judicirio; e percebia-se que tinha
uma opinio exagerada a respeito da capacidade do de-
tective.
  - Agora que est aqui, Mister Poirot, temos a
certeza de avanar com rapidez - disse alegremente.
- Julgava que se tivesse retirado da profisso.
  - E verdade, meu caro Hayes,  verdade. Mas 
aborrecido no ter que fazer! No pode imaginar com
que monotonia os dias passam, um aps outro.
  - E assim, o senhor veio ver o nosso preso. Este 
o doutor Sheppard? Julga poder identific-lo, doutor?
  - No tenho a certeza - respondi.
  - Como conseguiram agarr-lo? - perguntou o
belga.
  - Transmitimos para toda a parte os dados conhe-
cidos. Foram tambm divulgados pela imprensa; o in-
162   163







divduo que apanhmos tem o sotaque americano e
no nega ter estado naquela noite nas proximidades de
King's Abbot. Mas nega-se a dizer-nos o motivo.
  - Poderei v-lo? - perguntou Poirot.
  O intendente piscou um olho com ar entendido.
  - Pode fazer tudo o que julgar necessrio. Noutro
dia, Japp, da polcia central de Londres, perguntou
precisamente pelo senhor. Disse que o soubera ocupa-
do mas no oficialmente. Onde est escondido o capi-
to Paton, pode diz-lo, Mister Poirot?
  - No sei se seria prudente - respondeu o belga
com leve afectao, enquanto eu mordia os lbios para
disfarar um sorriso.
  Fomos falar com o detido.
  Era um rapaz com cerca de vinte e dois ou vinte e
trs anos. Alto, magro, com um leve tremor nas mos,
demonstrava traos de considervel fora fsica que pa-
recia ter sido desperdiada.
  Tinha os cabelos pretos e olhos azuis, que fitavam
raramente o interlocutor. Sempre tivera a impresso
de encontrar na pessoa daquela noite qualquer coisa
que conhecia; mas se este era esse desconhecido, eu
estava redondamente enganado. No lembrava nin-
gum que eu conhecesse.
  - Vamos, Kent - disse o intendente. - Levante-
-se. Est aqui uma pessoa que veio visit-lo. Reconhe-
ce, pelo menos, um deles?
  O homem fitou-nos com olhar sombrio mas no
respondeu. Vi o seu olhar poisar-se incerto sobre cada
um dos trs, para depois se demorar em mim.
  - Ento, doutor - animou o intendente. - Que
diz?
  - A mesma altura - respondi - e, quanto ao as-
pecto geral, bem poderia ser o mesmo. Mais no posso
dizer.
  - Que diabo significa tudo isto? - perguntou o
detido. - Que tm contra mim? Vamos, falem! Que
suspeitam de mim?

Fiz um sinal afirmativo e alertei.
-  ele. Reconheo-lhe a voz.
- Reconhece-me a voz? Mas onde julga t-la ou-
vido?
  - Na sexta-feira  noite, perto do porto da villa
Fernly. Pediu-me que lhe indicasse o caminho que
conduz  villa.
  - Confirma-o? - perguntou-lhe o inspector.
  - No confirmo coisa alguma. Nada confirmarei,
enquanto no souber o que tm contra mim.
  - No leu os jornais destes ltimos dias? - inter-
veio Poirot que at ento ficara em silncio.
  O detido semicerrou os olhos.
  - Ah! Agora percebo; vi que mataram em Fernly
um velho qualquer. Tentam demonstrar que fui eu o
assassino!
  - Naquela noite voc esteve na villa - disse
o belga com calma.
  - Como sabe?
   -Poz isto - disse o detective, tirando do bolso
qualquer coisa que lhe aproximou dos olhos.
  Era a pena de pato que encontrara no quiosque do
jardim.
  Vendo-a, a fisionomia do detido transformou-se.
No pde reprimir um movimento instintivo, quase
como se quisesse estender a mo para agarr-la.
  - A   coca   - observou o belga. - No, meu
amigo, nada contm. Estava no cho do quiosque, on-
de a deixou cair naquela noite.
  O outro olhou-o vagamente.
  - Parece estar bem informado; mas lembre-se dis-
to: os jornais dizem que o velho foi morto entre as no-
ve e trs quartos e as dez.
  - Sim - admitiu Poirot.
  Raglan confirmou:
  - Absolutamente verdadeiro. Entre as nove e trs
quartos e as dez.
  - Ento no h motivo para que me mantenham

164   165







preso - disse o detido. - s nove e vinte e cinco en-
contrava-me longe de Fernly. Podem informar-se na
Coroa Larga que  uma taberna a dois quilmetros de
Fernly. Ainda mais, lembro-me de que provoquei, ao
chegar, o latido dos ces. E eram precisamente nove e
trs quartos.
  Raglan tomou algumas notas na caderneta.
  - Ento? - perguntou Kent.
  - Faremos investigaes - respondeu aquele.-
Se disse a verdade no ter de se arrepender. De qual-
quer modo, que foi fazer a Fernly?
  - Fui para encontrar-me com uma pessoa.
  - Quem?
  - No lhe diz respeito.
  - Oh! l-l! Meu rapaz, aconselho-o a responder
com melhores modos - advertiu o intendente.
  - Fui tratar de negcios meus e  tudo. Se posso
provar que me afastei antes de ser praticado o crime,
no tenho explicaes a dar  polcia.
  - O seu nome  Charles Kent? - perguntou Poi-
rot. - Onde nasceu?
  - Sou cidado britnico, puro sangue! - retor-
quiu.
  - Sim - confirmou o belga, pensativo. - Creio
que nasceu em Kent.
  O detido arregalou os olhos.
  - Porqu? Pelo meu nome? Por uma pessoa se
chamar Kent, conclui-se que nasceu nessa provncia?
Essa  boa!
  - Em certos casos, creio que isso acontece. Em
certos casos... creio que sabe o que quero dizer.
  Nas suas palavras e nos seus modos havia tantos
subentendidos, que os dois funcionrios no ocultaram
a surpresa. Quanto ao detido ficou vermelho como um
pimento e pareceu querer atirar-se a Poirot. Depois,
reflectiu e voltou-lhe as costas com uma gargalhada.
  Poirot fez um sinal de satisfao e dirigiu-se para a
porta, seguido dos dois funcionrios.

  - Iremos investigar as suas informaes - obser-
vou Raglan -, embora esteja convencido de que no
mentiu. Entretanto, ter de dizer-nos claramente o
que foi fazer a Fernly. Comeo a crer que desta vez
descobrimos o chantagista. Admitindo-se que o que
contou esteja certo, nada teria que ver com o assass-
nio. Quando foi preso, tinha no bolso dez libras,
quantia considervel para um tipo semelhante. Penso
due as tais quarenta libras foram parar aos seus bolsos.
E verdade que o nmero das cdulas no corresponde
mas, naturalmente, a primeira coisa que fez foi troc-
-las. Mister Ackroyd deve ter-lhe dado dinheiro e ele
procurou sumir-se o mais depressa possvel. Diga-me
uma coisa, Mister Poirot, que pretendia ao perguntar-
-lhe se era de Kent?
  - Nada, nada - respondeu o belga, tranquila-
mente. - Foi c uma ideia. Tornei-me famoso por es-
tas pequenas ideias.
     srio? - admirou-se Raglan.
  O intendente soltou uma gargalhada.
  - Ouvi o inspector Japp falar nisso mais de uma
vez.   Aquele diabo do Poirot e as suas pequenas
ideias! A mim parecem-me um tanto fantsticas  , cos-
tumava dizer,   mas, sempre contm qualquer coisa de
genial.   
  - Ora, o senhor est a brincar - disse Poirot,
modestamente. E, cumprimentando-os, saiu para a
rua.
  Jantmos ambos num restaurante. Sei agora que j
tinha diante de si toda a meada desenredada. Encon-
trara o ltimo fio que lhe faltava, para descobrir a ver-
dade.
  Mas, naquele momento, julgava que apenas tivesse
excessiva confiana em si prprio.
  O enigma que prendia agora a minha curiosidade,
era saber o que teria ido fazer naquela noite Charles
Kent  villa Fernly. Quanto mais formulava esta per-
gunta, tanto mais difcil se tornava encontrar a respos-
166 j 167







ta satisfatria. Por fim, no pude deixar de interrogar
o meu companheiro. A sua resposta foi imediata.
  - Eh!, meu amigo, isso j descobri.
  - Realmente? - exclamei, cptico.
  - Sim. Mas, neste momento, o doutor no me en-
tenderia, se lhe dissesse que naquela noite foi a Fernly
precisamente por ter nascido em Kent.
  - No percebo - confessei.
  - No, hem? - disse com ar de compaixo.-
Bem, depois compreender, quando for altura.



CAPTULO XIX

FLORA ACKROYD


  Na manh seguinte, no regresso das minhas con-
sultas, ouvi o inspector Raglan cumprimentar-me. Pa-
rei o carro e ele ps o p sobre o estribo.
  - Bom dia, doutor - disse. - Sabe que aquele
libi est de p.
  - Qual? O de Charles Kent?
  - Sim. A criada da Coroa Larga, que se chama
Salvina Jones, lembra-se perfeitamente. Escolheu, sem
hesitao, a fotografia dele entre cinco que lhe foram
apresentadas. Eram exactamente nove e trs quartos
quando entrou na taberna; e a Coroa Larga est situa-
da a dois quilmetros de Fernly. A rapariga afirmou
que estava bem provido de dinheiro; viu-o tirar do
bolso uma poro de notas. Isto surpreendeu-a bas-
tante, vendo que espcie de indivduo era, com os sa-
patos todos esburacados. A tem aonde foram parar as
quarenta libras.
  - E ele continua a negar-se a falar a respeito da
sua visita a Fernly?
  -  teimoso como um burro. Esta manh, troquei

alguns telegramas com o inspector Hayes, de Liver-
pool.
  - Poirot diz que sabe o motivo da ida de Kent 
villa, naquela noite - observei.
  - Ah! Sim? - exclamou o inspector, com viva
curiosidade.
  - Diz que esteve l por ter nascido em Kent.
  Senti verdadeiro prazer por suscitar em Raglan a
mesma desiluso que me causara a resposta do belga.
  Esboou um sorriso de escrnio, batendo na testa
significativamente:
  -  isto que ele tem um pouco mole. Coitado!
Por isso teve de retirar-se e vir morar para King's Ab-
bot. Talvez seja uma molstia de famlia. Tem um so-
brinho completamente doido.
  - Ah! Sim? - exclamei, surpreendido.
  - Sim. Nunca lhe falou nele? Calmo, dcil creio,
mas doido varrido, coitado.
  - Quem lho disse?
  No rosto de Raglan surgiu o mesmo sorriso.
  - Sua irm, Miss Sheppard. Foi ela quem mo
contou.
  Na verdade, Caroline  surpreendente. No sosse-
ga enquanto no conhece os mnimos pormenores, os
mais ntimos segredos familiares de cada um. Infeliz-
mente, nunca consegui transmitir-lhe certo senso de
convenincia que lhos faa guardar para si prpria.
  - Entre, inspector - convidei, abrindo a porti-
nhola do automvel. - Iremos  villa dos Larios e
levaremos as ltimas notcias ao nosso amigo.
  - Perfeitamente. Embora no regule bem, foi ele
quem me ps no bom caminho, a respeito daquelas
impresses digitais.  possvel que tenha disparatado,
quanto quele malandro do Kent; contudo, quem sa-
be... se nessa loucura haver alguma coisa til?
  Poirot, recebeu-nos com o seu habitual sorriso de
cortesia. Ouviu as informaes que lhe levvamos, fa-
zendo frequentes sinais com a cabea.

168 i 169







  - No h que dizer, o libi parece mais do que
sustentvel! - exclamou Raglan, mal-humorado.-
 difcil uma pessoa assassinar algum num determi-
nado lugar, enquanto se encontra noutro, a dois quil-
metros de distncia.
  - Vai p-lo em liberdade?
  - No  possvel mant-lo preso, sob a acusao
de ter obtido dinheiro desonestamente. Se se conse-
guisse provar alguma coisa...
  E atirou com raiva um fsforo para a grelha da
chamin.
  Poirot recolheu-o e colocou-o num cinzeiro. Mas
esse acto foi executado mecanicamente. Percebia-se
claramente que o seu pensamento estava voltado para
outras coisas.
  - Se fosse o senhor - disse por fim -, no o lar-
garia por enquanto.
  - Que quer dizer?
  Raglan olhou-o fixamente.
  - E o que digo. No lhe restituiria ainda a liber-
dade.
  - Julga que esteja envolvido no crime?
  - No creio... mas ainda no podemos ter a certeza.
  - Mas, no lhe disse h pouco...
  Poirot levantou a mo como para protestar.
  - Sim, sim, ouvi. No sou surdo... nem tolo, gra-
as a Deus! Mas o facto  que o senhor est partindo
de premissas erradas!
  Raglan fitou-o assombrado.
  - No compreendo. Sabemos que Mister Ack-
royd ainda vivia s dez menos um quarto.
  Poirot sacudiu a cabea com um breve sorriso.
  - Eu nada admito sem provas!
  - Est bem, mas sobre esse ponto temos o teste-
munho de Miss Ackroyd.
  - Nem sempre creio no que diz uma jovem...
nem quando  deliciosamente linda!
  - Ora! Parker viu-a sair!...

  - No - e a voz do detective, tornou-se subita-
mente spera e cortante. - Foi justamente isso que
ele no viu. Quis convencer-me com uma pequena ex-
perincia no outro dia, lembra-se, doutor? Parker viu-
-a   fora da porta   com a mo sobre a maaneta. Mas
no a viu sair do escritrio.
  - Ento, donde vinha ela?
  - Talvez da escada.
  - Da escada?
  - Sim,  uma dessas minhas ideias.
  - Mas aquela escada conduz apenas ao quarto de
Mister Ackroyd!
  - Precisamente.
  Raglan continuava a fit-lo admirado.
  - O senhor julga que tenha subido at ao quarto
de dormir do tio? Est bem,  possvel. Mas que inte-
resse t ria em mentir?
    - Eis o ponto principal da questo. Depende sim-
plesmente do que foi fazer quele quarto, no lhe pa-
rece?
  - O dinheiro... Diabo! No querer insinuar, na-
turalmente, que foi ela quem se apropriou das quaren-
ta libras?
  - Nada quero insinuar - respondeu Poirot.-
Mas quero que tenha presente somente isto: para am-
bas, me e filha, a vida no era nada fcil. Contas a
pagar... aborrecimentos contnuos por causa de peque-
nas quantias. E, Mister Ackroyd, em questes de di-
nheiro tinha certas ideias.  possvel que a jovem te-
nha sido levada ao desespero, talvez por uma quantia
relativamente modesta. Imagine o que pode ter acon-
tecido: agarrou o dinheiro e desceu a escada; chegando
ao meio desta, ouviu um tilintar de copos, provenien-
tes do vesu'bulo; sabe do que se trata...  Parker que
se dirige para o escritrio; custe o que custar, ningum
deve v-la na escada... de outro modo, Parker achar
estranho o acontecimento e no o esquecer. Quando
se souber que o dinheiro desapareceu,  certo que o

170   171







mordomo se lembrar de t-la visto na escada. Apenas
tem tempo de precipitar-se para a porta do escritrio,
agarrar a maaneta, e fingir que vinha a sair, justa-
mente no momento em que o criado aparece na soleira
do pequeno corredor. Diz o que lhe acode  mente; re-
pete as ordens dadas por Mister Ackroyd, cerca de
uma hora antes e sobe para o seu quarto.
  - Sim, mas mais tarde - insistiu o inspector-
devia ter percebido a importncia vital de dizer a ver-
dade! Todo o problema gira sobre este ponto.
  - Mais tarde - continuou Poirot - surgem as
dificuldades para Flora. Comunicam-lhe repentina-
mente que houve um furto e que a polcia chegou. Na-
turalmente, concluiu logo que foi descoberto o   seu  
furto. S tem uma ideia: defender, custe o que custar,
a sua comdia. Quando lhe anunciam a morte do tio
deixa-se abater pelo terror. Ah! meu caro senhor, as
raparigas de hoje no desmaiam to facilmente; a no
ser que haja algum motivo verdadeiramente importan-
te. Ei-la diante do dilema: ou continuar no seu fingi-
mento, ou dizer toda a verdade. E uma linda rapariga
no pode estar muito disposta a declarar que  uma la-
dra; principalmente, diante daqueles cuja estima dese-
ja conservar.
  Raglan bateu com o punho sobre a mesa.
  - No posso acreditar! - exclamou. - O senhor
sabe isso h muito?
  - Esta possibilidade acudiu-me desde o princpio
- admitiu Poirot. - Tive sempre a convico de que
ela ocultava qualquer coisa e fiz a experincia de
que lhe falei; o doutor assistiu a ela.
  Raglan levantou-se.
  - S h uma coisa a fazer - declarou. - Temos
de abordar a jovem e obrig-la a falar! Quer ir comigo
a Fernly, Mister Poirot?
  - Certamente. O doutor levar-nos- no seu carro.
  Concordei de boa vontade.
  Dissemos que queramos falar a Miss Ackroyd e

fomos introduzidos na sala de bilhar. Flora e o major
estavam sentados no amplo sof, junto  janela.
  - Bom dia, Miss Ackroyd - saudou Raglan.-
Temos necessidade de falar-lhe em particular.
  Blunt, levantou-se imediatamente, dirigindo-se pa-
ra a porta.
  - Que h? - perguntou Flora, nervosamente.-
No saia, major. No pode ficar? - perguntou, diri-
gindo-se a Raglan.
  - Como quiser, Miss Flora - respondeu este, em
tom spero. - O dever obriga-me a fazer-lhe algumas
perguntas, de preferncia em particular.
  A jovem fitou-o intensamente e via-a empalidecer.
  A seguir, dirigiu-se ao major:
  - Desejo que fique. Sim, peo-lhe. Seja o que for
que o inspector tenha a dizer-me, prefiro que o senhor
estej preserft.
  Raglan encolheu os ombros.
  - Como quiser. Mister Poirot, aqui presente, le-
vou-me a considerar uma importante circunstncia.
Na sexta-feira  noite, Miss Flora no entrou no escri-
trio e, portanto, no pode ter visto seu tio, para dese-
jar-lhe boa-noite; quando ouviu Parker atravessar o
vestbulo, Miss Flora encontrava-se na escada que
conduz ao quarto de Mister Ackroyd.
  Flora olhou para Poirot que fez um sinal afirmati-
vo e disse:
  - No outro dia, Miss Ackroyd, quando estvamos
sentados em torno da mesa, supliquei-lhe que fosse
franca comigo. O que no se quer dizer ao pap Poi-
rot, ele acabar por descobrir. Era isto, no  verdade,
que queria ocultar-me? Bem, procurarei auxili-la! Foi
Miss Flora quem tirou o dinheiro, no  verdade?
  - O dinheiro? - exclamou Blunt.
  Seguiu-se um silncio que demorou, pelo menos,
um minuto.
  Depois, a jovem, erguendo-se, disse:
  - Mister Poirot tem razo: tirei aquele dinheiro.

172   173







Sou uma ladra... Estou satisfeita que se tenha desco-
berto. Foi um verdadeiro pesadelo para mim, nestes
ltimos dias.
  Repentinamente, deixou-se cair no sof, ocultando
o rosto nas mos. Depois, em voz sufocada, conti-
nuou:
  - Os senhores no podem saber o que foi a minha
vida nesta casa. Continuamente assediada por uma
multido de necessidades, ter de torturar a mente, pa-
ra satisfaz-las: mentir, enganar, contrair dvidas, pro-
meter pag-las... Quando penso nisto, sinto verdadei-
ro dio e desprezo por mim prpria! Foi isto que me
levou a um entendimento com Rudolph. Ambos ra-
mos fracos! Eu compreendia-o perfeitamente. E fiquei
triste... porque me encontrava ao mesmo nvel. No,
no somos bastante fortes, para ficarmos ss, tanto
ele, como eu. Somos criaturas dbeis, infelizes, des-
prezveis!
  Olhou para o major e subitamente, inquiriu:
  - Porque me olha dessa maneira, como se no pu-
desse acreditar? Posso tambm ser uma ladra... mas j
no tenho necessidade de mentir. No preciso mais de
fingir ser a ingnua e inocente que lhe agrada. No me
importa que o senhor no queira voltar a ver-me. Qua-
se sinto dio e desprezo por mim. Apesar de tudo,
deve acreditar numa coisa: se tivesse tido esperana de
melhorar a sorte de Rudolph, dizendo a verdade, teria
falado clara e destemidamente. Pelo contrrio, a mi-
nha confisso torna a situao ainda pior. No lhe faria
mal algum, insistindo no meu fingimento.
  - Rudolph - interrompeu Blunt. - Sempre Ru-
dolph.
  - O senhor no compreende - respondeu a jo-
vem com ar desolado - e nunca conseguir com-
preender.
  Em seguida, dirigindo-se novamente a Raglan, disse:
  - Confirmo tudo, tinha necessidade de dinheiro;
estava reduzida ao desespero. Naquela noite, depois

de meu tio se levantar da mesa, no o tornei a ver.
Quanto ao dinheiro, podem fazer o que quiserem.
Pior do que isto, no poder ser!
  Subitamente, teve uma nova crise de choro. Ocul-
tou o rosto nas mos e fugiu da sala.
  - E assim - observou Raglan desconcertado-
ela tambm est no seu lugar.
  Parecia estar indeciso sobre o que havia de fazer.
  O major avanou e disse calmamente:
  - Oia, inspector, aquele dinheiro foi-me entregue
por Mister Ackroyd para um fizn particular. Miss Ack-
royd nunca lhe mexeu. Est mentindo na esperana de
defender o capito Paton. A verdade  esta e estou dis-
posto a ir para o banco das testemunhas prestar jura-
mento - curvou-se e saiu da sala.
  Poirot voou atrs dele. Alcanou-o no vestbulo.
  - Eh!  i Iajor, um momento, rogo-lhe, tenha a
bondaie 
  Era evidente que o major estava extremamente
nervoso. Fixou o detective franzindo a testa. Este dis-
se-lhe:
  - No me deixo enganar pela sua inveno! Foi
realmente Flora quem tirou o dinheiro. No entanto,
foi bem arquitectado e o que o senhor diz... agrada-
-me.  bonito o que fez. V-se que  rpido nas suas
decises; no menos pronto a pensar do que a agir.
  - A sua opinio deixa-me perfeitamente indiferen-
te. Obrigado - respondeu o outro com frieza.
  Fez um movimento de retirada, mas Poirot, nada
ofendido, ps-lhe a mo no brao e reteve-o.
  -  preciso que me oia: tenho outra coisa a di-
zer-lhe. H dias, falava-se de segredos... de subterf-
gios. Eu sempre vi o que o senhor procurava ocultar.
O senhor est doidamente apaixonado por Flora, des-
de o primeiro momento que a viu, no  assim? Mas
procura ocultar a todos o seu amor. Isso fica-lhe
bem... Mas aceite o conselho de Hercule Poirot... no
o oculte  interessada.

174   175







  O major manifestara diversos sinais de impacin-
cia, enquanto o detective falava. Mas as ltimas pala-
vras pareciam ter-lhe despertado a ateno.
  - Que quer dizer com isso? - perguntou com as-
pereza.
  - O senhor julga que ela esteja apaixonada pelo
capito Rudolph Paton... mas eu, Hercule Poirot, di-
go-lhe que no  o caso. Miss Flora aceitou o capito
Paton, somente para agradar ao tio; e porque via, no
casamento, o meio de sair de uma existncia que, fran-
camente, se lhe tornara cada vez mais insuportvel.
Ele era-lhe simptico e entre os dois havia muita com-
preenso. Mas, amor... no! No  ao capito Paton
que Flora ama!
  - Que quer dizer com isso? - perguntou Blunt.
  - Que o senhor tem sido um cego, meu caro ma-
jor! Rudolph est sob a ameaa de uma grave suspeita
e ela faz questo de no o abandonar neste momento.
  Percebi que chegara a ocasio de tomar a palavra.
  - Uma noite destas - intervim num tom encora-
jador - minha irm disse-me que Flora no se impor-
tava com Rudolph e que nunca se importaria com ele.
E nestas coisas, minha irm tem sempre razo.
  Mas Blunt no fez caso das minhas boas intenes.
  - O senhor julga... - comeou, dirigindo-se a
Poirot; mas no soube continuar.
   um desses homens de poucas palavras a quem
 muito difcil exprimir os pensamentos.
  Poirot, pelo contrrio, no conhece essas dificul-
dades.
  - Se no acredita, pergunte-lho directamente.
Mas talvez o senhor j no se interesse. A histria do
dinheiro...
  - O senhor pensa que essa tolice possa impressio-
nar-me? Roger teve sempre ideias estranhas a respeito
de dinheiro. Talvez ela se tenha encontrado em apuros
e no tenha ousado diz-lo. Pobre pequena!
  Poirot ficou um momento pensativo e olhou para a
porta lateral.

  - Flora foi para o jardim, parece-me.
  - Fui um tolo - respondeu o major subitamente.-
O senhor  um homem de bem, Mister Poirot. Obri-
gado.
  Estendeu a mo ao belga e apertou-a de tal modo
que este estremeceu de dor. Em seguida, dirigiu-se pa-
ra a porta lateral e passou para o jardim.



CAPTULO XX

MRS. R USSELL


  O ins_pes.tr Raglan recebera um rude golpe. Tam-
bm ele no se deixara enganar pela generosa mentira
do major.
  - Isto vem mudar inteiramente o aspecto da ques-
to. No sei se j percebeu isto, Mister Poirot?
  - J h algum tempo me habituara a essa ideia-
respondeu este.
  Raglan, para quem a ideia ocorrera apenas meia
hora antes, olhou com tristeza para o outro e prosse-
guiu nas suas descobertas.
  - Todos ac ueles libis nada valem agora; absolu-
tamente nada! E preciso comear de novo. Verificar o
que cada um fez, das nove e meia em diante. s nove
e meia... esta  a hora que devemos ter em conta.
O senhor tinha razo a respeito de Charles Kent... por
enquanto, no lhe ser restituda a liberdade. Vejamos
um instante: s nove e quarenta e cinco minutos, en-
contrava-se na Coroa Larga.  possvel que tenha em-
pregado quinze minutos para chegar at l, se fez o
trajecto corrente.  bem possvel que fosse dele a voz
que Mister Raymond ouviu na ocasio em que, natu-
ralmente, falava a Mister Ackroyd e pedia dinheiro.
Mas uma coisa  evidente. No foi ele quem telefonou

176   177







ao doutor. A estao encontra-se a quase um quilme-
tro de distncia da Coroa Larga e ele esteve na taberna
at, mais ou menos, s dez e dez. Maldito telefonema.
Acabamos sempre por empear nele!
  - Efectivamente - concordou o detective - 
um facto curioso. Paton entrou no escritrio do tio
e, encontrando-o assassinado, decidiu telefonar. Depois,
assustado, pensou na possibilidade de ser acusado e
tratou de pr-se a salvo.  admissvel, no lhe parece?
  - Porque havia de telefonar?
  - Talvez porque no tivesse a certeza de que o ve-
lho est vesse realmente morto. Ento, pensou chamar
o doutor, com a maior brevidade possvel, mas no
quis dar-se a conhecer. Que diz desta hiptese? Pare-
ce-me no lhe faltar um fundamento de verdade.
  O inspector inchou o peito. Estava to satisfeito
consigo prprio, que qualquer objeco teria sido in-
til. Precisamente naquele momento, chegmos defron-
te da minha casa e apressei-me a ir para o consultrio
onde, havia bastante tempo, vrios clientes me espera-
vam, deixando que Poirot e Raglan fossem ao posto
policial.
  Depois de ter despedido o ltimo cliente, fui para
o pequeno quarto a que chamo a minha oficina. Sinto-
-me um tanto orgulhoso do aparelho de rdio que con-
segui fabricar sozinho. Caroline tem uma acentuada
antipatia pela   oficina  . Ali esto as minhas ferramen-
tas e Anny est proibida de entrar l com a sua vassou-
ra e a sua p. Estava consertando o mecanismo de um
despertador que em casa fora declarado inaudvel,
quando a porta se abriu e apareceu a cabea de minha
irm, anunciando:
  - Chegou Mister Poirot, que deseja falar-te.
  - Est bem - respondi um tanto irritado; porque
o seu aparecimento me fizera estremecer e deixara cair
uma pea delicada do mecanismo. - Se deseja falar-
-me, diz-lhe que venha at c.
  - Aqui? - perguntou minha irm.

  - Sim, aqui mesmo.
  Caroline retirou-se com um gesto de desaprovao.
Momentos depois introduziu o detective. Saiu de no-
vo, batendo com a porta.
  - Eh! Meu amigo - disse Poirot, avanando e es-
fregando as mos. - O senhor no se pode livrar to
facilmente de mim, como v!
  - Terminou com Raglan? - perguntei.
  - De momento, sim. E o senhor j atendeu todos
os clientes?
  - J estou despachado.
  Poirot sentou-se e fitou-me reclinando a cabea
oval, com o jeito de quem antegoza uma brincadeira
agradvel.
   - Engana-se - disse. Ainda h um que tem de
atendr.
  - O senhor, talvez? - exclamei com surpresa.
  - Eh!, no. Sinto-me muito bem. Para dizer-lhe a
verdade, trata-se de uma pequena esperteza minha.
H uma pessoa que desejo ver e, ao mesmo tempo,
no quereria que toda a vila viesse a saber disso; o que
aconteceria se essa pessoa fosse a minha casa, visto tra-
tar-se de uma mulher. Ao passo que j esteve aqui pa-
ra consult-lo.
  - Mistress Russell - exclamei.
  - Exacto. Preciso imenso de lhe falar; por isso,
enviei-lhe um bilhete, marcando um encontro no seu
consultrio. Desagrada-lhe?
  - Pelo contrrio - respondi. - Espero, porm,
poder assistir ao colquio.
  - Certamente, visto que se efectua no seu consul-
trio.
  - Em resumo:  um caso complicado - observei,
depondo a pina que tinha na mo. - Cada nova des-
coberta  como um caleidoscpio: o quadro muda in-
teiramente de aspecto. E porque deseja falar com Mis-
tress Russell?
  Poirot arqueou as sobrancelhass.

178   179







  -  to evidente - murmurou.
  - Sempre a mesma coisa! - resmunguei. - Na
sua opinio, tudo  evidente. Mas deixa-me vaguear
desnorteado no nevoeiro.
  Sacudiu a cabea bondosamente.
  - O senhor est caoando comigo. Tomemos, co-
mo exemplo, o caso de Flora; Raglan ficou surpreso,
mas o senhor... o senhor... no.
  - Nunca sonhei que fosse uma ladra - respondi.
  - Isso no, talvez. Mas eu perscrutava-lhe bem a
fisionomia e o senhor no se mostrava estupefacto
e incrdulo, como o inspector Raglan.
  Fiquei pensativo por um instante.
  - Talvez tenha razo - concordei por fim.-
Sempre tive o pressentimento de que Flora ocultasse
qualquer coisa: por isso, quando apareceu a vrd de,
inconscientemente, talvez j a esperasse. Todavia, pr--
turbou bastante o inspector.
  - Efectivamente. Ter de reorganizar as suas teo-
rias. Aproveitei o seu caos mental para induzi-lo a
prestar-me um pequeno servio.
  O detective tirou do bolso uma folha de papel. Ne-
la estavam escritas algumas palavras que leu em voz al-
ta:   H dias que a polcia procura o capito Paton,
residente na villa Fernly, em King's Abbot, sobrinho
de Mr. Ackroyd morto, como se sabe, na sexta-feira,
em trgicas circunstncias. O capito foi visto em Li-
verpool, onde estava para embarcar com destino 
Amrica.   
  Dobrou com cuidado a folha de papel.
  - Esta notcia, meu amigo, aparecer nos jornais,
amanh de manh.
  Fitei-o assombrado.
  - Mas... no  verdade! Ele no est em Liver-
pool!
  Poirot olhou-me a sorrir.
  - O senhor compreende imediatamente as coisas.
Custou a convencer Raglan a mandar esta notcia para

a imprensa; sobretudo porque no podia p-lo ao par
das minhas confidncias. Mas como lhe garanti do
modo mais formal que desta notcia derivariam resul-
tados interessantssimos, logo que fosse publicada,
cedeu; com a condio de no ser de modo algum res-
ponsabilizado.
  - No chego a compreender o que espera conse-
guir - acabei por dizer-lhe.
  - Utilize a sua massa cinzenta - desafiou.
  Levantou-se e aproximou-se da mesa de trabalho.
  - V-se que tem uma verdadeira paixo pela me-
cnica - observou depois de ter examinado o produto
das minhas fadigas.
  Cada um tem as suas predileces. Apressei-me a
chamar a ateno do detective para o aparelho de rdio
de minha fabricao. Vendo que lhe interessava, mos-
trei-lhe duas coisas de minha inveno, brincadeiras,
mas muito teis em casa.
  - Decididamente - observou ele - o senhor de-
veria ser inventor de profisso e no mdico... Ouvi a
campainha; deve ser a cliente. Vamos para o consul-
trio.
  J me tinham surpreendido os traos de beleza que
ainda se notavam no rosto da governanta. Naquele
dia, fiquei novamente impressionado. Vestia modesta-
mente de preto; alta, aprumada e altiva como sempre,
com os grandes olhos negros e um inslito rubor no
rosto, geralmente plido. Percebia-se que deveria ter
sido muito linda, quando nova.
  - Bom dia, minha senhora - disse Poirot.-
Sente-se, faa favor. O doutor Sheppard teve a amabi-
lidade de pr  minha disposio o seu consultrio,
para uma pequena palestra que desejo manter consigo.
  Sentou-se com a sua habitual compostura.
  - Permita que o diga, mas o seu modo de agir pa-
rece um tanto singular - observou.
  - Mistress Russell, tenho uma notcia a dar-lhe...
  - Ah! Sim?

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  - Prenderam Charles Kent em Liverpool.
  O seu rosto permaneceu impassvel; nem um ms-
culo se alterou. Abriu um pouco mais os olhos e per-
guntou:
  - E que tenho eu com isso?
  Repentinamente, passou-me pela mente a seme-
lhana que h muito me atormentava; havia no seu ar
provocante, qualquer coisa anloga  que mostrara
Charles Kent. As duas vozes, uma spera e desagrad-
vel, a outra dolorosamente senhoril, apresentavam es-
tranha semelhana de timbre. Fora justamente
Mrs. Russell quem me levara a pensar no encontro da-
quela noite, perto da entrada da villa Fernly.
  Muito satisfeito com a minha descoberta, olhei
Poirot, que me fez um leve sinal de confirmao.
  - Oh! - respondeu este com a mxima calma.-
Julgava que esta notcia a interessasse, nada mais.
  - No me interessa de modo particular - respon-
deu ela. - Em todo o caso quem  esse Charles Kent?
  -  um indivduo que na noite do crime se en-
contrava em Fernly.
  - Sim!?
  - Felizmente, tem um libi. s nove e quarenta e
cinco, encontrava-se numa taberna distante daqui.
  - Melhor para ele - comentou Mrs. Russell.
  - Contudo, no se sabe o que veio fazer a Fern-
ly... com quem foi encontrar-se, por exemplo.
  - Sinto bastante, mas no posso ser-lhe til-
disse a governanta, cortesmente.
  Fez um movimento como se quisesse levantar-se.
Mas Poirot reteve-a.
  - No  ainda tudo - continuou calmamente.-
Esta manh foram feitas outras descobertas. Parece
que Ackroyd no foi assassinado s nove e quarenta e
cinco e sim   antes  . Entre as nove menos dez (quando
o doutor o deixou) e as nove e quarenta e cinco.
  A cor das faces da governanta desapareceu repenti-
namente e o seu rosto tornou-se cadavrico. Dobrou-
-se para a frente com o corpo agitado por um tremor
nervoso.
  - Mas Miss Ackroyd - balbuciou - disse...
  - Miss Ackroyd confessou que mentira. Naquela
noite no esteve no escritrio.
  - Ento...?
  - Ento, parece que esse tal Charles Kent  o in-
divduo que procuramos. Esteve em Fernly, no apre-
senta qualquer explicao para o que foi fazer...
  - Posso explicar o que ele l foi fazer! No tocou
num cabelo do velho Ackroyd... nem sequer se apro-
ximou do escritrio. No foi ele, garanto-lhe - cur-
vou-se mais para a frente. Finalmente, aquele frreo
domnio de si prpria, fora quebrado: o terror e o de-
sespero estavam pintados no seu rosto.
  - Mister Poirot! Mister Poirot! Pode acredi-
tar-me.
  Este levantou-se e bateu-lhe no ombro.
  - Sim... acredito. Mas foi necessrio faz-la falar.
  Por instantes, um relmpago de desconfiana sur-
gira-lhe nos olhos.
  -  verdade o que me disse? - perguntou.
  - Que h suspeita de que Charles Kent tenha pra-
ticado o crime? Sim,  verdade. Somente a senhora o
pode salvar, dizendo o motivo que o levou a Fernly.

  - Foi encontrar-se comigo. - Falava em voz bai-
xa, apressadamente. - Eu sa para ir ter com ele...
  - No quiosque, bem sei.
  - Como conseguiu saber?
  - A profisso de Hercule Poirot  saber tudo. Sei
que s primeiras horas da noite saiu, a fim de deixar
no quiosque um bilhete avisando-o da hora em que se
encontraria a com ele.
  - Sim,  verdade. Tivera notcias dele. Dizia que
viria. No ousava deix-lo entrar em casa. Escrevi para
o endereo que me indicara, dizendo-lhe que o espera-
ria no quiosque, que descrevi de maneira a no lhe ser
difcil encontr-lo. Depois, receei que no quisesse es-
182   183







perar pacientemente; sa e deixei uma nota escrita para
avis-lo de que me encontraria l s nove e dez. No
queria ser vista pelas pessoas do servio. Por isso, sa
s escondidas, passando pela porta envidraada da sa-
la. Voltando, encontrei o doutor Sheppard e pensei
que talvez achasse o caso estranho. Estava anelante
por ter feito o trajecto a correr e no sabia que o dou-
tor era esperado para o jantar.
  Calou-se.
  - Continue - disse Poirot. - Saiu para se en-
contrar com ele s nove e dez. E que disseram?
  -  difcil, considere...
  - Senhora! - interrompeu o detective. - Numa
questo como esta, preciso de saber toda a verdade.
No  necessrio que o que disser saia destas quatro
paredes. O doutor Sheppard ser tambm discreto.
Charles Kent  seu filho, no  verdade?
  A cor subiu-lhe ao rosto.
  - Nunca ningum o soube. J se passaram tantos
anos, tantos... l em Kent. No era casada...

  - Assim, deu-lhe por apelido o nome da provncia
em que nasceu. Compreendo perfeitamente.
  - Encontrei trabalho e consegui ganhar o sufi-
ciente para a sua alimentao e hospedagem. Nunca
lhe disse que era me dele. Mas cresceu vicioso e mau.
Deu-se ao lcool e aos estupefacientes. Fiz tudo quan-
to me foi possvel. At que consegui mand-lo para o
Canad. Durante cerca de dois anos, no tive notcias;
depois, no sei como veio a descobrir que eu era sua
me. Escreveu-me a pedir dinheiro. Por fim, vim a sa-
ber que voltara. Queria vir procurar-me a Fernly,
segundo escreveu. Eu no ousaria deix-lo entrar em
casa. Sempre fui considerada... e irrepreensvel quan-
to  moralidade. Se algum tivesse descoberto o mni-
mo indcio desfavorvel, adeus lugar de governanta.
Por isso lhe escrevi, como expliquei h pouco.
  - Naquela manh a senhora veio procurar o dou-
tor Sheppard?

184

  - Sim. Queria saber se era possvel fazer alguma
coisa. No era mau rapaz antes de entregar-se aos es-
tupefacientes.
  - Est bem - observou Poirot. - Agora conti-
nue a sua narrativa. Ele foi naquela noite ao quios-
que...
  - Sim, estava  minha espera quando entrei. Tra-
tou-me mal e at me insultou. Levara comigo todo o
dinheiro que possua e entreguei-lho. Passemos um
pouco e depois foi-se embora.
  - Que horas eram?
  - Deviam ser nove e vinte ou nove e vinte e cin-
co. No eram ainda nove e meia quando reentrei em
casa.
  - Que direco tomou ao deix-la?
  - Tomou o caminho por onde viera, o qual vai
dar  estrada precisamente, perto da portaria.
  O detective fez um sinal de assentimento.
  - E a senhora, que fez?
  - Voltei para casa. Mas ao avistar o major Blunt,
que passeava de um lado para o outro no terrao, fu-
mando, tive de dar uma volta para chegar  porta late-
ral. No eram ainda nove e meia, como disse.
  Outro sinal de Poirot, que tomou algumas notas
num pequeno caderno que tirara do bolso.
  - Parece-me que  o bastante - observou pensa-
tivo.
  - Terei que contar isto  polcia? - perguntou ela
hesitante.
  - Talvez seja preciso. Mas no h pressa por en-
quanto. Vamos com ordem e com mtodo. De mo-
mento, Charles Kent no est formalmente acusado de
ter praticado o crime. Podem vir a surgir circunstn-
cias que tornem intil o seu depoimento.
  Mrs. Russell levantou-se.
  - Obrigada. Muito obrigada, Mister Poirot. O se-
nhor foi muito bom para mim... est convencido de
que Charles nada tem a ver com o assassnio.

185







  - Parece-me fora de dvida que o indivduo que
s nove e meia falava com Mister Ackroyd no pode
ter sido o seu filho. nimo, tenha coragem! Tudo ter-
minar bem, ver.
  A governanta saiu. Eu e Poirot ficmos ss.
  - Mistress Russell tambm est no seu lugar?-
observei. - Estamos ainda com Rudolph na mesma
situao. Como conseguiu saber que era ela a pessoa
que Charles Kent viera procurar? Notou talvez a se-
melhana?
  - Mentalmente, j a tinha relacionado com o des-
conhecido, antes de me encontrar com ele, cara a cara;
logo aps ter encontrado a pena de pato. A pena fez-
-me pensar nos estupefacientes e lembrei-me do que o
senhor me dissera a propsito da consulta de Mistress
Russell. No jornal desse dia encontrei depois o artigo
sobre a cocana: tudo ento me pareceu muito mais
claro. A governanta tivera notcias de algum dado a
estupefacientes... lera o artigo no jornal e resolvera vir
aqui para lhe fazer algumas perguntas a esse propsi-
to. Falou em cocana, visto o referido artigo tratar de
cocana. Depois, quando o senhor parecia interessar-se
muito, apressou-se em mudar de assunto, passando a
falar de romances policiais e de venenos que no dei-
xam vestgios. Tinha precisamente a desconfiana que
houvesse no caso um filho, um irmo ou algum outro
parente indesejvel. Eh! Estou na hora do almoo.
Adeus, doutor.
  - Fique connosco - propus.
  Sacudiu a cabea e piscou-me o olho.
  - Hoje no, obrigado. No quero condenar
Miss Caroline ao useu   regime vegetariano, dois dias
  seguidos.
  Novamente notei que quase nada escapava  arguta
  observao de Hercule Poirot.

CAPTULO XXI

A NOTCIA DO , ORNAL


  Como era de esperar, no passara despercebida a
Caroline a visita de Mrs. Russell ao meu consultrio.
Prevenido, preparei uma cuidadosa relao sobre a
molstia do joelho da governanta. Mas no viera dis-
posta a fazer perguntas. Julgava saber perfeitamente o
motivo daquela visita e que eu nada sabia.
  - Veio para te fazer falar, Jacques - disse - do
modo mais descarado. No me interrompas; estou cer-
ta de que nem te apercebeste: os homens so to ing-
nuos! Ela sabe que s confidente de Mister Poirot e
quis sondar o terreno. Sabes o que penso, Jacques?
  - Ainda no me deste tempo para imagin-lo.
Pensas sempre em tanta coisa!
  - Deixa-te de ironias. Estou convencida de que
Mistress Russell sabe mais sobre a morte de Mis-
ter Ackroyd do que quer revelar.
  Atirou-se para trs da poltrona, com ar vitorioso.
  - Tens a certeza disso? - perguntei distraida-
mente.
  - Hoje pareces imbecilizado, Jacques. No tens
vida, no tens energia.  o teu fgado que no funciona.
  Depois, a nossa conversa virou-se para assuntos
puramente pessoais.
  No dia seguinte, no jornal local, apareceu a notcia
inspirada por Poirot. Quanto ao seu objectivo, nada
sabia, mas o efeito que causou sobre Caroline foi enor-
me. Com o maior descaramento deste mundo, come-
ou a afirmar que sempre dissera o mesmo. Franzi as
sobrancelhas mas no a contradisse. Contudo, deve ter
tido um escrpulo de conscincia, porque acrescentou:
  -  possvel que no tenha mencionado Liver-
pool, mas sabia que ele procurava embarcar para a
Amrica. E assim, foi agarrado. Parece-me que  teu
dever, Jacques, no permitir que ele seja enforcado!

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  - Mas que posso eu fazer?
  - s ou no s mdico? Conheces o rapaz desde a
infncia.  moralmente irresponsvel.  evidente que
a orientao da defesa deve ser esta. H dias, li que no
manicmio de Broadmo se vive optimamente...  uma
espcie de recluso aristocrtica!
  - Nunca imaginei que Poirot tivesse um sobrinho
idiota - exclamei, com ironia.
  - Contou-me tudo.  um martrio para a famlia.
At ao presente foi sempre mantido em casa, mas o
seu estado chegou a tal ponto que temem ter de envi-
-lo para uma casa de sade.
  - Naturalmente, j sabes tudo a respeito da fam-
lia Poirot? - disse-lhe exasperado.
  - Ora - respondeu com satisfao. - Constitui
um grande alvio ter algum a quem contar os pr-
prios desgostos.
  -  possvel - observei. - Com a condio, po-
rm, de faz-lo espontaneamente. Agora deixar que
nos arranquem confidncias  outra questo.
  Caroline olhou-me com ar de mrtir.
  - Tu s sempre to enigmtico, Jacques! Tens
verdadeira repugnncia de falar com clareza e dizer o
que pensas; por isso julgas que os outros tambm so
assim. Acredita que nunca arranquei confidncias. Por
exemplo: se Mister Poirot vier hoje depois do jantar,
nem sequer sonho em perguntar-lhe quem foi a sua
casa, esta manh, bem cedo.
  - Esta manh, bem cedo?
  - Muito cedo, sem dvida. Antes de o leiteiro
chegar. Estava olhando pela janela... o vento levantara
o cortinado. Era um homem; desceu de um carro fe-
chado e estava de tal modo embuado que no pude
ver-lhe o rosto nem de fugida. Mas vou dizer-te o que
pensei e vers se no tenho razo.
  - Quem julgas que possa ser?
  Minha irm baixou misteriosamente a voz.
  - Um funcionrio do Ministrio do Interior-
murmurou.

  - Um funcionrio do Ministrio do Interior?1-
objectei, no auge do assombro. - Mas... Caroline!
  - Toma nota das minhas palavras e vers que te-
nho razo. A Russell esteve aqui, no dia do crime, pa-
ra te roubar venenos.  possvel que, naquela noite, os
alimentos de Roger Ackroyd estivessem envenenados.
  Soltei uma sonora gargalhada.
  - No digas tolices! - exclamei. - Foi apunha-
lado pelas costas. Sabes isso perfeitamente.
  - Sim, mas depois da morte; para desviar as in-
vestigaes.
  - Examinei o cadver e sei o que digo. Aquela
punhalada no foi vibrada depois da morte, mas preci-
samente o que o matou. Podes ter a certeza.
  Caroline continuava de tal modo na sua atitude
omnisciente que acabei por aborrecer-me:
  - Comeo a desconflar de que sejas tu quem pos-
sui o diploma de mdico.
  - Sei que o diploma  teu, Jacques, mas falta-te
imaginao.
  - Certamente que a Natureza, ao contar s conti-
go, no deixou nenhuma para mim.
  Naquela tarde diverti-me imenso a observar as ma-
nobras de minha irm, aps a chegada de Poirot. Em-
bora sem lhe fazer perguntas directas, abordava conti-
nuamente o assunto do hspede misterioso. Pelos
olhares divertidos do belga, pude observar que perce-
bera logo o objectivo de Caroline. Manteve-se sempre
corts, mas impenetrvel; e repeliu os ataques com tal
destreza que ela no soube como prosseguir.
  Depois levantou-se e props-me darmos uma volta.
  - Desejo emagrecer um pouco - explicou.-
Quer acompanhar-me, doutor? Talvez, mais tarde,
Miss Caroline nos prepare uma chvena de ch.
  - Com o mximo prazer - respondeu esta.-
Vir... tambm... o seu hspede?



  ' Em Inglaterra, a autoridade judiciria no pode tratar de
qualquer exu-
mao sem permisso especial do Ministrio do Interior.

188   189







  - Muito gentil, minha senhora. No, obrigado.
O meu amigo est a descansar. Espero que, mais tar-
de, venha a conhec-lo.
  - Disseram-me que  um velho amigo seu - ob-
servou minha irm, reunindo todas as suas foras para
o ltimo ataque.
  - Ah! Disseram-lhe? - murmurou Poirot.-
Bem, at logo.
  Dirigimo-nos para Fernly.
  Agora comeava a perceber os mtodos de Poirot.
A mnima coisa, aparentemente sem importncia, ti-
nha o seu valor no conjunto global.
  - Tenho um pedido a fazer-lhe, meu amigo-
disse o belga, rompendo o silncio. -  noite, haver
uma pequena reunio em minha casa. Ir, no  ver-
dade?
  - Certamente - respondi.
  - Muito bem. Mas  preciso que estejam tambm
presentes os da casa Ackroyd; isto , Mistress Ack-
royd, Flora, o major Blunt e Mister Raymond. Dese-
jaria que o doutor fosse o meu embaixador. A pequena
reunio est marcada para as nove. Quer fazer-me o
obsquio de convid-los em meu nome?...
  - Com a melhor vontade. Mas porque no os con-
vida pessoalmente?
  - Porque me fariam uma poro de perguntas:
Porqu? Com que fim? Que pensa? Sabe perfeitamen-
te, doutor, que me desagrada expor as minhas ideias,
antes da ocasio oportuna.
  Sorri.
  - O meu amigo Hastings, de quem j lhe falei,
costumava chamar-me o homem-ostra. Mas era injus-
to. No oculto nenhum facto. Deixo que cada um
apresente a sua interpretao.
  - Quando quer que eu faa esse convite?
  - Pode ser agora, se quiser. Estamos perto da villa.
  - E o senhor no entra?
  - No. Darei uma volta pelo parque e depois al-
can-lo-ei, dentro de um quarto de hora, junto ao
porto da entrada.
  Fiz um sinal de assentimento e dispus-me a cum-
prir o encargo. A nica pessoa da famlia que estava
em casa era Mrs. Ackroyd, que, embora ainda no
fossem nove horas, estava a tomar uma chvena de
ch. Recebeu-me com satisfao.
  - Agradeo-lhe tanto, doutor, por ter liquidado
aquele pequeno assunto com Mister Poirot. Esta vida
no  mais do que sequncia de aborrecimentos. Natu-
ralmente, j sabe a notcia acerca de Flora?
  - No sei - respondi, prudentemente.
  - Um novo noivado, com Hector Blunt! No ser
um bom partido como Rudolph. Mas  preciso pensar
na felicidade, como a primeira coisa deste mundo.
O que Flora precisa  de um homem de certa idade...
algum que seja srio, firme, ajuizado, e Hector  uma
pessoa muito distinta. Viu a notcia, no jornal desta
manh, sobre a priso de Rudolph?
  - Sim - respondi.
  -  terrvel! - Mrs. Ackroyd fechou os olhos,
toda arrepiada. - Raymond ficou profundamente
abalado e telefonou para Liverpool. Mas as autorida-
des no quiseram dar-lhe nenhuma informao; isto ,
responderam que Rudolph no estava preso. Ele insis-
te em afirmar que se trata de um engano, de uma ba-
lela dos jornais. Proibi que se fale no assunto na pre-
sena da criadagem. Que coisa horrvel! Imagine se
Flora fosse mulher dele!
  Fechou os olhos extenuada. Comecei a perguntar a
mim prprio quando poderia comunicar-lhe o convite
de Poirot.
  Antes que eu tivesse tempo para falar, comeou:
  - O senhor esteve aqui ontem, no  verdade,
com aquele odioso Raglan? Que homem brutal!... teve
a coragem de assustar Flora, acusando-a de ter rouba-
do o dinheiro do quarto do pobre Roger! E pensar que
na verdade a coisa era to simples. Apenas desejava al-
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gumas libras emprestadas e no queria incomodar o
tio, j que ele pedira que no o incomodassem. Pois
bem, sabendo onde se encontrava o dinheiro, foi bus-
car a quantia de que necessitava.
  - E o que Flora diz? - perguntei.
  - O senhor sabe como so as raparigas de hoje.
Deixam-se sugestionar com a mxima facilidade. Na-
turalmente, o senhor sabe muito melhor do que eu, o
que  a sugesto... O inspector comea a berrar, grita
e repete continuamente a palavra   roubo  , at que
Flora, impressionada, sugestionada, acaba por julgar
que realmente roubou. Percebi logo como as coisas se
passaram. Afinal, sinto-me satisfeita por esse mal-
-entendido, que parece ter aproximado mais os dois,
isto , Flora e Hector. Posso assegurar-lhe que andei
algum tempo inquieta por causa de Flora; parecia-me
que entre ela e o jovem Raymond havia uma espcie
de entendimento sentimental. Imagine! - e neste
ponto a voz de Mrs. Ackroyd transformou-se num es-
pasmo de horror. - Um secretrio particular e sem
dinheiro !
  - Teria sido um golpe doloroso para si - obser-
vei. - Queria dizer-lhe, Mistress Ackroyd, que tenho
uma comunicao a fazer-lhe da parte de Mister Poi-
rot.
- A mim! - perguntou alarmada.
Tranquilizei-a e expliquei-lhe o que o detective de-
se ava.
  - Certamente - anuiu ainda hesitante. - Creio
que  conveniente. Mas de que se trata?
  Garanti que no sabia mais do que ela.
  - Est bem. Comunicarei aos outros e s nove ho-
ras l estaremos todos.
  Depois disto, despedi-me e fui encontrar-me com
Poirot no lugar marcado.
  - Temo ter-me demorado mais de quinze minutos
- observei. - Mas quando aquela excelente senhora
comea a falar, torna-se extremamente difcil det-la
para intercalar uma palavra.

  - No importa - disse Poirot. - Distra-me bas-
tante. Este parque  magnfico.
  Dirigimo-nos para casa. Quando chegmos, Caroli-
ne veio abrir-nos a porta pois estava, evidentemente, 
nossa espera.
  Colocou um dedo nos lbios.
  - Ursula Bourne - disse -, a criada da villa
Fernly, est aqui! Fi-la entrar para a sala de jantar. Es-
t num estado desolador, coitadinha! Diz que precisa
falar imediatamente com Mister Poirot. Fiz por ela tu-
do quanto pude: dei-lhe uma chvena de ch quente.
  - Na sala de jantar? - perguntou o detective.
  - Por aqui - disse. E abri rapidamente a porta.
  Ursula estava sentada junto da mesa. Tinha os bra-
os abertos e via-se que levantara a cabea naquele
momento. Os seus olhos estavam vermelhos de chorar.
  - Ursula Bourne - murmurei.
  Mas, Poirot, passou-me  frente, estendendo as
mos.
  - No - exclamou -, no  Ursula Bourne,
mas, sim, Ursula Paton; a legtima esposa de Rudolph
Paton.



CAPTULO XXII

AS VICISSITUDES DE URSULA


  A jovem olhou para Poirot sem falar. Depois, con-
firmou e recomeou a chorar.
  Caroline empurrou-me para o lado e, cingindo-a
com o brao, acariciou-lhe levemente o ombro.
  - Ora vamos, querida - disse procurando acal-
m-la -, tudo se h-de arranjar, ver. Ver que tudo
terminar bem! ...
  Apesar da sua irrefrevel curiosidade, apesar do

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seu amor  maledicncia, minha irm tem um corao
de oiro.
  Ursula criou nimo e enxugou os olhos.
  - Sei que  uma fraqueza da minha parte - ex-
clamou.
  - Ns todos podemos fazer ideia de quanto deve
ter sofrido - disse, cortesmente, Poirot.
  - Deve ter sido uma prova horrvel - observei.
  - E depois descobrir que o senhor sabia! - conti-
nou a jovem. - Como soube? Foi Rudolph quem lho
disse?
  O belga sacudiu a cabea.
  - Sabe o que me fez vir aqui? - prosseguiu.-
Isto...
  Estendeu a mo, entregando um recorte de jornal
todo amarfanhado, em que pude reconhecer a notcia
que Poirot mandara publicar.
  - Diz que Rudolph foi preso. Agora tudo  intil!
No tenho necessidade de continuar a fingir.
  - Nem sempre so verdadeiras as notcias dos jor-
nais, minha senhora - murmurou Poirot, sentindo-se
um pouco envergonhado pelo que fizera. - De qual-
quer maneira  creio que far bem contando tudo
quanto sabe. E a verdade completa que precisamos co-
nhecer.
  A jovem hesitou e olhou tubeante.
  - Ento, no confia em mim? - perguntou Poi-
rot com doura. - Todavia, a senhora veio aqui  mi-
nha procura.
  - No acredito que tenha sido Rudolph quem
praticou o crime - respondeu em voz baixa. - Julgo
que o senhor  muito hbil e, por isso, capaz de desco-
brir a verdade. E tambm...
  - Sim?
  - Porque me parece que  um homem de corao.
  Poirot fez repetidos sinais de confirmao.
  - Fez bem, muito bem. Oia; estou plenamente
convencido de que seu marido est inocente, mas as

  coisas esto mal dispostas. Pois bem: para salv-lo, 
  necessrio que eu saiba tudo quanto h para saber...
  mesmo que, na aparncia, parea desfavorvel.
  - Como compreende bem as coisas! - disse a
  jovem.
  - Portanto, a senhora contar tudo desde o prin-
  cpio, no  assim?
  - Espero que no me mandem embora - inter-
  veio Caroline, acomodando-se tranquilamente numa
  poltrona. - O que desejaria saber - prosseguiu - 
  por que motivo se disfarava de criada.
  - Disfarava-se? - perguntei.
  -  justamente o que eu disse. Porqu?
  - Para viver - respondeu Ursula - com simpli-
  cidade.
  E assim, tomando coragem, comeou a narrativa
  que aqui repito por palavras minhas.
t
  Ursula Bourne era uma das numerosas filhas de
  uma nobre famlia irlandesa arruinada. Depois
  da morte do pai, algumas das raparigas saram de casa
   procura de trabalho. A mais velha das irms casara
  com o capito Folliot. Era a que eu vira no domingo
  anterior; e, agora, podia explicar plenamente o seu
  embarao. Resolvida a ganhar a vida e no querendo ser
  governanta, nico caminho aberto para uma jovem
  sem aptides especiais, Ursula preferiu tornar-se cria-
  da. Para referncias, dava o nome da irm. Em Fern-
  ly, no obstante o seu retraimento como se viu, provo-
  cava alguns comentrios. Desempenhava optimamente
  as suas obrigaes; era gil, competente e metdica.
  - Agradava-me o trabalho - observou.-
  E, alm disso, tinha muito tempo  minha disposio.
  Depois, dera-se o seu encontro com Rudolph e as
  suas relaes amorosas que terminaram num casamen-
  to secreto. Fora Rudolph quem a induzira quela reso-
  luo, embora ela tivesse relutncia. Ele dissera que o
  padrasto era absolutamente contrrio a que se casasse
  com uma jovem sem dinheiro. O melhor, portanto,

194   195







era casarem secretamente e participar-lhe a notcia
mais tarde, no momento favorvel, com as necessrias
precaues.
  Assim fizeram. Ursula Bourne tornou-se Ursula
Paton. Rudolph prometera pagar as suas dvidas, pro-
curar uma colocao e quando estivesse em condies
de poder sustent-la e se tivesse tornado independente
do seu pai adoptivo, revelaria a verdade.
  Mas para indivduos do tipo de Rudolph Paton,
mudar de vida  mais fcil em teoria do que na prti-
ca. Ele esperava que o padrasto, enquanto nada sus-
peitasse acerca do casamento, se resolvesse a pagar as
dvidas e tir-lo de dificuldades. Mas quando Roger
Ackroyd soube das quantias que ele devia, enfureceu-
-se e recusou-lhe qualquer auxlio. Passaram-se alguns
meses, no fim dos quais o jovem foi chamado a Fer.n-
ly. O velho Ackroyd no fez muitas cerimnias: dese-
java que se casasse com Flora e apresentou-lhe uma
proposta definitiva.
  Foi aqui que a inata fraqueza de Rudolph se reve-
lou. Segundo seu costume, escolheu a soluo mais f-
cil e imediata. Pelo que pude entender, nem ele nem
Flora fizeram questo de fingir um amor que no exis-
tia. Tanto de um lado como de outro, tratava-se ape-
nas de uma simples questo de interesses. Mister Ack-
royd exps os seus desejos... e eles submeteram-se 
sua vontade. Flora via, no negcio, uma possibilidade
de independncia, de conforto e de mudana de am-
biente; Rudolph, naturalmente, fazia um jogo bem di-
verso. Financeiramente encontrava-se numa situao
bem difcil. Agarrou-se sem hesitar  oportunidade
que se lhe oferecia. As suas dvidas seriam pagas e po-
deria recomear a vida de cabea erguida. O seu carc-
ter no era tal que o levasse a pensar nas consequn-
cias futuras; julgo que estivesse resolvido a romper o
noivado com Flora aps um certo perodo. Entretanto,
ambos combinaram manter secreto o noivado. Natu-
ralmente, ele desejava ardentemente que Ursula nada

viesse a saber. Instintivamente percebia que a esposa,
firme e resoluta, no acolheria de bom grado o seu
procedimento.
  Quando chegou o momento crtico, Ackroyd resol-
veu anunciar o noivado; no falou das suas intenes a
Rudolph mas somente a Flora; e Flora, indiferente,
no ops dificuldades. Para Ursula, a notcia caiu co-
mo um raio. Chamado por ela, Rudolph veio apressa-
damente da cidade. Encontrara-se no bosque onde mi-
nha irm pde ouvir parte da conversa. O capito
pediu  esposa que mantivesse silncio por mais algum
tempo ainda; mas ela mostrou-se decidida a acabar de
uma vez com os subterfgios. Revelaria toda a verdade
a Mr. Ackroyd. Marido e mulher separaram-se des-
contentes.
  Firme no seu propsito, naquela mesma tarde, Ur-
sula procurou Mr. Ackroyd e revelou-lhe tudo. Foi
um dilogo tempestuoso; e mais teria sido se Ackroyd
no tivesse outros pensamentos a atorment-lo. O ve-
lho no era capaz de se resignar a perdoar o logro de
que fora vtima. A sua clera dirigia-se principalmente
contra Rudolph, mas Ursula tambm tivera a sua par-
te, pois considerava-a uma rapariga que procurara pes-
car, no filho adoptivo, um homem endinheirado. Tan-
to de um lado como de outro, foram proferidas
palavras que nunca mais se esquecem.
  Naquela mesma noite, a jovem foi ao encontro
marcado com Rudolph; e esse encontro tambm foi
muito agitado. O capito censurava a esposa por lhe
ter estragado irremediavelmente qualquer possibilida-
de com a sua revelao inoportuna, e ela censurava o
marido pela sua falta de sinceridade.
  Por fim, apartaram-se; meia hora depois era desco-
berto o cadver de Ackroyd. Desde aquela noite, Ur-
sula nunca mais soubera do marido.
   medida que a narrativa prosseguia, compreendia
cada vez melhor com que diablica concatenao se ti-
nham desdobrado os acontecimentos. Se Ackroyd

196 197







tivesse continuado a viver, no teria deixado de modi-
ficar o testamento... conhecia-o de mais, para no me
convencer que este teria sido o seu primeiro pensa-
mento. A sua morte, portanto, fora mais do que opor-
tuna para os dois jovens. No era de admirar que Ur-
sula se tivesse calado.
  As minhas meditaes foram interrompidas por
Poirot. Compreendi imediatamente que no lhe esca-
pavam as consequncias que derivavam daquela narra-
tiva.
  - Preciso fazer-lhe, minha senhora, uma pergunta
 qual deve responder com toda a sinceridade, pois tu-
do depende da resposta: que horas eram quando a se-
nhora e o capito Paton se despediram no bosque?
Pense bem, a fim de dar-me uma resposta exacta.
  A jovem esboou um sorriso amargo.
  - E o senhor julga que no tenho pensado nisso
mais de cem vezes? Quando sa para ir a esse encon-
tro, eram exactamente nove e meia. O major Blunt
passeava para cima e para baixo, no terrao; para no
ser vista, fui obrigada a passar por entre as moitas.
Quando cheguei ao quiosque deviam ser nove e trinta
e trs, mais ou menos. Rudolph j estava  minha es-
pera. Estive com ele dez minutos: reentrei em casa
precisamente s dez menos um quarto.
  Agora compreendia porque insistira tanto na sua
pergunta, dias antes. Ah! Se se tivesse podido provar
que Ackroyd fora morto antes das dez menos um
quarto e no depois!
  E um reflexo desse pensamento surgiu na pergunta
que Poirot logo lhe fez:
  - Quem deixou o quiosque em primeiro lugar?

  - Eu.
  - E Rudolph ficou?
  - Sim... mas o senhor no ir julgar...
  - O que eu julgue, minha senhora, no tem ne-
nhuma importncia. E que fez qlxando reentrou em
casa?

198

  - Fui para o meu quarto.
  - E at que horas l ficou?
  - At s dez.
  - H algum que possa confirm-lo?
  - Confirmar? Que eu estava no meu quarto? Oh!,
no. Vejo que se poderia julgar... se poderia julgar...
  Vi um relmpago de horror nos seus olhos.
  Foi Poirot quem completou a frase:
  ...que foi a senhora quem entrou pela janela e
apunhalou Mister Ackroyd enquanto estava sentado
na poltrona! Na verdade, pode-se julgar, precisamen-
te, isso.
  - Ningum a no ser um idiota poderia acreditar
em semelhante infmia - exclamou desdenhosamente
Caroline, acariciando-lhe o ombro.
  Ursula ocultara o rosto entre as mos.
  - Oh!,  horrvel - murmurava. -  horrvel!
  Minha irm sacudiu-a amorosamente.
  - Vamos, no se preocupe. Tenho a certeza que
Mister Poirot no pensa isso. Quanto ao seu marido,
parece-me que no vale grande coisa, francamente.
Fugir e deix-la sozinha em tal situao!
  Ursula sacudiu a cabea energicamente.
  - No - exclamou -, no  assim. Rudolph no
teria fugido de iniciativa prpria, pensando unicamen-
te em si. Agora vejo. Quando soube do assassnio do
padrasto, talvez tivesse julgado tambm que fora eu a
autora do crime.
  - Qual! No poderia acreditar em tal absurdo!-
interveio Caroline.
  - Tratei-o to mal naquela noite!. . . Fui to spe-
ra, to violenta. No quis ouvir o que tentava dizer-
-me... No queria sequer acreditar nos seus protestos
de afecto! Quase no o deixei falar; mas disse-lhe tudo
quanto pensava dele e todas as coisas mais cruis e
amargas que me vinham  mente... Procurava todos os
meios de ofend-lo!
  - No lhe far mal - observou minha irm.-
199







  Nunca se entristea pelo que disser a um homem. Eles
  so to presunosos e cheios de si que nunca acredi-
  tam que se fale verdade quando lhes dizemos alguma
  coisa desagradvel.
  Ursula continuava a torcer as mos.
  - Quando o crime foi descoberto e ele no deu si-
  nal de vida, recebi um golpe terrvel. Desejava que
  aparecesse e dissesse abertamente que nada tinha a ver
  com o sucedido. Sabia que era muito amigo do doutor
  Sheppard e pensei que talvez o doutor conhecesse o
seu esconderijo.
  E virando-se para mim, acrescentou:
  - Foi o motivo por que no outro dia lhe falei da-
quele modo. Julgava que, se o senhor soubesse onde
ele se encontrava, lhe podia falar.
  - Eu? - exclamei.
  - E porque havia Jacques de saber onde ele se en-
contra? - interrompeu, repentinamente, Caroline.
  - Sei que era improvvel - admitiu Ursula -,
mas Rudolph falava-me frequentemente no doutor
Sheppard e considerava-o o melhor amigp que tinha
em King's Abbot.
  - Minha senhora - disse-lhe -, no fao a me-
nor ideia relativamente ao lugar onde se encontra Ru-
dolph actualmente.
  -  a pura verdade - confirmou Poirot.
  - Mas... - objectou a jovem apresentando-lhe o
recorte do jornal, com ar de perplexidade.
  - Ah!... isto - observou Poirot um pouco emba-
raado. -  um erro. No vale nada. No creio que o
capito Paton tenha sido preso, mas h uma coisa que
desejo saber: naquela noite, o capito calava sapatos
ou botas?
  Ursula sacudiu a cabea.
  - No me lembro.
  - Que pena! Agora, minha senhora - sorriu in-
clinando a cabea para um lado e fazendo um sinal
eloquente com o dedo indicador -, nenhuma pergun-
ta. No se inquiete. Coragem e tenha confiana em
Hercule Poirot.



CAPTULO XXIII

UMA REUNIO EM CASA DE POIROT


  - E agora - disse Caroline levantando-se -, a
senhora subir para o meu quarto, a fim de descansar
um pouco. No se aflija. Mister Poirot far tudo o que
lhe for possvel. Tranquilize-se.
  - Devo voltar para Fernly - respondeu Ursula.
  Mas minha irm calou resolutamente os seus argu-
mentos.
  - Tolices! A senhora est nas minhas mos neste
momento. De qualquer maneira, por enquanto, a se-
nhora ficar aqui, no  Mister Poirot?
  -  o melhor que se pode fazer - concordou es-
te. -  noite, terei necessidade de que a senhora este-
ja presente na minha reunio ntima. s nove, em mi-
nha casa.
  Caroline fez um sinal de assentimento e saiu com
ela da sala. A porta fechou-se atrs de ambas. O detec-
tive deixou-se cair novamente na poltrona.
  - At agora, estamos indo bem! - considerou.
  - Mas a situao de Rudolph torna-se cada vez
mais feia - observei tristemente.
  Poirot aprovou com um sinal de cabea.
  -  verdade. Mas j o tnhamos previsto, no 
assim? H momentos em que tenho saudade do meu
amigo Hastings. Aquele de que lhe falei, lembra-se?...
Que se encontra agora na Argentina. Todas as vezes
que tive casos importantes, esteve perto de mim.
E ajudou-me. Sim, ajudou-me vrias vezes, porque ti-
nha uma especial habilidade para encontrar a verdade

200   201







mconscientemente, sem se aperceber. Acontecia-lhe,
s vezes, dizer uma coisa incrivelmente absurda; e jus-
tamente essa tolice revelava-me a verdade! E, alm
disso, tinha o hbito de tomar nota dos casos que jul-
gava mais interessantes.
  Tive um leve acesso de tosse, como para ocultar o
meu embarao.
  - Quanto a isso... - comecei e depois parei.
  O detective ergueu-se. Os seus olhos cintilavam.
  - Ento? Que quer dizer?
  -  que, como li alguns contos do capito Has-
tings, tambm pensei em escrever alguma coisa seme-
lhante. Parecia-me um pecado perder esta ocasio, tal-
vez mais nica que rara. Talvez a nica em que me
encontre envolvido em casos desta natureza.
  Senti uma chama subir ao rosto enquanto pronun-
ciava estas palavras.
  Poirot pulou da poltrona! Experimentei uma sensa-
o de terror ao pensar que ia beijar-me, mas, feliz-
mente, deteve-se.
  - Mas isso  magnfico! Ento, foi anotando as
suas impresses  medida que os acontecimentos se fo-
ram desenvolvendo?
  Fiz sinal que sim.
  - Extraordinrio! - exclamou. - Mostre-me...
imediatamente.
  No estava preparado para um pedido to inespe-
rado. Torturei o crebro procurando lembrar-me como
descrevera certos pormenores.
  - Espero que o senhor no faa... - balbuciei.-
 possvel que certos trechos sejam um pouco... como
direi?... pessoais.
  - Oh!, compreendo perfeitamente; quer dizer que
aqui e ali representou-me de um modo um pouco cari-
catural... isto , talvez ridculo. No  assim? Ah! No
faz mal. Tambm Hastings nem sempre era amvel
comigo! Mas eu sou superior a essas mesquinharias!
  Ainda um pouco indeciso e hesitante, remexi as

gavetas da minha escrivaninha e de l tirei um mao
de papis em desordem, que lhe apresentei. Em vista
de uma possvel publicao, dividira o trabalho em ca-
ptulos e, na noite anterior, conseguira quase p-lo em
dia, com a narrativa da ltima visita de Mrs. Russell.
De modo que Poirot tinha nas mos vinte captulos.
  Sa deixando-o a l-los.
  Tive de fazer uma visita um pouco distante de mi-
nha casa e, quando voltei, j passava das oito. Sobre a
mesa estavam dispostos os pratos mantidos quentes,
para mim, pois Poirot e minha irm j tinham jantado
s sete e meia, tendo-se o belga retirado depois para o
meu laboratrio, a fim de terminar a leitura do manus-
crito.
  - Espero, Jacques, que tenhas sido cauteloso e
prudente ao falar de mim no teu livro.
  No fora nem uma coisa nem outra.
  - No que eu me importe muito - acrescentou,
lendo claramente no meu rosto. - Mister Poirot sabe-
r julgar. Ele compreende-me melhor do que tu.
  Fui para o laboratrio. O detective estava sentado
perto da janela. O manuscrito estava em cima de uma
cadeira, junto dele. Colocou a mo sobre o trabalho e
disse:
  - Muito bem! Congratulo-me consigo... pela sua
modstia.
  - Oh! - respondi um tanto surpreendido.
  - E pelas suas reticncias - acrescentou.
  No soube responder seno um novo:   Oh!  
  - Hastings no escrevia assim - continuou o de-
tective. - Em cada pgina havia sempre um ueu  .
O que ele pensava, o que fazia. O senhor, pelo contr-
rio... deixou sempre a sua personalidade no ltimo
plano; somente uma ou duas vezes, no mximo, se in-
tromete... nas cenas da vida domstica; vamos cort-
-las?
  Uma leve piscadela de olhos fez-me corar.
  - Diga-me sinceramente que pensa da minha elu-
cubrao? - perguntei nervosamente.

202   203







  - Quer conhecer a minha opinio sincera?
  - Sim.
  Poirot abandonou o seu tom de gracejo.
  - Trata-se de uma exposio de factos muito me-
ticulosa - disse com benevolncia. - Anotou com es-
crupulosa exactido todas as circunstncias... embora
se tenha mostrado circunspecto, em certas ocasies,
quanto  parte que representou.
  - E fui-lhe til?
  - Sim. Posso afirmar-lhe que me auxiliou consi-
deravelmente. Venha, vamos para minha casa, a fim
de prepararmos a encenao para a pequena comdia.
  Caroline colocara-se na entrada. Creio que espera-
va ser tambm convidada. Mas o belga usou de muito
tacto ao tratar da delicada situao.
  - Teria muito prazer em que Miss Sheppard tam-
bm estivesse presente - disse com pesar -, mas, na
actual circunstncia, no seria prudente. Todos os que
forem esta noite a minha casa, sero suspeitos. Entre
eles, saberei descobrir o assassino de Mister Ackroyd.
  - Cr nisso verdadeiramente? - perguntei um
pouco cptico.
  - Creio que ainda no est convencido - respon-
deu o outro, secamente. - Nem mesmo agora se re-
solve a apreciar Hercule Poirot pelo que realmente vale.
  Justamente naquele momento, Ursula desceu a es-
cada.
  - Est pronta, minha senhora? - perguntou o
belga. - Est bem. Iremos juntos para minha casa.
Confie em mim, Miss Caroline; farei tudo o que puder
para lhe ser til. Boa noite.
  Samos, deixando minha irm na porta, com o
olhar triste, como um co a quem fosse recusado um
passeio.
  Na villa, a saleta fora preparada. Sobre a mesa, es-
tavam vrias garrafas de licores e clices. Havia tam-
bm um prato com doces. Da sala vizinha, foram tra-
zidas algumas cadeiras.

  Poirot andava de um lado para o outro, colocando
no seu lugar uma cadeira, dispondo diversamente uma
lmpada, curvando-se de quando em quando para as-
sentar os tapetes que cobriam o cho. Mas era sobre-
tudo para a iluminao que a sua ateno se voltava.
As lmpadas foram dispostas de maneira a poder ilu-
minar em cheio o ngulo da sala onde estavam agrupa-
das as cadeiras, enquanto a outra extremidade da sala,
onde supus que ele se sentaria, foi deixada na pe-
numbra.
  Ambos, eu e Ursula, observvamos os preparati-
vos. Repentinamente ouviu-se a campainha.
  - Esto a chegar - disse o detective. - Muito
bem. Est tudo pronto.
  A porta abriu-se e entraram, um a um, os morado-
res da villa Fernly. Poirot avanou e cumprimentou
Mrs. Ackroyd e Flora.
  - Muito gentis por terem vindo - exclamou.-
Ah! Eis o major Blunt e Mister Raymond!
  O secretrio tinha a sua habitual expresso alegre e
despreocupada.
  - Qual  a grande ideia? - perguntou, rindo.-
Algum aparelho cientfico? Teremos de pr correias
nos pulsos que registem as pulsaes dos nossos cora-
es culpados?
  - Creio ter lido alguma coisa a esse respeito-
admitiu Poirot. - Mas ainda sou pelo mtodo antigo.
Sirvo-me dos velhos sistemas e emprego a massa cin-
zenta. E, agora, comecemos... mas, em primeiro lu-
gar, tenho de fazer uma comunicao a todos os pre-
sentes.
  Tomou pela mo Ursula e f-la aproximar-se.
  - Esta  a esposa de Rudolph Paton. Casou com o
capito no ms de Maro!
  Mrs. Ackroyd soltou um grito abafado.
  - Rudolph casado! Desde Maro!  absurdo. Co-
mo foi isso?
  E comeou a olhar para a jovem como se nunca a
tivesse visto antes.

204   205







  - Casou-se com a Bourne? - continuou. - No
Mister Poirot, no posso acreditar
  ! ,
  A jovem corou e comeou a falar; mas Flora rete-
ve-a. Aproximou-se rapidamente dando-lhe o brao.
  - No deve fazer caso da nossa surpresa. Ne-
nhum de ns fazia a mnima ideia... A senhora e Ru-
dolph souberam conservar to bem o seu segredo! Sin-
to-me verdadeiramente satisfeita!
  -  muito amvel, Miss Ackroyd - respondeu
Ursula em voz baixa -, embora tenha todas as razes
para sentir-se ofendida. Rudolph portou-se muito
mal... sobretudo consigo.
  - No deve preocupar-se com isso - exclamou
Flora, acariciando-lhe o brao para a consolar. - Ru-
dolph achava-se em embaraos e agarrou-se  nica so-
luo que se lhe apresentou. Talvez eu prpria, no seu
lugar, tivesse feito o mesmo. Apenas... teria podido
confiar-me o segredo. Podia ter a certeza de que no o
teria trado.
  Poirot deu uiz a pancada na mesa e tossiu de modo
muito significativo.
  - A sesso est aberta - disse Flora. - Mis-
ter Poirot j nos fez compreender que no devemos
conversar. Mas diga-me uma coisa apenas: onde est
Rudolph? A senhora deve sab-lo melhor do que qual-
quer outra pessoa.
  - No sei - gemeu Ursula. -  assim mesmo.
No sei.
  - No est detido em Liverpool? - perguntou
Raymond.
  - No, no est em Liverpool - respondeu rapi-
damente Poirot.
  - Na realidade - observei - no h ningum
que saiba onde ele se encontra.
  - A no ser Hercule Poirot, no ? - objectou o
secretrio.
  Mas Poirot respondeu secamente:
  - Eu sei de tudo. Lembre-se disto.

  O jovem arqueou as sobrancelhas.
  - Est falando a srio? Pode realmente adivinhar
onde est escondido Rudolph Paton? - perguntei, in-
crdulo.
  - Adivinhar, no. Saber, meu amigo.
  - Em Cranchester? - arrisquei.
  - No - respondeu o detective gravemente.-
No est em Cranchester.
  Nada mais acrescentou. A um sinal seu, todos os
presentes se sentaram. Nesse momento, a porta abriu-
-se novamente para deixar entrar duas pessoas: eram
Parker e a governanta, que se sentaram perto da porta.
  - O nmero est completo - disse Poirot. - To-
dos esto presentes.
  Na sua voz vibrava um tom de viva satisfao. Pa-
receu-me sentir algo indefinido, uma espcie de in-
quietao, passar naqueles rostos agrupados na extre-
midade oposta da mesa. Tinha-se a impresso de uma
ratoeira... de uma ratoeira que se tivesse fechado.
  Assumindo um ar importante, Poirot fez a chama-
da dos presentes, lendo os nomes escritos numa folha
de papel.
  - Mistress Ackroyd, Miss Flora Ackroyd, major
Blunt, Mister Godofred Raymond, Mistress Ursula
Paton, John Parker, Elizabeth Russell.
  Depois largou o papel.
  - Que significa isto? - perguntou Raymond.
  - O elenco que li - respondeu o detective -  o
de todas as pessoas suspeitas. Cada um dos presentes,
teve ocasio de matar Mister Ackroyd...
  Mrs. Ackroyd ps-se de p, protestando:
  - No me agradam estas coisas. Prefiro voltar pa-
ra casa.
  - No deve ir, minha senhora - declarou Poirot -,
enquanto no ouvir o que tenho a dizer.
  Calou-se por um momento e, depois de tossir,
prosseguiu:
  - Comearei pelo princpio. Quando Miss Ack-
206   207







  royd me pediu que procedesse s investigaes, dirigi-
  -me a Fernly acompanhado pelo nosso bom doutor
  Sheppard. Passeei com ele no terrao, onde me mos-
  traram as pegadas no peitoril da janela. De l, o ins-
pector Raglan conduziu-me pelo caminho que vai dar
 estrada. O meu olhar foi atrado por um pequeno
quiosque do jardim, que revistei cuidadosamente. A
encontrei dois objectos: um pedao de cambraia engo-
mada e uma pena de pato. O farrapo de tecido suge-
riu-me a ideia de um avental de criada. Quando Ra-
glan me mostrou o elenco das pessoas que se
encontravam na villa, observei imediatamente que
uma das criadas, Ursula Bourne, no tinha um libi
verdadeiro. Segundo o seu depoimento, estivera no
seu quarto das nove e meia s dez. Mas supondo que
tivesse estado no quiosque? Nesse caso, era provvel
que tivesse ido para se encontrar com algum. Saba-
mos pelo doutor Sheppard que um estranho fora  vil-
la naquela noite: o desconhecido que encontrara perto
do porto.
  c A primeira vista, o enigma parecia resolvido:
o desconhecido teria ido encontrar-se com Ursula
Bourne. Era contudo certo que esteve no quiosque; is-
to foi-me demonstrado pela pena de pato, que me fez
imediatamente pensar tratar-se de uma pessoa dada
aos estupefacientes, de uma pessoa que contrara o v-
cio do outro lado do Atlntico, onde a cocainomania 
mais comum do que na Inglaterra. O indivduo encon-
trado pelo doutor Sheppard tinha sotaque americano,
o que confirmava esta suposio.
  uMas havia uma coisa que vinha baralhar as mi-
nhas hipteses: os tempos no correspondiam. Ursula
Bourne no podia ter ido, certamente, ao quiosque,
antes das nove e meia, ao passo que o outro devia l
ter chegado poucos minutos depois das nove.  verda-
de que se poderia supor que tivesse ficado  espera du-
rante meia hora. Outra alternativa, era supor-se que
no quiosque, naquela noite, se tivessem dados dois en-
208

contros. Pois bem, logo que formulei esta hiptese,
descobri vrias circunstncias muito significativas.
Vim a saber que, naquele dia, a governanta estivera no
consultrio do doutor Sheppard e demonstrara vivo
interesse pelos meios de cura das vtimas dos estupefa-
cientes. Aliando este facto  descoberta da pena de pa-
to, cheguei  concluso de que a pessoa em questo es-
tivera em Fernly para se encontrar com a governanta e
no com Ursula Bourne. Mas quando esta ltima foi
ao quiosque, com quem foi encontrar-se? No fiquei
na dvida por muito tempo. Em primeiro lugar en-
contrara um anel... uma aliana que tinha gravado in-
ternamente os dizeres "De R.", e uma data. Depois
vim a saber que s nove e vinte e cinco o capito Pa-
ton fora visto tomar o caminho que conduz ao pavi-
lho e tambm fui informado de uma conversa havida
no bosque vizinho, naquela tarde, entre o capito Pa-
ton e uma jovem desconhecida. Eis, portanto, que os
acontecimentos se desenrolavam diante de mim, com
ordem e preciso. Um casamento secreto; um noivado
anunciado precisamente no dia da tragdia, o colquio
tempestuoso no bosque e o encontro marcado no
quiosque naquela noite.
    De qualquer modo, isto vinha confirmar-me uma
coisa: que Rudolph Paton e Ursula Bourne (ou Paton)
tinham ambos motivos para desejar o desaparecimento
de Mister Ackroyd. Alm disso, inesperadamente,
acabava de ser esclarecido outro ponto: no podia ser
o capito quem s nove e meia se encontrava no escri-
trio de Mister Ackroyd. E eis que se nos apresenta
outro aspecto extraordinariamente interessante. Quem
se encontrava no escritrio de Mister Ackroyd s nove
e meia? No podia ser o capito Paton que quela hora
estava no pavilho com sua mulher. Nem Charles
Kent que j se havia afastado. Quem, ento?
  Poirot curvou-se para a frente, lanando estas lti-
mas palavras com ar de triunfo.
  Entretanto, Raymond no se deixou impressionar e
quis apresentar o seu protesto.

209







  - No sei se est procurando fazer-me passar por
mentiroso, Mister Poirot, mas o facto no se baseia so-
mente na minha declarao... descontada talvez a
exactido das palavras ouvidas. Lembre-se de que
tambm o major Blunt ouviu Mister Ackroyd falar
com algum. Estava do lado de fora, no terrao, e no
podia perceber as palavras com clareza; todavia, ouvi
vozes.
  Poirot fez um sinal de confirmao.
  - No o esqueci - disse tranquilamente. - Mas
o major estava na persuaso de que a pessoa a quem
Mister Ackroyd falava era o senhor.
  Por um momento o secretrio pareceu ter sido apa-
nhado desprevenido. Mas, em seguida, refez-se e re-
bateu:
  - Sim, mas Blunt sabe agora que se enganou.
  - Precisamente - confirmou o major.
  - Contudo, deve existir um motivo para que se
julgasse tratar do senhor - observou o detective e
levantou a mo em sinal de protesto. - Sei perfeita-
mente que motivo quer apresentar mas no basta. Te-
mos de procurar a explicao noutra parte. Mostrarei
a questo deste modo: desde o princpio das investiga-
es, chamou-me a ateno o carcter das palavras ou-
vidas por Mister Raymond. Surpreendeu-me bastante
que ningum fizesse nenhum comentrio; que nin-
gum achasse algo de singular nas mesmas.
  Calou-se um instante para depois prosseguir citan-
do e destacando lentamente as palavras ouvidas pelo
secretrio:
    os apelos  minha bolsa tm sido to frequentes ulti-
mamente que julgo impossivel atender a novos pedidos  .
No notam nada de inslito, de estranho nestas pala-
vras?
  - No me parece - observou Raymond. - Mais
de uma vez me ditou cartas, usando, quase exactamen-
te, essas mesmas palavras.
  - Bravo! Precisamente - exclamou Poirot. - Eis

o ponto a que quero chegar!  possvel que uma pes-
soa falando com outra, use uma fraseologia semelhan-
te?  impossvel que faa parte de uma conversa ver-
dadeira. Mas, se tivesse ditado uma carta...
  - Julga, ento, que estivesse lendo uma carta em
voz alta - disse o secretrio medindo as palavras.-
Mesmo que assim fosse, devia estar presente algum a
quem a estivesse lendo.
  - E porqu? No temos nenhuma outra prova de
que houvesse outra pessoa no escritrio. No se ouviu
nenhuma outra voz, a no ser a de Mister Ackroyd,
repare bem.
  - Sem dvida. Mas ningum leria cartas daquela
natureza em voz alta, a si prprio, a no ser que esti-
vesse maluco.
  - O senhor esquece-se - observou o detective em
tom corts - do indivduo que esteve na villa, na
quarta-feira anterior.
  Todos olharam para ele, admirados.
  - Sim - continuou, assumindo um tom persuasi-
vo -, quarta-feira. Em si, o rapaz no tinha impor-
tncia alguma. O que interessava muitssimo era a fir-
ma que representava.
  - A Ditaphone Company - exclamou Raymond.-
Agora percebo. Uma mquina para ditar!  nisso que
pensa?
  Poirot fez um sinal afirmativo.
  - Mister Ackroyd pensava adquirir um ditafone
como deve lembrar-se. Eu tive curiosidade de pedir
informaes  firma. A resposta foi de que ele compra-
ra realmente um ditafone ao seu representante. No
lhe falou nisto?
  - Talvez pensasse preparar-me uma surpresa-
murmurou o secretrio. - Tinha uma verdadeira ma-
nia pueril por coisas semelhantes. Talvez pensasse em
manter o segredo durante um ou dois dias.  possvel,
tambm, que se divertisse com o aparelho, como se se
tratasse de um novo brinquedo. Sim,  verosmil.

210 I 211







O senhor tem razo... Ningum faria uso de tais pala-
vras, numa conversa comum.
  - E isto explica tambm - acrescentou Poirot-
por que motivo o major Blunt pensou que fosse o se-
nhor quem estava no escritrio. Os fragmentos que
chegaram aos seus ouvidos no eram seno fragmentos
de um ditado, do qual instintivamente deduziu que o
secretrio estivesse com Mister Ackroyd. Mas o seu
pensamento estava noutra parte; estava completamente
absorto na figura branca que entrevira. Julgava tratar-
-se de Miss Ackroyd. O que realmente viu foi o aven-
tal branco de Ursula, no momento que esta se dirigia
para o pavilho.
  Entretanto, Raymond refizera-se da surpresa.
  - Contudo - observou -, essa sua descoberta,
embora muito brilhante (tenho a certeza de que isto
nunca me teria ocorrido) no desloca o eixo da situa-
o. s nove e meia, Mister Ackroyd ainda vivia, visto
que falava ao ditafone. Parece estar demonstrado que
quela hora, Charles Kent j se encontrava muito lon-
ge. Quanto a Rudolph Paton...
  Parou hesitante, olhando para Ursula.
  Um rubor subiu ao rosto da jovem, que conseguiu
responder com firmeza:
  - Rudolph e eu separmo-nos pouco antes das no-
ve e trs quartos. Ele no se aproximou da villa. Disso
tenho plena certeza. No tencionava faz-lo; de tudo
seria capaz naquela noite, menos de enfrentar o pa-
drasto. Tinha muito medo!
  - No que eu duvide, um instante sequer, da ver-
dade das suas palavras - explicou Raymond. - Sem-
pre tive absoluta certeza de que o capito Paton estava
inocente. Mas devemos pensar tambm no modo como
a questo se apresentaria a um jri e nas perguntas
que seriam feitas. No se pode negar que ele se encon-
tra numa posio muito difcil; porm, se aparecesse...
  O detective no o deixou continuar.
  - Acha que deveria aparecer?

- Certamente. Se o senhor sabe onde se encon-
tra...
  - Devo registar que o senhor ainda no se con-
venceu de que eu sei. Sei de toda a verdade acerca do
telefonema, das marcas no peitoril da janela e do es-
conderijo de Rudolph Paton...
  - Onde est? - perguntou subitamente Blunt.
  - No muito longe daqui - respondeu Poirot,
sorrindo.
  - Em Cranchester? - perguntei com ansiedade.
  Poirot virou-se para mim.
  - O senhor faz continuamente essa pergunta.
Cranchester tornou-se-lhe uma ideia fixa. No, no se
encontra em Cranchester. Ali est ele!
  Fez um gesto teatral, indicando com o dedo. To-
dos nos virmos para a direco indicada.
  De p, no umbral da porta, vimos Rudolph Paton.


CAPTULO XXIV

A NARRATIVA DE RUDOLPH PATON


  Por momentos, fiquei atordoado. Nem tive tempo
para compreender quando ouvi gritos de surpresa e
exclamaes de toda a parte.
  Vi Rudolph ao lado da esposa, segurando-lhe a
mo e sorrindo para mim, do outro lado da sala.
  Tambm Poirot sorria e, ao mesmo tempo, indica-
va-me com o dedo, num gesto muito eloquente.
  - No lhe disse, pelo menos trinta e seis vezes,
que  intil qualquer subterfgio com Hercule Poirot?
- observou. - Que ele sempre chega a descobrir a
verdade?
  Voltou-se para os outros circunstantes.
  - H dias, lembram-se, realizmos outra peque-
212   213







na sesso como esta, na villa Fernly. ramos precisa-
mente os seis aqui presentes. Acusei os cinco de que-
rerem ocultar-me alguma coisa. Quatro resolveram
revelar-me o seu segredo. S o doutor Sheppard se re-
cusou. Mas eu mantive as minhas suspeitas. Naquela
noite, o doutor esteve nos Trs Javalis, na esperana
de encontrar o capito Paton. No o encontrou mas
podia t-lo encontrado no caminho quando voltou para
casa? O doutor era amigo dele e, alm disso, vinha di-
rectamente do local do crime. E talvez soubesse muito
mais do que os outros sabiam...
  - Sim,  verdade - exclamei com pesar. - Pare-
ce-me chegado o momento de fazer uma confisso to-
tal. Naquele dia,  tarde, fui visitar Rudolph. A prin-
cpio ele no quis fazer-me qualquer confidncia; mas
acabou por confiar-me a histria do seu casamento e
das dificuldades em que se metera. Logo que se desco-
briu o crime, percebi imediatamente que, quando se
conhecessem as circunstncias, as suspeitas no deixa-
riam de recair sobre ele... ou recairiam sobre a mulher
a quem amava. Naquela noite, apresentei-lhe clara-
mente a situao. A ideia da possibilidade de ter de fa-
zer declaraes que poderiam comprometer a esposa,
acabou por decidi-lo, custasse o que custasse, a... a...
  Estive por um momento hesitante e ele interveio,
prontamente, para preencher a lacuna.
  - A cortar o n - disse muito expressivamente.
- Quando Ursula me deixou, dirigiu-se para a villa.
Pensei que tivesse tentado falar de novo com o meu
padrasto. J na tarde daquele dia fora extremamente
grosseiro com ela. Passou-me pela mente a ideia de
que a tivesse insultado de modo imperdovel e que
ela... sem saber o que fazia...
  Parou... Ursula soltou a mo que segurava e afas-
tou-se dele.
  - Chegaste a pensar isso Rudolph? Chegaste real-
mente a pensar que eu seria capaz de praticar seme-
lhante aco?

  - Bem, prossigamos no exame da conduta culposa
do doutor Sheppard - atalhou Poirot. - O doutor
procurou fazer o que pde para auxili-lo. Conseguiu,
pelo menos, escond-lo da polcia.
  - Onde? - perguntou Raymond. - Em sua casa?
  - Qual! Nem por sonhos! - respondeu o detecti-
ve. - O senhor deveria formular a pergunta que fiz a
mim prprio: - Se o nosso bom doutor quer ocultar
o rapaz, que lugar escolher? Naturalmente, um lugar
prximo. Pensei em Cranchester. Num hotel? No!
Numa penso? Pior ainda. Onde, ento? Ah! e achei:
numa casa de sade; numa casa de sade para aliena-
dos! Desejei verificar se a minha hiptese era acertada
e inventei, sem mais nada, a existncia de um sobri-
nho imaginrio que sofria de perturbaes mentais.
Dirigi-me a Miss Sheppard para conseguir endereos
de casas de sade. Ela forneceu-me o endereo de dois
sanatrios prximos de Cranchester para onde o irmo
tivera ocasio de enviar alguns doentes. Fiz as necess-
rias investigaes. Num deles, sbado de manh, ao
alvorecer, o prprio doutor internara um paciente;
embora tivesse dado nome falso, no tive dificuldade
em identificar aquele doente, como sendo o capito
Paton. Depois de algumas formalidades, consegui a per-
misso de traz-lo comigo. Eis porque chegou a minha
casa ontem, bem cedo.
  Fitei-o com vivo espanto.
  - Este era, ento, o funcionrio do Ministrio de
que falava Caroline! - murmurei. - E pensar que
nunca tive a mnima suspeita!
  - Est percebendo agora porque chamei a ateno
sobre as reticncias do seu manuscrito - murmurou
Poirot. - At onde chega,  rigorosamente sincero...
mas no se compromete muito, no  verdade, meu
amigo?
  Estava muito perturbado para discutir.
  - O doutor Sheppard foi muito leal - interveio
Rudolph. - Auxiliou-me contra os obstculos. Tudo

214 I 215







quanto fez, julgou faz-lo em meu benefcio. Agora
vejo, pelo que Mister Poirot me disse, no ser aquele o
melhor caminho. Devia ter-me apresentado e enfren-
tar a tempestade; l, no sanatrio, no h um jornal e
eu no sabia nada do que estava acontecendo.
  - O doutor Sheppard foi um modelo de discrio
- observou o detective. - Mas eu sei descobrir todos
os segredos.  a minha profisso.
  - E agora podemos ouvir a narrativa do que acon-
teceu naquela noite - props Raymond, com impa-
cincia.
  - J sabem - respondeu o capito. - Pouco te-
nho a acrescentar. Deixei o pavilho cerca das nove e
quarenta e cinco e vagueei ao acaso pelo campo, pro-
curando decidir sobre o que havia de fazer. Sou fora-
do a admitir que no tenho sequer a sombra de um
libi, mas juro solenemente que no entrei no escrit-
rio; no vi o meu padrasto, nem vivo nem morto. De-
sejo que acreditem nas minhas palavras.
  - Nenhum libi - murmurou o secretrio.-
 o diabo! Creio no que diz, mas est em maus len-
is.
  - Pelo contrrio, est a tornar as coisas mais sim-
ples - disse Poirot. - Muito simples, na verdade.
  Fitmo-nos espantados.
  - No compreendem o que quero dizer? Simples-
mente isto: para salvar o capito Paton, o verdadeiro
culpado ter de confessar.
  Fulminou-nos a todos com o olhar.
  - Notem que para esta reunio no convidei o
inspector Raglan. Pelo seguinte motivo: no lhe queria
dizer esta noite tudo quanto sei.
  Curvou-se para a frente e tornou-se agressivo.
  - Sei que o assassino de Mister Ackroyd se en-
contra aqui, neste momento, nesta sala.  ao assassino
que estou falando. Amanh a verdade ser comunicada
ao inspector Raglan. Compreenderam?
  Seguiu-se um silncio trgico, que foi quebrado

pela entrada da velha bret com um telegrama numa
bandeja. Poirot abriu-o.
  Repentinamente, ecoou a voz spera do major
Blunt.
  - O assassino encontra-se entre ns? - excla-
mou. - E o senhor sabe quem ?
  Poirot j lera o telegrama. Amassou-o, transfor-
mando-o numa bola entre os dedos.
  - Agora sei.
  Deu um piparote na bola de papel
  - Que  isso? - perguntou vivamente Raymond.
  - Um cabograma... proveniente de um transatln-
tico que se dirige para os Estados Unidos.
  Fez-se um silncio mortal.
  Poirot ergueu-se e curvou-se em seguida numa
vnia.
  - Senhoras e senhores - proferiu -, a nossa pe-
quena reunio est terminada. E tenham bem presen-
te: Amanh, a verdade ser comunicada ao inspector Ra-
glan.



CAPTULO XXV

TODA A VERDADE


  Um breve sinal de Poirot fez-me ficar na sala, en-
quanto os outros saam. Sentia-me perplexo. Pela pri-
meira vez no conseguia adivinhar o que Poirot visava.
De certo modo, a cena anterior pareceu-me uma mon-
tagem teatral para o detective belga se tornar   impor-
tante  , como tanto apreciava. Contudo, nas suas pala-
vras havia uma verdadeira ameaa proferida com
inegvel sinceridade.
  Depois de o ltimo convidado ter sado, veio ter
comigo, junto do fogo de sala.

216   217







  - Ento, doutor, que pensa de tudo isto? - per-
guntou calmamente.
  - No sei que pensar - respondi francamente.-
No compreendo porque no expe ao inspector Ra-
glan a verdade, nua e crua.
  Poirot acendeu um fino cigarro russo, fumou-o du-
rante alguns segundos e acabou por responder:
  - Porque no utiliza a sua massa cinzenta? Todas
as minhas aces tm um objectivo.
  - O primordial motivo parece-me este: ignora ain-
da quem seja o culpado, embora esteja certo de que 
uma das pessoas que aqui estiveram presentes. A reu-
nio procurava apenas provocar uma confisso.
  -  uma hiptese - considerou Poirot. - Inteli-
gente, mas no verdadeira.
  - Podia tambm ter por fIm obrig-lo a trair-se,
tentando elimin-lo, a si, como o fez a Roger Ack-
royd.
  - No, doutor. No sou to herico que me trans-
forme em isca de armadilha.
  - Nesse caso, no entendo o seu procedimento
e creio que se arrisca a deixar fugir o assassino, pon-
do-o to claramente de sobreaviso.
  - J no pode fugir - afirmou Poirot, gravemen-
te. - S tem uma sada e essa no poder conduzi-lo
 liberdade.
  - Sabe, portanto, quem foi o assassino?
  O detective lanou ao fogo a ponta do cigarro e
disse em tom tranquilo:
  - Vai agora acompanhar-me ao longo de todo o
percurso dedutivo que at agora fiz sozinho. Para co-
mear, dir-lhe-ei que todos os elementos convergem
para uma nica pessoa. Para alm da divergncia para-
doxal, relativa  circunstncia tempo, houve outras
duas que despertaram, desde o incio, a minha aten-
o. A primeira foi o telefonema. Se o assassino fosse
realmente Rudolph Paton, esse telefonema no faria o
menor sentido. Isso levou-me a concluir que no deve-
ria ser ele o seu autor. Podia ter sido, realmente, obra
de um cmplice, mas essa possibilidade no me entu-
siasmava e temporariamente apartei essa circunstncia
para segundo plano. Contudo, pensando no motivo
que teria levado o autor do telefonema a efectu-lo,
cheguei  concluso de que o assassino pretendia que o
crime fosse descoberto nessa mesma noite e no na
manh seguinte. Porqu? Porque o assassino, sabendo
que, cedo ou tarde, se descobriria o crime, pretendia
que essa descoberta tivesse lugar a uma hora a que ele
pudesse estar presente, quando a porta do gabinete
fosse forada.
  - Sim - concordei. - Como Ackroyd ordenara
que no voltassem a incomod-lo, provavelmente s no
dia seguinte dariam pelo seu cadver.
  - Exactamente. A segunda circunstncia surgiu
com a poitrona desencostada da parede. O inspector
desprezou este indcio capital, logo de incio, embora
repetidamente eu lho tivesse apontado.
  - Confesso que estranhei a sua insistncia quanto
a essa premissa.
  - O doutor traou, no seu manuscrito, uma plan-
ta da sala muito bem delineada e exacta. Se a tivesse
aqui, verificaria que, se a poltrona fosse colocada no
lugar indicado por Parker, se encontraria em linha rec-
ta entre a porta e a janela.
  - Deslocaram a poltrona para que, quem entrasse
pela porta, no pudesse ver qualquer coisa relacionada
com a janela? - alvitrei.
  - Tambm pensei nisso, ao princpio, mas aban-
donei essa hiptese porque as costas da poltrona, em-
bora altas, pouco tapavam a janela. Lembrei-me de-
pois que, precisamente junto da janela, havia uma
mesinha com livros e revistas. Ora, esta, sim, ficava
absolutamente oculta pelo espaldar da poltrona. Fui
portanto levado a supor que sobre essa mesinha estaria
algo que o assassino desejava ocultar, algo que no pu-
dera levar consigo aps o crime, algo que deveria desa-
218 I 219







parecer antes que algum o encontrasse, quando da
descoberta do cadver. Pois bem, antes da chegada
da polcia s entraram no gabinete de Ackroyd quatro
pessoas: o doutor, Parker, o major Blunt e Mis-
ter Raymond. Mas Parker foi o elemento, entre esses
quatro, que logo me apontou a deslocao da poltrona.
Por esse motivo, concentrei a minha ateno sobre os
restantes trs, tanto mais que, se o cadver fosse des-
coberto de manh muito cedo, poucas probabilidades
teriam para assistir ao arrombamento da porta.
  - Mas que objecto poderia estar sobre a mesinha?
- impacientei-me.
  - O doutor ouviu, h pouco, as minhas palavras a
respeito da conversa escutada casualmente. Quando
me informaram que tinha estado na villa um vendedor
de ditafones, pensei num desses aparelhos e, admitin-
do a hiptese de que Mister Ackroyd adquirira um di-
tafone, por que motivo no fora este encontrado? Ora
esse aparelho no  to minsculo que uma pessoa
possa escond-lo na algibeira. Se efectivamente houve-
ra um, o assassino precisaria de uma maleta para o re-
tirar do local do crime.
  - S no percebo o objectivo do assassino em rou-
bar o ditafone.
  - Porque o doutor, tal como Mister Raymond,
admite a priori que a voz que foi ouvida s nove e meia
era a de Mister Ackroyd, ditando para o aparelho.
Mas um ditafone destina-se a repetir uma fala, noutra
ocasio. Basta girar novamente o cilindro registador.
  - Nesse caso, o assassino estaria no gabinete, ao
mesmo tempo que o ditafone reproduzia a fala de Mis-
ter Ackroyd, no  isso?
  -  possvel, mas no devemos excluir ainda ou-
tra hiptese: a da adaptao de um pequeno instru-
mento de relojoaria ao ditafone, de maneira a p-lo a
funcionar depois da sada do assassino. Neste caso, te-
remos algum que sabia que a vtima comprara aquele
aparelho; algum que era tambm destro na manipula-
o de engenhos mecnicos.

  - Estamos, contudo, no mero campo das dedu-
es - observei sorrindo.
  - Sim - prosseguiu Poirot -, mas quando pas-
smos ao exame das marcas de sapatos no peitoril da
janela, deparei com trs novas hipteses. Primeira: Po-
diam ser realmente de Rudolph Paton. Segunda:
Podiam ser de outra pessoa, que usasse os mesmos ta-
ces de borracha; ora os habitantes da villa estavam
fora de causa, porque tinham sapatos diferentes, de
sola, e Charles Kent calava um par de sapatos que lhe
fugiam dos ps, conforme declarou a criada da Coroa
Larga. Terceira: S algum que procurasse fazer recair
as suspeitas sobre Rudolph teria usado sapatos com se-
melhante guarnio de borracha.
  - E conseguiu averiguar isso? - interessei-me.
  - A polcia requisitara ao proprietrio do Trs Ja-
valis a entrega de um par de sapatos. Visto este se en-
contrar c em baixo, para ser engraxado, no pde ser
utilizado, nem por Rudolph, nem por qualquer outra
pessoa. A polcia pensou que ele poderia possuir outro
par idntico e eu obtive essa confirmao. Portanto,
esta terceira hiptese implica a necessidade de provar
que o assassino utilizara os prprios sapatos de Ru-
dolph, ou utilizara um terceiro par idntico, ou... um
par de botas, com salto igual de borracha. Induzi sua
irm, Miss Caroline, a investigar esse ponto, realando
o pormenor da cor, para ocultar o motivo da minha
pergunta. Ora, o doutor j conhece o resultado dessa
investigao: Paton tinha calado realmente um par de
botas. Portanto, o criminoso foi algum que teve pos-
sibilidade de tirar, do Trs Javalis, um par de sapatos
de Rudolph Paton.
  O detective interrompeu-se para aclarar a garganta,
assoou-se e continuou:
  - Mas h ainda outro elemento: o assassino era al-
gum que teve oportunidade para subtrair o punhal da
mesinha-vitrina da saleta: no se esquea, porm,
de que Miss Flora declarou resolutamente que, quan-
do examinou a mesinha, o punhal j l no estava.

220 I 221







  De novo, Poirot fez uma pausa.
  - Recapitulando - prosseguiu -, trata-se de um
indivduo que esteve, naquele dia, no Trs Javalis; que
conhecia bem Ackroyd, a ponto de saber que este ad-
quirira um ditafone; que tinha certa prtica de enge-
nhos mecnicos; que teve oportunidade de tirar o pu-
nhal da mesinha, antes de Miss Flora chegar; que
levava consigo uma maleta para transportar o ditafone
e, finalmente, que pde permanecer alguns minutos,
sozinho, no gabinete, aps a descoberta do crime, en-
quanto Parker telefonava  polcia. Numa palavra: o
DOUTOR SHEPPARD!



CAPTULO XXVI

... E NADA MAIS DO QUE A VERDADE


  Durante dois minutos reinou um silncio de morte.
  Depois, comecei a rir.
  - O senhor est louco! - exclamei.
  Calmamente, Poirot replicou:
  - No estou louco. O que me atraiu a ateno pa-
ra si foi um factor mnimo: os tempos, embora com
poucas diferenas, no se ajustavam. Todos admitiram
que, para percorrer a distncia entre a estrada e a vil-
la, se gastavam cinco minutos (menos at, utilizando o
atalho). Ora, o doutor, segundo disse e Parker confir-
mou, saiu da villa s nove menos dez, mas declarou
que atingira o porto da estrada s nove horas. Com a
noite glida e imprpria para passeios, como se explica
que levasse o dobro do tempo do trajecto? E em cinco
minutos faz-se muita coisa.
  - Isso  um pormenor tempo que nada prova-
sublinhei.
  Poirot prosseguiu, indiferente  minha objeco:

  - Quanto ao facto de a janela do gabinete estar fe-
chada, sabemo-lo apenas pelas suas declaraes. Supo-
nhamos agora que estava aberta. Naqueles dez minu-
tos, o doutor teria oportunidade de correr em volta da
villa, mudar de sapatos, entrar no gabinete pela jane-
la, matar Ackroyd e sair pelo porto. Contudo, consi-
derando que Ackroyd estava muito nervoso nessa noi-
te, t-lo-ia decerto ouvido galgar o peitoril da janela.
Portanto, admiti nova hiptese: o doutor matou-o, an-
tes de sair, quando estava atrs dele; saiu pela porta
principal; correu para o quiosque, tirou da maleta de
mdico os sapatos de Rudolph, calou-os, passou so-
bre a lama e entrou no gabinete, saltando a janela em
cujo peitoril deixou as marcas dos saltos enlameados;
ento, fechou a porta pelo lado de dentro, tornou a
sair pela janela, voltou ao quiosque para descalar os
sapatos, enfiando os seus, e saiu pelo porto. Eu pr-
prio reconstitu toda essa cena, no outro dia, enquanto
o doutor falava com Mistress Ackroyd, e levei precisa-
mente dez minutos. Em seguida, o doutor foi para ca-
sa, confiado no seu libi perfeito, visto que ajustara o
ditafone para as nove e meia.
  - Meu caro Poirot - trocei -, vejo que meditou
de mais sobre este caso e a sua massa cinzenta deterio-
rou-se. Que diabo tinha eu a ganhar com a morte de
Ackroyd?
  - A impunidade - retorquiu o belga. - Era o
doutor quem exercia chantagem sobre Mistress Fer-
rars. Fora o doutor quem tratara de seu marido e o
nico que poderia saber a verdade sobre a sua morte.
De resto, lembre-se de que, quando falou comigo, pe-
la primeira vez, no jardim, aludiu a ter recebido uma
herana. Investiguei o facto e verifiquei que isso no
passava de uma justificao evidentemente falsa, ape-
nas destinada a explicar a posse das vinte mil libras de
Mistress Ferrars. Perdeu-as em infelizes especulaes
de bolsa, pelo que comeou a forar exageradamente
as possibilidades de extorso da sua vtima. Esta resol-
222   223







veu, para surpresa sua, tomar a deciso que conhece-
mos. Se Ackroyd tivesse conhecimento da verdade,
no teria misericrdia e o doutor ficaria arruinado para
sempre.
  - E o telefonema? - inquiri, tentando ainda
manter o riso de desdenhosa superioridade, perante as
declaraes de um dementado.
  - Confesso que me desnorteou a confirmao de
que esse telefonema partira efectivamente da estao
de King's Abbot. Foi o seu truque magistral, doutor.
Para poder voltar a Fernly, ser o primeiro a descobrir
o cadver e conseguir retirar o ditafone, o doutor pre-
cisava de um pretexto slido, base fundamental do seu
libi.
  - Tudo isso  um disparate - critiquei. - No
me dir como pude fazer esse telefonema?
  - Quando me debrucei sobre a identidade dos
seus pacientes, confesso que me interessei demasiada-
mente pela consulta de Mistress Russell. S depois me
lembrei de que, entre eles, figurava o criado de um
transatlntico americano. Ora, este transatlntico esta-
va fundeado em Liverpool. Localizei o homem e en-
viei um telegrama para o navio, o Orion, recebendo
pouco depois esta reposta...
  Poirot estendeu-me o telegrama, que dizia:


<<EXACTO... STOP... DOUTOR SHEPPARD PEDIU DEI-
XASSE BILHETE EM CASA DE UM DOENTE... STOP... DE-
VIA TELEFONAR DA ESTAO... COMUNICANDO RES-
POSTA... STOP... TRANSMITI RESPOSTA NENHUMA.  

  - A sua ideia, doutor - continuou Poirot -, era
genial, tanto mais que sua irm estava presente quan-
do atendeu o telefonema. Mas quanto ao teor da infor-
mao, s tnhamos a sua verso, doutor.
  - Concordo que essa teoria  realmente muito in-
teressante - apreciei, bocejando. - Pena  que esteja
muito longe da realidade.

  - No se esquea de que aflrmei comunicar a ver-
dade ao inspector Raglan. Contudo, por ateno a sua
irm, estou disposto a dar-lhe uma sada, como, por
exemplo, uma dose excessiva de soporfero. Com-
preenda-me, doutor: Rudolph Paton tem de ficar livre
de qualquer suspeita. Proponho-lhe, pois, que termine
o seu interessante manuscrito... mas, desta vez, aban-
donando as habituais reticncias.
  - Nada mais tem a dizer-me? - perguntei, levan-
tando-me.
  - Apenas uma recomendao: no tente eliminar-
-me, como fez ao seu amigo Roger Ackroyd. Com
Hercule Poirot no d resultado, compreende? Tomei
as minhas precaues.
  - Meu caro Poirot - repliquei sorrindo. - Serei
o que sou, mas de maneira alguma um imbecil. Agra-
deo-lhe esta noitada extremamente interessante e ins-
trutiva. Agora, se mo permite, tenho de retirar-me.
  Poirot levantou-se tambm e curvou-se cortesmen-
te, como sempre, enquanto eu saa da sala.



CAPTULO XXVII

APOLOGIA


  Cinco horas da manh. Estou cansado, mas termi-
nei a tarefa. Di-me o brao de tanto escrever.
  Estranho eplogo o do meu manuscrito. Pensava
public-lo qualquer dia, como narrativa de um desaire
de Poirot. Mas os homens pem e Deus dispe.
  Quando vi Rudolph Paton e Mrs. Ferrars a con-
versarem, com as cabeas juntas, profundamente ab-
sorvidos no que diziam, tive o pressentimento da imi-
nente catstrofe. Receei que a viva lhe tivesse
confiado o seu segredo. No era o caso. Eu estava en-
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ganado, mas a ideia no me saa da cabea, mesmo de-
pois de ter entrado com Ackroyd, no gabinete, e en-
quanto ele me contou a verdade.
  Pobre Ackroyd. Sob o ponto de vista psicolgico,
o seu nervosismo naquela noite tinha bastante interes-
se: pressentia a aproximao do perigo, embora no ti-
vesse a menor suspeita a meu respeito.
  S pensei no punhal, mais tarde. Levara comigo um
bisturi facilmente manejvel, mas ao ver na mesinha a
arma tunisina compreendi que seria um instrumento
mais adequado a afastar as suspeitas da minha pessoa,
distribuindo-as por qualquer indivduo que tivesse
acesso  sala.
  A verdade  que pensei que Ackroyd se achava ex-
citado por Mrs. Ferrars se lhe ter confessado. Aps a
morte desta, pensei elminar Ackroyd, atribuindo
a culpa a Rudolph Paton.
  Dias antes, Ackroyd adquirira um ditafone, com
que queria surpreender Raymond, mas, por inexpe-
rincia, avariou-o pouco depois. Induzi-o a confiar-
-mo, em vez de devolv-lo ao vendedor. Convenci-o
de que repararia facilmente o aparelho.
  Sinto-me orgulhoso com as minhas qualidades de
escritor. Que poderia haver de mais exacto e cuidadoso
do que os seguintes perodos:
  < A carta foi entregue s nove menos vinte. Eram exac-
tamente nove menos dez, quando o deixei, sem que a tives-
se lido.  
  Se neste texto tivesse colocado uma srie de pon-
tos, o leitor perguntaria espontaneamente:  cQue teria
acontecido naqueles fatais dez minutos?  
  Agi com absoluta perfeio. O ditafone estava so-
bre a mesa, perto da janela, pronto a funcionar s no-
ve e meia em ponto. O mecanismo de relgio que lhe
adaptei funcionou correctamente. A poltrona, desloca-
da do seu lugar habitual, ocultava-o por completo.
Confesso que no esperava que Parker notasse a deslo-
cao da poltrona. Pensei que ficaria to transtornado

com a macabra descoberta que no repararia em to
insignificante pormenor. No contei com o olhar expe-
rimentado de um mordomo de raa.
  Se ao menos tivesse sabido, antes, que Flora iria
declarar ter visto o tio ainda com vida s dez menos
um quarto! Esta sua atitude deixou-me perplexo.
  O meu maior receio foi sempre a perspiccia de
minha irm Caroline. Talvez nunca venha a saber a
verdade. Poirot insinuou haver uma escapatria. Posso
confiar nele. Saber ajustar as coisas com Raglan. No
me agradaria que Caroline viesse a saber o que real-
mente se passou. Sei que me quer bem e tem o seu or-
gulho. Se o soubesse ficaria destroada. Assim, a mi-
nha morte entristec-la-, mas a tristeza passa, como
qualquer dor.
  Quando tiver ultimado este manuscrito, met-lo-ei
num sobrescrito, dirigido a Poirot.
  Depois, que acontecer? Veronal?
  Seria uma espcie de pena de Talio. No que enjei-
te qualquer responsabilidade pela morte de Mrs. Fer-
rars, mas sofreu a consequncia directa do seu crime.
No sinto piedade por ela.
  Nem por mim.
  Portanto, veronal!
  Teria sido contudo bem melhor que Hercule Poirot
no se tivesse reformado, nem vindo, justamente para
aqui, cultivar as suas abboras!





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O Autor e a Obra





  Agatha Christie, romancista e autora dramtica in-
glesa, de seu nome completo, Agatha Mary Clarissa
Miller Christie, nasceu em Torquay, a 15 de Setembro
de 1891. Filha de me inglesa e pai americano fez os
seus estudos em casa, educada por professores.
  Durante a Primeira Guerra Mundial alistou-se na
Cruz Vermelha para acompanhar o seu primeiro mari-
do, o coronel Archibald Christie, de quem tomou o
clebre apelido, que manteve apesar da separao em
1926. A sua experincia com venenos nos hospitais on-
de trabalhou est na origem do profundo conhecimen-
to sobre a matria, utilizado em muitos dos seus ro-
mances. Foi nesta poca que escreveu A Primeira
Investigao de Poirot ( 1920), com que deu incio  sua
longa e brilhante carreira de escritora de livros poli-
ciais. Coincidiu a obra com a apresentao da persona-
gem Hercule Poirot, o detective belga que se tornaria
quase to conhecido como a sua autora e que na reso-
luo dos enigmas policiais ser concorrente da amvel
Miss Jane Marple, a personagem favorita de Agatha
Christie.
  Depois do segundo casamento, em 1930, com o ar-
quelogo Max Mallowan, a escritora, apaixonada por
viagens, passou a dividir o tempo entre a   estrutura-
o dos crimes   e as escavaes arqueolgicas.
  Clebre, desde a publicao em 1926 de O Assassi-
nato de Roger Ackroyd, Agatha Christie manteve ao
longo da sua vasta obra - mais de oitenta volumes-
as caractersticas que identificariam o seu estilo: a in-
vestigao racional e a psicologia; o mistrio denso e a
variedade de personagens e ambientes; o emaranhado
de indcios e a soluo imprevista.
  Os seus livros encontram-se traduzidos em cerca
de cem lnguas e os exemplares vendidos ascendem s
centenas de milho. No entanto, no foram s os li-
vros policiais a proporcionar-lhe a admirao do pbli-
co, pois Agatha Christie tambm  autora de peas de
teatro - refere-se A Ratoeira (1951), mantida em cena
durante vinte e cinco anos -, histrias para crianas e
romances psicolgicos publicados sob o pseudnimo
de Mary Westmacott.
  Membro da Real Sociedade de Literatura e distin-
guida com um grau honorfico em Letras, atribudo
pela Universidade de Exeter, recebeu, em 1956, o ttulo de Dama do Imprio Britnico, pelo conjunto da
sua obra.
  Agatha Christie morreu em Wallingforg, Oxford, a
12 de Janeiro de 1976.
